05/06/03

Calote pode provocar greve do apito

Os árbitros que apitam na Série B só não estão bancando as passagens aéreas. O resto – viagens terrestres, hotéis e alimentação – está saindo do bolso dos juízes.

São Paulo - A arbitragem brasileira corre o risco de parar. Boa parte dos árbitros está pagando para trabalhar. Só do ano passado, a dívida da CBF chega a R$ 150 mil. Em 2003, os árbitros que apitam na Série B do Campeonato Brasileiro só não estão bancando as passagens aéreas. O resto – viagens terrestres, hotéis e alimentação – está saindo do bolso dos árbitros. Se a CBF não quitar a dívida nesta sexta-feira, como prometeu o secretário-geral Marco Antônio Teixeira, a situação deve se complicar.

O presidente da Associação Nacional dos Árbitros de Futebol (Anaf), Márcio Rezende Freitas, ainda não quer falar em greve geral. Mas admite que a situação é ‘dramática’ – especialmente na Série B do Campeonato Brasileiro. “Tem árbitro que está tirando o dinheiro do orçamento doméstico para continuar apitando. E quem não tem de onde tirar já deve estar pegando emprestado com agiota. A situação caminha para um desfecho perigoso.”

A situação ficou ainda mais complicada depois que o Estatuto do Torcedor entrou em vigor. A nova lei obriga a entidade organizadora das competições – no caso, a CBF – a se responsabilizar pelo pagamento das arbitragens. Ficou estabelecido que os árbitros pagariam as próprias despesas – com viagens, alimentação e estadia – e depois seriam ressarcidos pela CBF. Após oito rodadas do Brasileiro da Série B, nenhum pagamento foi feito.

Na Série A a situação não é tão grave, mas também tem os seus problemas. Só em São Paulo, Minas Gerais e no Rio Grande do Sul não há inadimplência. Os clubes desses Estados estão tirando do próprio borderô a verba para adiantar o pagamento da arbitragem. Mas tem árbitro que não recebe desde o ano passado. “Eu mesmo não recebo desde outubro. Por sorte, tenho como sobreviver. Mas quem pode garantir pela maioria?”, questiona Rezende.

O perfil do árbitro brasileiro é este: classe média, trabalhador, casado, pai de família, com idade entre 25 a 45 anos e diploma de segundo grau. Alguns têm curso superior, como o próprio Rezende (economista), Carlos Eugênio Simon (jornalista), Paulo César de Oliveira e Luciano de Almeida (professores de educação física), entre outros. Como a atividade ainda não é uma profissão, para pertencer ao quadro nacional cada árbitro tem de apresentar à CBF carteira de trabalho assinada ou documento de prove uma atividade profissional.

A luta dos árbitros é para alcançar a profissionalização. Um projeto de lei passou pelo Senado e por duas comissões da Câmara. Hoje está na Comissão de Constituição e Justiça e Redação. Em breve, deve virar lei. “É uma batalha que vem sendo travada desde 1988. Algumas coisas conflitavam com a lei, mas agora o texto foi enxugado. É um caminho sem volta”, avisa Rezende. “Tem muita gente forte mexendo com isso. Até hoje, nunca entendi por que a arbitragem é o único elo que não pode ser profissional numa cadeia tão profissional quanto o futebol.”

Enquanto a profissionalização da arbitragem não sai, o presidente da Anaf luta para que os árbitros recebam da CBF e, dessa forma, o risco de uma paralisação fique definitivamente afastado. Após uma visita feita à entidade, na segunda-feira, Márcio chegou bem próximo de um acordo. Nesta quinta-feira, no Rio, o presidente da Comissão Nacional de Arbitragem, Armando Marques, confirmou a informação de que a entidade vai quitar o débito com os árbitros nesta sexta.

A CBF estuda a hipótese de descontar 5% do borderô dos jogos para cobrir os gastos. Cada árbitro da Fifa recebe R$ 2,5 mil por partida, enquanto o assistente ganha R$ 1,5 mil. Quem é só do quadro da CBF ganha R$ 1 mil (árbitro) e R$ 800 (auxiliar).

José Eduardo Savóia


Fechar

Copyright ©  ANAF.COM.BR ® Todos os direitos reservados.