
Jornal da Amazônia - Belém, Sábado, 21/05/2005
Juiz de futebol: profissão perigo
Para quem não se liga em futebol, o
juiz é uma figura, no mínimo, estranha. Ele corre o tempo inteiro em um campo
com mais 22 jogadores, ninguém passa a bola pra ele, é o primeiro a ser xingado
pela torcida e pelos próprios jogadores e, dizem, que sua melhor atuação é
quando não aparece.
Senhor do bem e do mal dentro do campo, o árbitro carrega consigo uma sina
difícil de ser assimilada. “É uma profissão perigo porque a gente é muito visado
por todos no estádio. Se o torcedor não acatar, o erro do árbitro pode ter
conseqüências desastrosas”, relata o presidente do sindicato dos árbitros do
Pará, José Gomes de Melo, que lembra o fato de que muitos juízes têm que ser
escoltados pela polícia para deixar o estádio do futebol.
Preocupados com sua integridade física, os árbitros incluíram em seus cursos até
defesa pessoal. “É importante a defesa pessoal, não só para se defender como
para aprender a manter o equilíbrio emocional” explica Lenílson Alcântara,
coordenador da comissão de arbitragem da Federação Paraense de Futebol. Defesa
ou ataque, há pouco tempo vimos um torcedor se dar mal no campeonato mineiro. Ao
invadir o campo para tirar satisfações com o árbitro, o torcedor do Atlético
Mineiro apanhou de um juiz que sabia se “defender” muito bem.
Todos concordam que não é fácil estar na pele de um árbitro de futebol. Sobre
sua figura sempre rondou a sombra da desconfiança, seja na sua técnica, seja em
seu caráter. Essa figura ímpar do futebol é citada, na maioria das vezes, de
maneira grosseira pela torcida e por muitos técnicos de clubes que, não raro,
creditam derrotas à atuação do juiz.
O caso mais recente foi na final do campeonato carioca deste ano. O poderoso
Fluminense e o surpreendente Volta Redonda perderam espaço na mídia esportiva
para o juiz Edilson Soares da Silva, o famoso Michael Jackson, que, por sua
atuação pífia na grande final, teve o nome envolvido em suspeita de suborno.
“Todo mundo é passível de erro. Mas o erro do árbitro é sempre mais grave”,
define Melo.
Até a tecnologia “joga” contra os árbitros
Convenhamos que não é uma profissão invejável, e que ninguém, em sã consciência,
sonha em ser árbitro desde criança. A verdade é que para ser juiz é preciso
estar mais disposto a ser julgado do que julgar, condenado do que condenar.
Também pudera, suas interpretações dos fatos podem mudar resultados, determinar
destinos, fazer vibrar ou enfurecer uma torcida.
A tecnologia televisiva somada ao surgimento dos comentaristas de arbitragem nos
jogos deixou tudo mais difícil ainda. Enquanto nas quatro linhas, o juiz tem uma
fração de segundos para tomar uma decisão, os comentaristas e os telespectadores
vêem o lance várias vezes e de vários ângulos antes de dar seus veredictos. Se o
juiz acerta, segue o jogo. Se erra, será crucificado até o próximo lance
emocionante do partida.
Macedão sempre disse ser “o melhor”
“Sentado na cadeira, todo mundo é um bom árbitro” filosofa o lendário árbitro
Antonio Macedo, o Macedão, que diz nunca ter passado aperto em seus quase 30
anos de arbitragem profissional. “Toda vez que eu ia apitar um jogo, eu colocava
na minha cabeça que eu tinha que ser o melhor em campo”, completa.
Mas qual o juiz que não tem história para contar? O que dizer daquele que apitou
Argentina e Inglaterra na Copa do Mundo de 1986 que não viu a “mão de Deus” de
Maradona. E o gol que o árbitro José de Assis Aragão fez em um jogo de Santos e
Palmeiras? Histórias há muitas, mas uma das mais fantásticas trata do dia em que
um juiz foi expulso de campo por tentar excluir do jogo Pelé, já consagrado
como rei.
A torcida protestou tanto que Pelé voltou a campo e o juiz não.
Sua Excelência, o árbitro
Um árbitro de futebol é um profissional liberal. Ele é ligado a uma federação,
mas só ganha dinheiro se estiver em atividade. Os jogos do campeonato paraense,
por exemplo rendem cerca de R$ 800 para o árbitro principal, R$ 400 para os
assistentes e R$ 250 para o 4º árbitro; na série C do Brasileirão, o árbitro
principal vale R$ 300, os assistentes R$ 150 e o 4º árbitro R$ 100; Na série B
este valor sobe para R$ 1.000, R$ 500 e R$ 250, respectivamente; e, claro, na
série A, a profissão fica mais rentável, um juiz filiado à Fifa ganha cerca de
R$ 2.500 por partida mais diárias, os assistentes R$ 1.000 e o 4º árbitro R$
300.
Para se tornar um árbitro de futebol é necessário ter (ou estar cursando) o
segundo grau, freqüentar curso específico de formação em uma escola de árbitros,
que dura, em média, de 6 a 8 meses, e é realizado a cada dois anos, fazer um
teste físico e se integrar à federação.
Condenados pela distância?
Atualmente, o Pará tem seis árbitros no quadro nacional da CBF. Porém, desde
1988 nenhum árbitro é escalado para apitar um jogo sequer na série A do
Campeonato Brasileiro. Segundo Salsi Maria Tavares, 13 anos de arbitragem, há
muita má vontade dos dirigentes da Confederação Brasileira de Futebol. “O
Armando Marques (presidente da Comissão de arbitragem da CBF), disse que Belém é
muito longe. Por isso não escala árbitro daqui. Eu creio que o problema é mesmo
de politicagem”, alfineta Tavares.
“Temos um alto nível na arbitragem paraense. Acabamos de realizar um campeonato
estadual, sem um problema de arbitragem”, explica Lenilson Alcântara que não vê
lógica para que os paraenses sejam preteridos pela confederação. “Eu não digo
que haja preconceito, mas também não há boa vontade. Falta critério na escala de
árbitros para os sorteios”.
Porém, para José Gomes de Melo, Presidente do Sindicato, a geografia do Pará
pesa menos do que o relacionamento entre a federação paraense e a CBF. “A
comissão de arbitragem paraense precisa ser mais positiva. Precisa se impor, e
ter mais atenção com os seus árbitros”.
Juízes são contra arbitragens
externas
José Melo também aponta como vexatório árbitros de fora do Estado apitar jogos
do campeonato paraense. “Isso é inadmissível. A federação deveria não aceitar.
Isso também denigre a imagem do arbitro local. Dificulta a gente apitar fora. Os
caras dizem ‘vocês não apitam nem os jogos de vocês, imagina os de fora’. Esse
papel é da federação. Ela tem que ressaltar a qualidade e a integridade dos
nossos árbitros” alfineta.
Alcântara se defende afirmando que a federação paraense tem feito esforços para
quebrar essa barreira, mas “Não adianta brigar com que é mais forte”.
Tavares vai mais longe. “Se colocasse a gente, pelo menos, no sorteio era uma
questão de sorte, mas nem isso” lamenta.
O ex-árbitro Macedão entra na discussão. “O Domingão (Domingos de Jesus Viana)
foi apitar um jogo do Palmeiras, em São Paulo, e vacilou na hora de aplicar um
cartão vermelho pra um jogador que agrediu o outro. Vacilou. Perdeu a chance”.
Apesar das controvérsias, a unanimidade fica por conta do nível crescente dos
árbitros paraenses. “Eu não tenho dúvidas que nossos árbitros estão aptos a
apitar qualquer jogo da série A”, declara Alcântara.
Macedão, o juiz-sensação dos gramados
Uma das figuras mais lendárias do futebol paraense, sem dúvida, chama-se Antonio
Macedo. Juiz profissional por 18 anos, Macedão marcou época nos gramados
paraense. Em 2000 lançou o livro “Do alto do meu apito” contando suas aventuras
no futebol. Segundo ele, o livro fez tanto sucesso, que ,em menos de um mês,
esgotou a tiragem. E por isso, já está trabalhando na segunda edição do livro,
revisada e ampliada. “Estou colocando mais 80 páginas, com histórias que não
entraram no primeiro livro”.
Do alto do meu apito, é também uma referência ao porte físico do ex- juiz:
Macedão é Macedão porque mede 2,1 metros de atura e tem uma compleição física de
meter medo a qualquer jogador que quisesse por em cheque a autoridade do
árbitro. “O tamanho ajudou a impor moral. Mas sempre fui um árbitro correto”.
Macedão começou a carreira de arbitro como está terminando, em campos de
várzeas. Em 1970, no Rio de Janeiro, onde morava, organizou um peladão na
comunidade e assumiu o apito. Lino Teixeira, amigo e árbitro da federação
carioca, á época, o encorajou a ingressar na carreira. “Ele disse que eu tinha
dom. Eu nunca havia imaginado ser árbitro de futebol, mas peguei corda e comecei
a fazer o curso”, lembra.
Macedo veio para Belém em 1977
Após iniciada sua carreira, apitando divisões de base do cariocão, Jorge
Mubarach, seu tio e diretor da sede do Paysandu na época, o trouxe para Belém. E
em janeiro de 1977 começava sua longa história nos gramados paraense. “Já em 77,
o Coronel Nunes (presidente da FPF) me chamou pra apitar um Re x Pa, eles (Remo
e Paysandu) queriam um juiz de fora, então o Coronel disse que estava chegando
um do Rio de Janeiro, e me indicou. Até hoje tenho o jornal O LIBERAL com a
manchete ‘ No Re x Pa, o melhor em campo foi o juiz’”, conta e lembra que nunca
teve que esconder sua simpatia pelo Paysandu. “Isso nunca foi empecilho pra mim,
no Tabu de 93 a 96 (33 vitórias do Remo sobre o Paysandu) eu apitei 6 jogos e
bandeirei 9”.
Quanto ao nível dos árbitros atuais, Macedão é só elogios e acredita que só com
força política os atuais árbitros poderão entrar na escala da primeira divisão
do campeonato brasileiro. “A gente teria que ter alguém, um paraense na comissão
de arbitragem nacional”
Atualmente, Macedão está planejando fazer um museu em sua casa com tudo sobre
sua passagem pelo futebol. Em sua longa carreira, apitou cerca de 130 jogos,
incluindo a inauguração do Mangueirão, em 1978, em um jogo festivo entre a
seleção do Pará e a do Uruguay e 56 Re x Pa.
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