07/08/04

 Opinião sobre o sorteio (Portugal)

 

Arbitragem incendeia Liga

ANTÓNIO CASTRO
HELDER ROBALO

Três jornadas, erros de alguns árbitros, reclamações de dirigentes, treinadores e jogadores. Este é o panorama do futebol português que, por razões de diversa ordem, sem esquecer as temperamentais dos latinos, já está a "incendiar" a Liga, quando a hora das decisões ainda está longe, apesar de alguns clubes terem vivido alguns momentos de frustração.
Aliás, este é um aspecto que os elementos diretamente ligados à arbitragem salientam para explicar o tenso ambiente vivido nas últimas semanas. Caso do internacional Vítor Pereira que, com certa ironia, afirma: "A culpa de toda esta confusão são as derrotas. Penso que deveria haver um campeonato onde não houvesse derrotas, porque assim todos ficavam contentes e ninguém criticava ninguém..."
Em tom mais sério, o árbitro lisboeta adianta soluções: "Concordo com a idéia de colocar pessoas que estiveram ligadas à arbitragem, ex-árbitros, por exemplo, a dirigir a Comissão de Arbitragem, porque já têm um know-how da profissão que outros não têm; e outras com uma independência total de qualquer organismo, para acabar com certos vícios. Penso que não poderá haver estabilidade na arbitragem enquanto houver o sistema de sorteio. Mas é estranho que alguns colegas meus estejam a ser chamados para jogos internacionais de grande responsabilidade, quando cá são tão criticados."
Entretanto, Vítor Pereira recorda: "As alterações aos regulamentos foram decididos pelos próprios clubes, não foi por nós. Não fomos ouvidos nesta decisão, porque os clubes entenderam que a nossa opinião não interessava. Importa atender à existência de um quadro de árbitros em que, cerca de um terço, têm menos de 20 desafios nos escalões principais. É muito importante levar isso em linha de conta quando são chamados para apitar jogos mais complicados."
Análise sobre a qual se deve refletir, mas não faz esquecer as realidades. E, qualquer que seja a razão, os próprios árbitros, com atuações infelizes, não podem furtar-se às responsabilidades

 

Depoimentos

 

Valentim Loureiro
Presidente da Liga de Clubes


"Tem havido, de fato, segundo o que observo e a Comunicação Social relata, alguns erros de decisão dos árbitros e dos seus assistentes. Mas, a verdade, é que só passaram três jornadas e os árbitros, tala como os jogadores, ainda estão a começar a época, sem a rodagem suficiente para decidirem com mais precisão. Penso que a arbitragem deve continuar na Federação, mas defendo também que deve haver um único Conselho de Arbitragem, com duas ou três secções: uma para a I e II Liga; outra para o futebol não profissional; e, eventualmente, outra para a formação. Penso que se devem intensificar e melhorar os apoios logísticos e financeiros aos árbitros. É importante aumentar o recrutamento, a formação e os apoios a que os árbitros devem ter direito. E os clubes também terão que o fazer, há que apoiar mais. O sorteio dos árbitros assistentes, reconhece quem já lutou por isso e o aprovou, não melhorou a arbitragem. Pelo contrário. Na direção de um jogo, os árbitros têm que atuar como equipa. Não se conseguem as melhores equipas, entre os árbitros e tantos árbitros assistentes que, noutras épocas, poucas ou nenhumas vezes terão atuado em conjunto. O sistema misto, com sorteio dos árbitros e nomeações dos seus assistentes, parece-me melhor. Mas é tudo uma questão de mentalidade. Nós, portugueses, temos o coração muito perto da boca, temos dificuldades em conter os sentimentos."

 

Guilherme Aguiar
Diretor Executivo da Liga de Clubes


"A arbitragem vive neste clima de instabilidade por culpa das alterações aos regulamentos efetuadas pelos clubes. Enquanto havia a nomeação dos árbitros assistentes, tínhamos o cuidado de escolher um que acompanhava sempre o mesmo árbitro e outro que era da sua área de jurisdição. Graças ao sorteio, acontece que os árbitros mal conhecem os seus auxiliares e, muitas vezes, arbitram juntos pela primeira vez. Ora, quando estamos com alguém em quem não temos tanta confiança, as coisas não podem correr bem. Mas esta é uma instabilidade normal no início de época. Quem, lá fora, conhece o nível de arbitragem portuguesa, diz que estamos no bom caminho, que têm havido uma evolução muito grande do nosso quadro de árbitros. Não creio que a tendência de evolução fosse regredir por culpa dos árbitros. Aliás, eles provaram, neste início de temporada, que estão melhor preparados, fisicamente, do que na época passada. Quando houve a alteração dos regulamentos de arbitragem, avisamos os clubes dos perigos que delas resultavam, mas, alguns, não nos quiseram ouvir. E, embora a decisão na assembléia geral tenha sido aprovada por unanimidade, duvido que a maioria concordasse com as alterações. Sei que, por exemplo, o sorteio dos árbitros auxiliares passou, naquelas reuniões do G-18, por um voto apenas. E nem estavam presentes todos os clubes. Penso que foram medidas tomadas com alguma ligeireza, e há que alterar os regulamentos onde já se percebeu que se errou. No entanto, a arbitragem vai estabilizar nas próximas semanas. Posso afirmar isso com segurança porque conheço muito bem os árbitros. Nunca, como em Portugal, se imputa tanta responsabilidade aos árbitros, e isso, claro, leva a um aumento da indisciplina dos jogadores, que pensam "se os outros criticam, porque é que eu não hei-de criticar?". Num jogo coletivo como é o futebol, o árbitro é o único elemento que está sozinho, sobre quem recai toda a responsabilidade, que não pode ter um momento menos bom. E um dos grandes responsáveis por este clima de suspeição são os ditos comentadores de arbitragem, com as suas 14 câmaras. Gostava que eles fossem sujeitos a exames técnicos de arbitragem, para ver os resultados finais. Há que não esquecer que o árbitro tem uma fração de segundo para decidir e não recorre a câmaras de televisão para tomar a sua decisão".

 


Fechar

Copyright ©  ANAF.COM.BR ® Todos os direitos reservados.