
27/11/01
Anaf na Câmara dos Deputados
DEPARTAMENTO DE TAQUIGRAFIA, REVISÃO E REDAÇÃO
NÚCLEO DE REDAÇÃO FINAL EM COMISSÕES
TEXTO COM REDAÇÃO FINAL
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OUTROS EVENTOS |
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| EVENTO: | N°: X_0321/01 | DATA: 27/11/01 |
| INÍCIO: 11:17 | TÉRMINO: 12:45 | DURAÇÃO: 01:28 |
| TEMPO DE GRAVAÇÃO: 1:30 | PÁGINAS: 31 | QUARTOS: 18 |
| REVISORES: LUCI, ROSA ARAGÃO | ||
| SUPERVISÃO: ANA MARIA, CLÁUDIA LUIZA | ||
| CONCATENAÇÃO: ESTELA | ||
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DEPOENTE/CONVIDADO - QUALIFICAÇÃO |
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ÁLVARO DIAS - Senador e Presidente da
CPI do Futebol no Senado. ARUDÁ PIRES LIMA - Vice-Presidente Regional da Associação Nacional de Árbitros de Futebol — ANAF WILSON PIAZZA - Presidente da Federação das Associações dos Atletas e participante da Associação de Garantia ao Atleta Profissional em Minas Gerais SÉRGIO CORRÊA DA SILVA - Secretário-Geral da Associação Nacional dos Árbitros de Futebol e Vice-Presidente do Sindicato dos Árbitros de São Paulo. |
| SUMÁRIO: Ato em defesa do futebol brasileiro. |
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OBSERVAÇÕES |
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Grafia não confirmada: SIAP |
O SR. PRESIDENTE (Deputado Pedro Celso) – Ao agradecer a todos a presença, convidamos para compor a Mesa o Senador Álvaro Dias, Presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito do Futebol no Senado Federal (palmas), e o Deputado Silvio Torres, ex-Relator da CPI CBF/Nike na Câmara dos Deputados. Há pouco, esteve presente o Senador Geraldo Cândido, um dos autores do requerimento para a instalação da SIAP. S.Exa. teve de se retirar em função de compromissos.
Queremos convidar, ainda, o tricampeão mundial de futebol de 1970 e Presidente da Federação das Associações de Garantia ao Atleta Profissional, o craque, amigo e ídolo Wilson Piazza (palmas); o Vice-Presidente Regional da Associação Nacional de Árbitros de Futebol — ANAF, Sr. Arudá Pires Lima, representando o Presidente da entidade, Sr. Márcio Resende (palmas); o jornalista Jaime Sautchuk, autor do livro “Os Descaminhos do Futebol”, que conta com o prefácio do também craque Tostão (palmas); o Superintendente das Associações de Atletas Profissionais, Sr. Márcio Tanos de Almeida (palmas); o Secretário-Geral da Associação Nacional de Árbitros de Futebol e Vice-Presidente do Sindicato dos Árbitros de São Paulo, Sr. Sérgio Corrêa (palmas); e uma pessoa que deu muitas alegrias ao País com sua arte e seu compromisso, o ex-jogador e campeão de basquete, nosso querido amigo Ubiratan Pereira Maciel, que atualmente trabalha com o Secretário Nacional de Esporte, Sr. Lars Grael (palmas).
Hoje, nesta Casa, será debatido projeto polêmico, que diz respeito à Consolidação das Leis do Trabalho — se depender de mim, ele não será votado. Em função disso, estamos vivendo um dia atípico, porque há um claro cerceamento da entrada das pessoas, por lamentável orientação do Presidente Aécio Neves. Esta Casa, que deve representar o povo, infelizmente não permite seu acesso, porque será votado projeto que, do nosso ponto de vista, fere de morte os direitos da classe trabalhadora brasileira.
Estamos enfrentando esse problema. Compreendemos o papel dos companheiros da segurança. Não os condenamos, pois recebem ordens, mas lamentamos profundamente esse cerceamento, em função da votação de um projeto de lei que vai mudar significativamente a vida de milhões de brasileiros.
Este ato em defesa do futebol brasileiro foi idealizado há algum tempo, com a finalidade de dar apoio a um trabalho que consideramos da maior seriedade. Queremos parabenizar o Senador Álvaro Dias pela coragem e determinação, assim como o Relator, Senador Geraldo Althoff, o Senador Geraldo Cândido e demais membros daquela Comissão, que estão realizando investigação profunda sobre a realidade do futebol brasileiro.
Queremos que a Comissão Parlamentar de Inquérito chegue ao seu final da forma mais tranqüila possível. Esse trabalho durou meses, exigindo sacrifício, esforço e dedicação para apontar os culpados pela crise causada pelos escândalos de corrupção no futebol brasileiro, patrimônio cultural do povo que não pode, de forma alguma, ser tratado dessa forma. O resultado final da CPI no Senado é importantíssimo para que possamos dar novos rumos ao futebol brasileiro.
Fui, com muito orgulho, um dos Vice-Presidentes da CPI da CBF/Nike na Câmara dos Deputados e tive enorme satisfação em trabalhar com o Relator, Deputado Silvio Torres, destacandoa integridade, a lisura e a firmeza de S.Exa. ao levar adiante a votação do relatório. Trata-se de Parlamentar sério, competente e comprometido, que conduziu de forma correta os trabalhos daquela CPI. Parabenizo também o Deputado Aldo Rebelo, Presidente da Comissão, e os assessores que viraram noites conosco pelo Brasil afora.
Infelizmente, a conclusão dos trabalhos não correspondeu ao que desejávamos. Ainda assim, o relatório produzido por S.Exa., com o apoio de vários Deputados, hoje serve como instrumento importante para vários membros do Ministério Público, que estão aprofundando a investigação, buscando punir os responsáveis pelos desmandos no futebol.
Quero agradecer a todos a presença neste ato, que busca fortalecer o resultado final da Comissão Parlamentar de Inquérito do Futebol no Senado Federal.
Ao final, leremos manifesto em defesa do futebol brasileiro e pela aprovação do Relatório da CPI do Futebol, que enviaremos à CPI do Senado.
Passo a palavra ao Presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito do Futebol no Senado, ilustre Senador Álvaro Dias.
O SR. SENADOR ÁLVARO DIAS – Sr. Presidente, primeiro, quero enaltecer a iniciativa de V.Exa., pela importância de se exercer uma contrapressão neste momento estratégico, uma vez que, na próxima semana, a CPI do Futebol no Senado estará deliberando sobre dois relatórios fundamentais: o que se refere à investigação e o que pretende oferecer ao País uma nova legislação para o desporto, tentando estabelecer um divisor de águas na administração do futebol brasileiro.
Tomei a iniciativa de propor a instalação da CPI do Futebol no Senado depois de acompanhar o esforço do Deputado Aldo Rebelo no sentido de fazê-lo na Câmara, durante mais de dois anos, defrontando-se inclusive com parecer contrário da Comissão de Constituição e Justiça e de Redação, que decidiu pela inconstitucionalidade da proposta. Como a CPI encontrava dificuldades na Câmara, nós a propusemos no Senado. Ela se tornou irreversível, o que possibilitou sua criação também nesta Casa.
Quero enaltecer o esforço dos Deputados Pedro Celso, Silvio Torres, Aldo Rebelo e outros que contribuíram de forma fundamental para que o futebol do Brasil fosse investigado com profundidade.
No Senado Federal, trabalhamos mais de um ano. Conseguimos identificar mazelas, irregularidades, ilícitos, corrupção, vícios históricos e desvios incríveis, que levaram nosso futebol à situação de pobreza que vivencia hoje. Sem dúvida, um País que movimenta mais de 18 bilhões por ano na área e vê parcela considerável desses recursos enviada para o exterior, perdea oportunidade de gerar empregos, ofertar salários e receita pública; deixa, portanto, de ter o futebol como atividade econômica rentável, que contribui de forma expressiva para o processo de desenvolvimento econômico e social.
O futebol não é apenas a grande paixão nacional. É uma atividade econômica da maior importância, que ainda não alcançou os níveis desejados. Em países da Europa e também nos Estados Unidos, o esporte, de modo geral, corresponde a 4% do PIB, enquanto no Brasil a apenas 1,6%, muito aquém das suas extraordinárias potencialidades. Não vivemos num País rico, que pode se sujeitar a esse tipo de desperdício.
O Poder Legislativo, portanto, tinha o dever de apurar por que o País perde tanto e por que não oferece à população uma atividade econômica que pode ser, repito, de grande rentabilidade.
Quais foram os crimes fundamentais detectados? Contra a ordem tributária e o Sistema Financeiro Nacional, implicando evasão de divisas, sonegação e elisão fiscal, lavagem de dinheiro, cobertura cambial, enriquecimento ilícito, falsidade ideológica e crime eleitoral. Essa é uma verdadeira seleção de ilícitos praticados no submundo da administração do futebol.
Aliás, a estrutura dessa administração no Brasil é a arquitetura da farsa, que estabelece a desorganização e a anarquia em benefício da desonestidade. Estas são intencionais, porque promovem uma impunidade incomum, beneficiando poucos cartolas, que se enriquecem às sombras das entidades e dos clubes brasileiros.
Não tivemos a pretensão de investigar, em sua amplitude, o imenso mundo do futebol brasileiro. Estabelecemos a estratégia da seleção dos fatos mais relevantes, apontando as prioridades. Queremos contrariar a tradição brasileira de que a corda arrebenta sempre do lado mais fraco, alcançando os dirigentes maiores do nosso futebol. São essas figuras notórias as maiores responsáveis pelos desvios e descaminhos do setor, como disse nosso amigo em seu livro.
Esperamos obter resultados concretos com os trabalhos realizados. Não tenho dúvida de que tanto a CPI da CBF/Nike, Deputado Silvio Torres, quanto a CPI do Futebol no Senado já produzem resultados extremamente positivos. Há uma mudança de mentalidade na gestão do futebol brasileiro. Negócios mirabolantes, com contratos milionários e irresponsáveis, não estão ocorrendo mais. Alguns dirigentes os faziam e, com isso, conquistavam títulos, mas arrebentavam os cofres, promoviam a inadimplência, iam embora e nada lhes acontecia.
A mudança de mentalidade faz com que os clubes invistam nas categorias de base, descubram novos talentos e eliminem a disputa desigual. Por isso, clubes razoavelmente organizados como o São Caetano e o Clube Atlético Paranaense pontificam na competição nacional. Isso já é resultado das mudanças estimuladas pelas duas CPIs.
Normalmente, diz-se que CPI termina em pizza. Não há como isso acontecer, porque a pizzaria não se instalou verdadeiramente. Os resultados são concretos e visíveis, pois a Receita Federal já recuperou recursos subtraídos dos cofres públicos do País. Recentemente, o Flamengo foi obrigado a pagar mais de 2 milhões de reais em função de um caixa dois; o Banco Central autuou o Vasco da Gama em 1,5 milhão de dólares, por ter negociado um jogador sem a compatível operação cambial.
Noventa e nove auditores da Receita Federal trabalham em função de relatórios de CPIs do Congresso Nacional. A Receita Federal auditou clubes e entidades após a instalação dessas Comissões. O Banco Central obteve informações, antes inacessíveis, sobre contratos de transação de jogadores com o exterior, remetidos à CPI do Futebol pela CBF. Enfim, há mudanças efetivas.
Entretanto, esperamos mais. Além do farto material de prova encaminhado pela CPI da Câmara dos Deputados, na próxima semana a CPI do Futebol do Senado aprovará relatório elaborado pelo Senador Geraldo Althoff, que se dedicou ao trabalho com seriedade e competência, a fim de propor a punição de alguns dos maiores dirigentes do futebol brasileiro.
Afirmei, há pouco, à imprensa que o Ministério Público poderá dispensar o aprofundamento das investigações em determinados casos, porque os consistentes elementos de prova são suficientes para denúncia, encurtando o tempo até o julgamento pelo Poder Judiciário.
Muitos brasileiros gostariam de ver os dirigentes algemados e conduzidos ao presídio. Isso não será possível após a conclusão da CPI, mas certamente se exigirá um julgamento rigoroso e exemplar para evitar novos abusos.
Nossa intenção, Deputado Pedro Celso, é propor uma legislação que inclua a eleição nas entidades e clubes, defina a duração do mandato e a hipótese da reeleição. Isso possibilitaria oxigenar os quadros dirigentes, tornando-os mais competentes e conferindo maior transparência e fiscalização à necessária prestação de contas desses órgãos.
Esperamos que o Poder Executivo seja subscritor da proposta, para que possa vigorar imediatamente, estabelecendo nova ordem jurídica para a administração do futebol brasileiro.
Faço minhas as palavras de protesto de V.Exa., Deputado Pedro Celso, quanto à postura antidemocrática do Presidente Aécio Neves de impedir o acesso de pessoas que desejam participar deste evento. É uma decisão inexplicável nesta Casa do Poder Legislativo, que representa a população.
De qualquer forma, o objetivo de V.Exa. foi alcançado. Este ato é significativo, no momento em que o Senado Federal decide sobre o relatório investigativo e o propositivo. Renovo nossos cumprimentos àqueles que na CPI da CBF/Nike esforçaram-se para promover uma limpeza na administração do futebol brasileiro.
Muito obrigado. (Palmas.)
O SR. PRESIDENTE (Deputado Pedro Celso) – Agradeço a V.Exa. a participação e o cumprimento pelo trabalho à frente da CPI do Futebol no Senado.
Recebemos algumas mensagens.
Pelé agradece o convite para o evento, mas informa que não poderá comparecer, pois estará em viagem pela Inglaterra e outros países. Ele nos envia um abraço e nos deseja sucesso.
Valter Casagrande, igualmente, agradece, mas está indo para a Argentina a trabalho. Deseja sucesso e empenha seu total apoio e solidariedade ao evento.
Sócrates diz que compromissos de última hora o impedem de comparecer ao ato, mas que nossa luta tem seu apoio integral. Ele também parabeniza a mim e aos organizadores desta reunião.
Passamos a palavra ao Sr. Arudá Pires Lima, Vice-Presidente Regional da Associação Nacional de Árbitros de Futebol — ANAF, na qualidade de representante do Presidente da entidade, Márcio Resende.
O SR. ARUDÁ PIRES LIMA – Deputado Pedro Celso, trago um caloroso abraço do Presidente da Associação Nacional de Árbitros de Futebol, o competente árbitro Márcio Resende de Freitas, que parabeniza V.Exa. pela iniciativa neste momento crítico e decisivo da maior instituição popular do Brasil: o futebol.
A ANAF acredita na CPI que investiga o futebol. Sabemos que ela está preocupada com os anseios dos dirigentes e dos clubes, mas, acima de tudo, temos consciência de que — por termos essa consciência, em outras oportunidades, estivemos no Senado, conversamos com Senadores e trouxemos as propostas e os anseios dos árbitros do futebol — o principal objetivo da Comissão é a moralização do futebol para o torcedor.
A mensagem do Presidente da ANAF traduz os anseios dos árbitros de norte a sul e de leste a oeste do Brasil. Queiram ou não os dirigentes do futebol, este não será exercido sem sua peça principal, ou seja, o árbitro.
Temos consciência de que quanto mais moralizado o futebol, melhor para todos os envolvidos, principalmente os árbitros, que terão sua missão bem cumprida dentro dos campos.
A ANAF não pode deixar passar este momento sem fazer referência à sua maior preocupação, desde que foi criada em 1997: lutar pela aprovação do Projeto de Lei nº 4.252/83, que hoje tramita na Câmara dos Deputados e trata da regulamentação da profissão do árbitro de futebol.
Nesse sentido, temos buscado ajuda de todas as maneiras, Sr. Deputado. Também pedimos a V.Exa. apoio para a aprovação do projeto, hoje com novo Relator, o Deputado Eurico Miranda, e já com parecer favorável do anterior, Deputado Ciro Nogueira.
Então, nossa mensagem de hoje, Deputado, é no sentido de pedir também a colaboração de V.Exa. e de todos os envolvidos com o futebol, para que o projeto seja aprovado.
Este encontro é de extrema importância, pois reúne pessoas preocupadas com a situação por que passa o futebol brasileiro. É dessa forma que poderemos proporcionar a moralização do mesmo.
Muito obrigado. (Palmas.)
O SR. PRESIDENTE (Deputado Pedro Celso) – Muito obrigado, Sr. Arudá Pires Lima.
Passo a ler mensagem do Presidente da ANAF, árbitro Márcio Resende Freitas:
“Excelência, os Presidentes presentes à 11ª Assembléia-Geral das entidades que representam a categoria dos árbitros de futebol tomaram conhecimento do ato público a ser realizado no dia 27 do corrente mês.
Diante do exposto, solicitamos que fique registrado que a arbitragem nacional deseja que seja cumprida a Circular nº 763, que trata da organização da arbitragem no seio das confederações nacionais”.
Sr. Arudá, a ANAF pode contar com nosso total apoio no que diz respeito à profissionalização da categoria dos árbitros de futebol no Brasil. Se estiver ao nosso alcance, levaremos adiante o projeto.
Registramos a presença do Sr. Hélio da Fonseca, Presidente da Liga Esportiva do Gama; do Sr. Inácio Filho, Presidente da Liga Esportiva do Paranoá; do Sr. Roberto Leal, do Setorial Nacional do Esporte e Lazer do Partido dos Trabalhadores; do Vereador José Narciso, do Partido dos Trabalhadores de Planaltina de Goiás; do Sr. Erivaldo Alves, Presidente da Sociedade Esporte de Santa Maria, da segunda divisão do futebol profissional do Distrito Federal; do Sr. Paulo Meneses, Presidente da Liga Esportiva das Categorias Independentes do Núcleo Bandeirante; do Sr. José Ribamar Correia, Coordenador-Geral da Associação Atlética e Recreativa Nova Cidade; do Sr. Eraldo Cabral, Presidente da Liga do Esporte Amador de Santa Maria; e do Sr. José Beni Oliveira, Presidente do Ceilândia Esporte Clube, da primeira divisão do futebol profissional do Distrito Federal.
Agradeço ao Deputado Dr. Rosinha, amigo e companheiro da CPI da CBF/Nike, a presença neste encontro.
O próximo orador é o Sr. Wilson Piazza, tricampeão mundial de futebol, Presidente da Federação das Associações de Garantia ao Atleta Profissional, craque, ídolo e exemplo de cidadão e esportista. Agradecemos a S.Sa. o empenho em comparecer a este evento, mesmo com dificuldades em sua agenda.
O SR. WILSON PIAZZA – Srs. Deputados Pedro Celso, Silvio Torres e Dr. Rosinha, companheiros que compõem a Mesa, demais esportistas presentes, senhores da imprensa, a intervenção do Senador Álvaro Dias, Presidente da Comissão do Senado, reforça a confiabilidade que temos no trabalho da CPI que investiga os problemas afetos ao futebol brasileiro.
Estou aqui na qualidade de Presidente da Federação das Associações dos Atletas e participante da Associação Nacional de Garantia ao Atleta Profissional em Minas Gerais, na qual trabalho há 25 anos.
O futebol representa não apenas a realização de meus sonhos de garoto, mas minha própria vida. Além disso, é um bem social, pois o clube de futebol nada mais é que uma instituição pública.
Lamentavelmente, ao longo do tempo, alguns dirigentes do futebol “profissional” — entre aspas — entenderam por bem apoderar-se dele, esquecendo-se de que apenas representam a categoria, na qualidade de Presidente dos clubes, por meio de respaldo estatutário. Temos visto, principalmente após a abertura do mercado externo, a partir dos anos 80, ações danosas que levam à penúria, à fragilidade e à insolvência do setor.
Nossos clubes, na verdade, estão falidos. Nossa maior riqueza é o torcedor. Grande parte dos maus dirigentes — não é justo generalizar —, especialmente dos grandes clubes, resolveu fazer destes seu próprio negócio.
O tempo do futebol romântico, em que se jogava em defesa da cor do clube, com o coração na ponta da chuteira, passou até mesmo para alguns atletas.
Alguns dirigentes sentem-se no direito de, em nome do patrimônio público e da dita paixão pelo clube, cometer atos lesivos para a Nação, em última análise, que o clube representa.
Lamento que outros companheiros, principalmente de instituições representativas da classe, estejam ausentes. Minha presença serve apenas para reafirmar minha confiança na CPI da CBF/Nike, instalada na Câmara, e na CPI do Futebol criada no Senado, à qual fui convidado a prestar depoimento, há alguns meses.
O Senador Álvaro Dias afirmou que a CPI não vai se transformar em pizza. O início dos trabalhos já mostrou o quadro atual, que conhecemos de perto. Ele tem reflexos inclusive na Seleção, que a duras penas conseguiu classificar-se para a Copa do Mundo. Estou feliz com a classificação, como torcedor e ex-atleta, mas se ela não tivesse ocorrido, seria uma oportunidade para repensarmos nosso futebol.
Cumprimentamos V.Exas. pelo trabalho desenvolvido, pois sabemos da luta que se trava nos bastidores. Apesar de estarmos numa Casa política, essa bandeira não tem sigla partidária, pois beneficia o futebol brasileiro. Ambas as CPIs trarão ao conhecimento da sociedade os responsáveis pelas irregularidades, para que as punições aconteçam.
Temos muita esperança de que um novo tempo se inicie. Não é possível que as transações ilícitas continuem.
Faço parte do sistema de assistência ao atleta profissional, criado pela Lei nº 6.269, aprovada pelo Congresso Nacional, em 1975, em pleno regime autoritário. Ele visa proporcionar ao atleta, por intermédio das AGAPs, uma qualificação alternativa, pois o mundo da bola dura pouco. Quando encerra sua carreira, muitas vezes o profissional fica completamente marginalizado, em situações constrangedoras, mesmo tendo sido um ídolo que conquistou grandes vitórias para o futebol brasileiro.
Esperamos que a nova legislação socorra esse sistema fragilizado. Até hoje, não se concretizou uma ação política que o fortalecesse, mas continuaremos lutando nesse sentido.
Deputado Pedro Celso, o trabalho de todos os Parlamentares envolvidos no assunto nos dá certeza de que haverá reformulações em nosso futebol. Pior ele não pode ficar, tendo em vista seus atuais dirigentes, sua falta de organização, de transparência e de credibilidade. Esse caos reflete-se, repito, nos resultados apresentados nas eliminatórias da Copa, o que não podemos admitir no chamado País do futebol.
Parabenizo V.Exas. pela iniciativa e peço a Deus que os ilumine, para que o desfecho dos trabalhos desta Casa e do Senado Federal traga novos ventos para o bem do futebol brasileiro.
Muito obrigado. (Palmas.)
O SR. PRESIDENTE (Deputado Pedro Celso) - Sr. Wilson Piazza, na qualidade de integrante da Comissão Especial que examina o Estatuto do Desporto, faremos tudo o que pudermos em benefício das Associações de Garantia ao Atleta Profissional.
Quero registrar a presença do ex-Presidente do glorioso Flamengo, ex-Deputado Márcio Braga. (Palmas.)
Antes de passar a palavra ao próximo orador, leio mensagem recebida de Eduardo Gonçalves Andrade, nosso querido Tostão, tricampeão do mundo de futebol:
“Quando compareci à Comissão Parlamentar de Inquérito CBF/Nike dessa Câmara dos Deputados, deixei registrada a minha preocupação com os rumos do futebol brasileiro: estádios vazios; calendários caóticos; clubes falidos; denúncias de corrupção; jogadores na Europa com passaportes falsos; empresários inescrupulosos; jovens atletas ludibriados em seus sonhos de se tornarem ídolos do futebol.
Todos esses fatos e outros tantos são conseqüência direta do modelo de gestão ultrapassado e desorganizado que leva à ineficiência, à troca de favores, ao nepotismo, à perpetuação de alguns no poder, ao desmando e à falência do futebol brasileiro.
Espero que, a partir do relatório final do Senado Federal, comecem para valer as mudanças de que o futebol brasileiro tanto necessita.”
O Sr. Wilson Piazza pede novamente a palavra.
O SR. WILSON PIAZZA – Deputado, todos fazemos parte do mesmo segmento, seja como ex-atletas, seja como atletas em atividade, seja como dirigentes de federações, confederações e clubes. Queremos o bem do futebol brasileiro, sem demagogia.
Os responsáveis pelas irregularidades devem ser punidos com rigor, mas o clube deve ser preservado, porque é um bem público. Ele não pode ser penalizado pela má ação dos dirigentes.
É essa minha preocupação. (Palmas.)
O SR. PRESIDENTE (Deputado Pedro Celso) - Muito obrigado.
Passamos a palavra ao Deputado Silvio Torres, Relator da CPI da CBF/Nike na Câmara dos Deputados, cujo trabalho parabenizamos pela seriedade e competência.
O SR. DEPUTADO SILVIO TORRES – Boa tarde a todos.
Deputado Pedro Celso, cumprimento V.Exa. por esta importante mobilização, num momento crucial para os rumos do futebol brasileiro. Saúdo, igualmente, o Deputado Dr. Rosinha, Sub-Relator da área de federações da nossa CPI, que fez um trabalho brilhante, juntamente com V.Exa. e tantos outros companheiros que não estão aqui hoje.
Nossoempenho está sendo recompensado, às vésperas da divulgação do relatório da CPI do Futebol, no Senado, e possibilitará a faxina necessária no futebol brasileiro, mediante as devidas providências judiciais.
Cumprimento os demais componentes da Mesa, em cujo trabalho também acredito. Wilson Piazza, como tantos outros, felizmente se mantém como reserva moral e nos dá motivação para acreditar que o futebol brasileiro não vai se perder na história, como se sua dignidade, sua luta e suas glórias fossem parte de um passado que não volta. Isso é inaceitável. Se houve mudanças na economia e no mundo, elas não mudaram o caráter, a dignidade e o amor à camisa. Fico feliz ao vê-lo com a mesma disposição com que nos trouxe o tricampeonato mundial, dando-nos tanta alegria.
Deputado Pedro Celso, quero registrar que o Deputado Aécio Neves, Presidente da Casa, tem tomado atitudes democráticas, inclusive em seu relacionamento com as diferentes correntes partidárias aqui representadas. Por isso, S.Exa. tem sido merecidamente aplaudido. Lamento que algumas pessoas não tenham conseguido participar dos nossos debates. Tenho certeza de que do Presidente da Casa não partiu a determinação para impedir a livre manifestação de ninguém. Faço questão de ressalvar o profundo sentimento democrático de S.Exa., do qual sou conhecedor.
Serei breve. Todos estamos perfeitamente conscientes do diagnóstico do futebol brasileiro, que causa profunda angústia com relação ao seu futuro. A instalação das CPIs da Câmara e do Senado vai permitir que a sociedade aprofunde o conhecimento de mazelas, irregularidades, crimes e escândalos antes mascarados por resultados, favoráveis ou não, e por distorções que impediam a visão da realidade.
Não faltou quem denunciasse a situação: parte da mídia brasileira, especialmente os profissionais sérios da imprensa esportiva, dirigentes responsáveis, representantes de atletas e dos demais setores. Entretanto, era necessária investigação oficial de uma CPI para que se rompessem as barreiras, fosse aberta a cortina e se encontrassem as verdadeiras raízes do problema.
Nosso relatório, elaborado com a colaboração da competente Consultoria da Câmara Federal e de vários Deputados empenhados na busca da verdade, contribui de modo permanente para identificar quem está levando o futebol brasileiro à ruína.
Os bilhões que o setor movimenta, conforme lembrado pelo Senador Álvaro Dias, certamente não foram destinados para o estímulo das categorias de base, nem para a melhoria dos nossos estádios, nem para o incentivo ao futebol amador, que se pratica em todos os cantos do País, a fim de que surgissem novos talentos. Eles tampouco contribuíram para o fortalecimento dos clubes, legítimos representantes das comunidades, de modo que traduzissem os anseios e as expectativas da comunidade de forma geral.
Temos um elenco de problemas investigados. Cito apenas o exemplo da CBF, sem dúvida, a cabeça de toda a podridão do futebol brasileiro. Foi dela que se irradiaram os caminhos corruptos pelos quais optaram federações e entidades, que se aproveitaram dos recursos do torcedor e de tudo que constitui o verdadeiro patrimônio do futebol brasileiro.
Não vejo outra possibilidade de mudar o atual quadro do setor a não ser mudando o comando da CBF, cujo estilo de administração, caraterizada pelo “rabo preso”, pelas ligações com dirigentes de federações, de clubes e empresários, tornou-se grande ferida que precisa ser extirpada. Essa é a linguagem adequada. Não é meu estilo, mas não é possível caracterizar a situação de outra maneira.
Sugiro a todos que leiam o relatório que elaboramos. Nada foi inventado por mim, pelo Deputado Pedro Celso ou pelo Deputado Dr. Rosinha. Chegamos aos fatos em audiências públicas, por meio de documentos e de denúncias da imprensa. Tudo foi examinado por técnicos do Banco Central, da Receita Federal e da Polícia Federal, além de advogados. Pessoas altamente capacitadas fundamentaram as denúncias que levaram ao indiciamento de cerca de 33 pessoas.
Os resultados deram motivo à indignação santa, digamos assim, do torcedor, que não se conforma em ver dirigentes e outras pessoas inescrupulosas aproveitarem-se dos acontecimentos com o maior descaramento, como se fôssemos idiotas e incapazes de mudar a situação.
Vou dar um exemplo definitivo: no mês de março, quase no fim dos trabalhos da CPI, veio depor o Presidente da CBF, Sr. Ricardo Teixeira. Ele não apenas teve de prestar esclarecimentos sobre documentos fiscais e contábeis encontrados na sede da entidade, mas também sobre determinado contrato milionário a ser assinado com a AMBEV — que substituiria a Coca-Cola —, no valor de 180 milhões de dólares, com duração de 18 anos. O contrato foi anunciado como uma grande conquista do futebol brasileiro. Gostamos de saber que há empresas dispostas a investir nele, apesar de toda a bagunça, pois isso demonstra a força e o potencial que ele tem.
Perguntaram ao Sr. Ricardo Teixeira se também, dessa vez, haveria intermediação, ou seja, se alguém ganharia dinheiro com o contrato. Na nossa opinião, isso era absolutamente desnecessário. O Presidente da CBF anunciou, com orgulho, que a entidade nem precisaria da própria Traffic, parceira de muitos anos.
Passado um mês, aproximadamente, às vésperas da entrega do nosso relatório, a imprensa noticiou que havia surgido um intermediário entre a CBF e a AMBEV, que ganharia 8 milhões de dólares para cuidar do contrato. Não por coincidência, o escolhido foi um ex-sócio do Sr. Ricardo Teixeira, que, apesar de nunca ter tido uma empresa de marketing esportivo, comprara uma, um mês antes, garantindo, assim, a sua aposentadoria.
Fatos como esses causaram indignação no povo brasileiro, que vai impedir essas pessoas de continuarem mandando no futebol brasileiro, independentemente da aprovação do relatório do Senado. Estamos mobilizados para que isso ocorra, mas, assim como na Câmara, o mais importante é a apresentação de um relatório consistente, baseado em denúncias comprovadas, que dê à Justiça meios de punir os culpados.
Se isso acontecer, o povo brasileiro estará vingado e recuperará a esperança no futuro. Todos nós que participamos desse processo, assim como o autor do pedido de instalação da CPI, Deputado Aldo Rebelo, que se encontra presente, estaremos vendo cumprida a sua missão, sem dúvida alguma, tarefa histórica que deu ao futebol brasileiro novo rumo.
Acredito muito nesse trabalho e parabenizo o Deputado Pedro Celso pela iniciativa. Não precisamos de chamamento. O povo brasileiro precisa se conscientizar de que as mudanças no futebol brasileiro dependem apenas dele. (Palmas.)
O SR. PRESIDENTE (Deputado Pedro Celso) – Obrigado, Deputado Silvio Torres, de quem sou parceiro. S.Exa. acertou quando disse que não houve invenção alguma, pois realizamos um importante trabalho investigativo, de peso, e que vai mudar muitas coisas no nosso País.
Esta Presidência convida, para compor a Mesa, o Presidente da CPI da CBF/Nike, Deputado Aldo Rebelo. (Palmas.)
Passo a palavra ao nobre Deputado Dr. Rosinha, um dos Sub-Relatores da CPI da CBF/Nike.
O SR. DEPUTADO DR. ROSINHA – Deputado Pedro Celso, antes de mais nada quero parabenizá-lo por esta iniciativa. Trata-se de importante manifestação política diante dos rumos que se está querendo dar à CPI do Futebol, do Senado Federal.
Os Deputados Pedro Celso, Silvio Torres e Aldo Rebelo foram colegas de trabalho naquela CPI. Fomos soldados e companheiros da mesma trincheira, porque apenas nós sabíamos a estrutura que havia por trás do futebol e não queríamos fazer qualquer investigação. O Deputado Silvio Torres fez um ótimo relatório. Apesar de não ter sido aprovado — e todos sabem o porquê —, foi um dos melhores até agora apresentados.
Nossa CPI não terminou em pizza porque o futebol profissional do nosso País, a partir do nosso relatório, continuou na página esportiva, que se transformou mais tarde em página policial. Lembro-me de que, no momento em que quebramos o sigilo bancário do Sr. Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, e de suas empresas, espernearam e nos acusaram de irresponsáveis. Hoje temos acesso a registros de recebimento de dinheiro da sua empresa que sequer entraram nas nossas investigações. Todavia, ele diz não saber como esse dinheiro foi gasto. Para nós, Pelé deveria escolher melhor suas companhias e não andar ao lado de Hélio Viana.
A máscara de muita gente neste País está caindo. Assim como o Deputado Silvio Torres, não tenho dúvidas de que a quadrilha encontra-se na CBF, de onde se irradia. Não basta tirar um membro da CBF; não será suficiente. Precisamos mudar toda a direção da CBF, sob pena de não mudarmos muita coisa no nosso futebol.
Se na CPI do Futebol, no Senado, acabar acontecendo o mesmo que aconteceu na nossa, mesmo assim ela terá cumprido seu papel. Gostaríamos de ver o relatório aprovado; torcemos para isso. Caso não seja, pelo menos cumprimos o papel de mostrar os bastidores do futebol deste País.
Sempre gostei de futebol, mas a partir da CPI desencantei-me, por saber o que ocorre nos bastidores. Hoje, se alguém me pergunta se torço para algum clube de futebol, digo que não torço para nenhum. Farei isso enquanto não ficar esclarecida a atuação da máfia que há por trás de cada um deles. A exemplo do que fez Wilson Piazza, não vou generalizar, mas há uma máfia por trás da grande maioria dos clubes. Enquanto isso não se tornar transparente, não vou gastar minha energia torcendo para clube de futebol. Sei como ocorrem as transações. Jogador vendido para o exterior é mais vítima do que premiado, porque há pessoas que ganham muito mais dinheiro com a transação, e ele nem sabe disso.
Concluo registrando a importância deste evento e pedindo licença aos companheiros para me ausentar. Haverá reunião dos Vice-Líderes da bancada do PT, à qual tenho de comparecer.
Aproveito para cumprimentar o Sr. Jaime pelo belo livro que escreveu. (Palmas.) Nesse livro excelente registra um pouco da história do nosso futebol, principalmente a história contemporânea. Parabéns, Jaime, pelo seu excelente trabalho.
Boa sorte para todos. Nós queremos ver o relatório da CPI do Senado aprovado. (Palmas.)
O SR. PRESIDENTE (Deputado Pedro Celso) – Muito obrigado, Deputado Dr. Rosinha, por sua participação.
Vou ler mensagem enviada por Artur Antunes Coimbra, o Zico:
“Qualquer movimento que tenha por objetivo a busca de soluções para o esporte em geral e o futebol, em particular, terá meu total apoio e, certamente, de todo o povo brasileiro.
Esse futebol que deu tantas e tão grandes emoções a todos nós, com conquistas inigualáveis por qualquer outro país, que elevou o nome de nosso País ao primeiro lugar do futebol mundial, não pode, de forma alguma, ser tratado da forma como vem acontecendo nos últimos anos.
Não pretendo antecipar qualquer julgamento com relação a quem quer que seja e muito menos condenar por antecipação qualquer acusado de qualquer irregularidade. Entendo que é da maior importância que se apurem os fatos fartamente apontados por toda a mídia no decurso da atuação das Comissões Parlamentares de Inquérito. Havendo essa apuração, os autores apontados terão oportunidade de provar ou não as suas respectivas inocências. Caso contrário, independentemente de qualquer apuração mais profunda, para a opinião pública, todos são culpados.
Acho que o momento é de reformulação de nossa organização esportiva, com a implantação de novos conceitos de uma modernidade que já tarda, gerando dificuldades de competição com o futebol mundial. Os Conselhos de Administração que vigoram ainda hoje, embora ultrapassados em quase todos os demais países, refletem de forma prejudicial o desenvolvimento do futebol dentro das quatro linhas.”
Leio também mensagem do Presidente do Sindicato dos Árbitros de Futebol do Estado de São Paulo, Sr. José de Assis Aragão:
“Acuso o recebimento de honroso convite para ato público a ser realizado no dia 27 de novembro, às 10h. Diante de compromissos assumidos anteriormente, não poderei estar presente em tão significativo ato público, mas desejo sorte aos ilustres participantes.
Colocando-me sempre à disposição de V.Exa., subscrevo-me.
Respeitosamente,
José de Assis Aragão, Presidente.”
Quero também registrar a presença do Sr. Hudson Pereira, treinador de futebol do Ceilândia, que também acompanha nosso evento.
Nosso ilustre amigo, atleta que tantas alegrias deu ao nosso País, Ubiratan Pereira Maciel, por problemas familiares, teve que se retirar. Agradecemos a S.Sa. a presença neste ato tão importante.
Concedo a palavra ao Secretário-Geral da Associação Nacional dos Árbitros de Futebol e Vice-Presidente do Sindicato dos Árbitros de São Paulo, Sr. Sérgio Correia da Silva.
O SR. SÉRGIO CORRÊA DA SILVA – Bom dia, Exmos. Srs. Deputados Federais Pedro Celso, Silvio Torres e Aldo Rebelo, senhores componentes da Mesa, simpática Sra. Mary Lucas, senhoras e senhores da imprensa, ilustres participantes deste ato público, saí de São Paulo às 5h30min de hoje para dizer a V.Exas., em rápidas palavras, do que a arbitragem precisa.
O relatório da CPI foi muito bem elaborado. Tive o prazer de ler as suas setecentas páginas. Recebi cópia em minha residência graças à gentileza do Deputado Aldo Rebelo. Foi constatado que, das 27 federações, 21 não agem com a devida correção. Constatou-se. Então, é fato. Não vamos julgar a aprovação ou não dele. Vinte e uma federações não agem com muito cuidado.
O que os árbitros desejam? Se 21 presidentes de federação não totalmente corretos são responsáveis pela indicação dos membros das Comissões de Arbitragem, o que se pode esperar delas? Por esta e por outras razões, o árbitro não tem o crédito devido. Se 21 pessoas que não agem com correção indicam pessoas de sua confiança para escalar os árbitros, o que se espera da arbitragem?
O que queremos? Se alguém neste plenário for contrário à transparência, deve retirar-se. De que a arbitragem precisa? Que as entidades de classe constituídas — e a ANAF é a maior representante de 26 entidades de classe — tenham o mesmo poder dos Tribunais de Justiça Desportiva, prerrogativa dada pela Lei Pelé, ou seja, que as entidades indiquem os membros das Comissões de Arbitragem.
Não queremos desvincular as Comissões de Arbitragem das federações ou da Confederação. Que se mantenha a determinação da FIFA, mas que as entidades de classe possam indicar alguns nomes, para que nos representem. Precisamos ter ali pessoas da nossa confiança, para que as escalas de arbitragem não tenham ingerências nefastas como as que estão ocorrendo.
Era essa a minha mensagem. Fiquei satisfeito com o convite, acordei cedo somente para dizer isto: a arbitragem precisa de transparência. Se 21 pessoas convidam amigos para as Comissões de Arbitragem, não temos liberdade. O árbitro precisa de liberdade para atuar, conforme determina a FIFA. Enquanto isso não ocorrer, o árbitro de futebol sempre terá a dúvida jogada nas suas costas. E, quando se tem dúvida sobre caráter, não se tem respeito.
Muito obrigado. Parabéns, Silvio Torres — permita-me chamá-lo assim —, pelo brilhante trabalho. Parabenizo também os Deputados Aldo Rebelo, Pedro Celso e Dr. Rosinha. Acompanhei os trabalhos, enchi a paciência de V.Exas. com e-mails, parabenizando-os, e li o relatório, que ficou espetacular. Espero que o Senado Federal obtenha sucesso na sua empreitada.
Encerro minha participação felicitando o Deputado Aldo Rebelo, mais uma vez, pela forma espetacular com que aprovou o relatório. Nota dez. Nem eu imaginava uma saída para aquela situação, mas S.Exa. a encontrou. A responsabilidade pela aprovação do relatório é dos Senadores, porque o exemplo da Câmara pesará na hora do voto.
Muito obrigado.
O SR. PRESIDENTE (Deputado Pedro Celso) – Muito obrigado, ilustre Secretário-Geral da Associação Nacional dos Árbitros de Futebol, Sérgio Corrêa. É modéstia de sua parte dizer que só veio falar disso. Tudo o que foi dito em relação à expectativa da arbitragem no Brasil é muito importante, especialmente quanto ao debate do que estamos fazendo na Comissão Especial que cuida do Estatuto do Desporto.
Por fim, passarei a palavra à pessoa com que tive muito orgulho e satisfação de trabalhar. Refiro-me ao Deputado Aldo Rebelo, que trabalhou de forma brilhante, competente e séria, mesmo com tanta dificuldade. Foi um verdadeiro malabarismo. Às vezes, eu achava o Aldo muito tranqüilo; em outras ocasiões, achava que ia acertar alguém. Mas foi sempre uma pessoa equilibrada e comedida, que teve tranqüilidade e sabedoria para tocar a CPI naquela situação, com tantas manobras a enfrentar.
Parabenizo V.Exa., Deputado Aldo Rebelo, e manifesto a minha satisfação e a minha alegria por ter trabalhado junto com V.Exa. naquela Comissão Parlamentar de Inquérito.
Tem V.Exa. a palavra.
O SR. DEPUTADO ALDO REBELO – Bom dia, companheiros e companheiras, estimado Deputado Pedro Celso, que cumprimento pela iniciativa de realizar em tão boa hora este ato.
Em primeiro lugar, sucintamente, explico que minha demora se deu em virtude do atraso do vôo da companhia aérea que me trouxe de São Paulo. De qualquer forma, fico feliz por ter tido tempo de registrar a importância deste evento. O futebol brasileiro precisa desse tipo de ação e de preocupação permanente.
Companheiro Silvio Torres, com quem desenvolvemos também um trabalho importante ao longo desses meses e que resultou no relatório, prezado companheiro e ilustre atleta da história do futebol, Wilson Piazza, demais companheiros Jaime, Sérgio, Márcio e Arudá, creio que o futebol brasileiro, pelo menos hoje, conhece as razões da crise que atravessa. Em crise nós já vivíamos quando a CPI foi instalada. O nosso desempenho por equipe, não só na Seleção principal, mas também nas Seleções Olímpicas, Sub-20 e Sub-17, já demonstrava que vivíamos certo declínio, pelo menos quanto à qualidade de nossa presença em campo. Embora individualmente os jogadores continuassem e continuem demonstrando talento insuperável, isso não se aplica às nossas equipes, sejam as seleções, sejam os nossos times de futebol. Basta examinar os últimos resultados da Copa Libertadores e do torneio realizado em Tóquio. Cruzeiro, Vasco da Gama, Palmeiras, Grêmio, enfim, os últimos que disputaram foram derrotados. Isso prova que o futebol brasileiro vive situação de impasse.
Creio que o impasse não nasce no campo de futebol, nem nos pés de nossos jogadores. Infelizmente, o impasse está na cabeça dos nossos dirigentes, na falta de rumo, de compromisso e de responsabilidade, na incompreensão do que representa o futebol para o nosso povo.
Sempre digo que, com muito custo, quando era garoto, conseguia decorar os acidentes geográficos solicitados nos exames da escola. Minha mãe costumava me tomar o ponto, fazia-me repetir as baías, os pontos culminantes, os rios, os afluentes do Amazonas e do São Francisco. Isso tudo caía no chamado exame de admissão. Eu fazia muito esforço para decorar o nome das Capitais dos países e tudo aquilo que se estudava no curso primário. Mas minha mãe nunca me cobrava a escalação dos times de futebol. Eu decorei dezenas, por conta própria. Cito a do Cruzeiro, de Wilson Piazza: Raul, Procópio, Pedro Paulo, Dirceu Lopes, José Carlos, Natal, Tostão, Evaldo, entre outros. Não sou cruzeirense, mas de tanto acompanhar decorei.
Sabia a formação do Atlético, do Fluminense, do Corinthians e de dezenas de clubes brasileiros, mas decorava com mais alegria a escalação do Palmeiras, o time para o qual torcia. Das Seleções do Brasil nem se fala, principalmente a de 1970. E uma pessoa só faz isso se tiver muita paixão por aquilo que acompanha e não por necessidade. Não caía na prova da escola a escalação do Cruzeiro nem a do Flamengo. Sabia, inclusive, a idade dos jogadores e em que clube jogavam.
O que é capaz de despertar numa criança ou num adolescente essa dedicação? O que faz as pessoas tratarem a Seleção Brasileira quase como um ente religioso? O número de pessoas que assistiam ao jogo da Seleção pela televisão — que começava a aparecer em 1970 — ou que o ouviam pelo rádio era maior do que das que iam para a igreja. Quando o Presidente da República falava, um ou outro ia ver na televisão, mas quando a Seleção jogava, todos acompanhavam.
Então, é preciso haver respeito sagrado também por essa paixão do nosso povo. Os nossos dirigentes devem compreender que o futebol pode ser um grande negócio para poucos. Para a imensa maioria, é uma paixão e deve ser respeitada por isso.
A imensa maioria do nosso povo ou 99% dos torcedores dos nossos grandes clubes e da nossa Seleção jamais ganharão um tostão sequer com o futebol. O torcedor gasta o seu dinheirinho com o ingresso, com a cerveja no dia do jogo, diante da televisão, com a camisa que compra para o filho e para si próprio e com o chaveirinho. É essa a relação que o torcedor tem com o futebol. Não vai ganhar dinheiro com isso, quer apenas ser respeitado.
E aqueles que ganham muito dinheiro devem, pelo menos, esse respeito. Será que estamos exigindo muito daqueles que ganham fortunas? Não me refiro apenas aos atletas, que ganham pequena parte da fortuna movimentada pelo futebol, mas também aos empresários, às agências, aos patrocinadores, aos promotores.
Será que respeitar o clube e as instituições centenárias é exigir demais? É isso o que queremos e não que se distribua com o povo a renda do futebol. Queremos apenas que o povo continue tendo acesso ao futebol de boa qualidade e de respeito. Para a imensa maioria do povo, isso já é suficiente. Que os nossos clubes não vivam no vexame da falência, do descrédito, da irregularidade.
O meu time lidera a primeira fase inteira do campeonato brasileiro e, na segunda fase, não consegue empatar uma partida, perde todas. Só ganhou do Cruzeiro porque foi um abraço de afogados. Como é que pode acontecer um fenômeno desses? O São Paulo é um time quase classificado. Tomou uma goleada de sete a um. Não me lembro disso acontecer no futebol brasileiro. Era muito equilibrado e regular. Não havia esse tipo de imprevisibilidade que hoje vemos, não só nos clubes, mas também na Seleção Brasileira.
A Seleção apanhar de uns tantos concorrentes e adversários não acontecia de jeito nenhum. A Seleção, não! Podia perder numa final ou empatar em um a um com a Argentina, com o Uruguai, mas se tornar saco de pancada da Austrália, da Bolívia, do Equador, da Costa Rica, de Honduras, não! Isso não acontecia. Há algo muito errado e doente nessa estrutura e nessa mentalidade. Ainda dizem que isso não é vergonhoso. É evidente que é para o nosso futebol.
Estive no Paraguai na semana passada e falei com companheiros que acompanham o futebol. Disseram-me que não acreditam no que está acontecendo e que temos condições de formar dez seleções. Nós aqui formamos uma com muito sacrifício. Seo Brasil tem condições de formar dez seleções, como é que anda caindo pelas tabelas?
Portanto, Deputado Pedro Celso, V.Exa. nos representou e interpretou todo o nosso sentimento e a nossa preocupação, no sentido de incentivar uma atividade permanente e duradoura. Vamos marcar no pé, não vamos dar sossego aos que conduziram o futebol brasileiro a esse impasse. Vamos resgatar o futebol brasileiro, devolvê-lo aos seus verdadeiros donos: os torcedores anônimos, conforme afirmou o Deputado Silvio Torres, e os nossos atletas, responsáveis por transformar o futebol brasileiro no melhor do mundo e que não têm responsabilidade pela situação em que vivem.
Parabéns a V.Exa. (Palmas.)
O SR. PRESIDENTE (Deputado Pedro Celso) – Muito obrigado, Deputado Aldo Rebelo.
Passamos à leitura de manifesto para o qual vamos coletar assinaturas e que, posteriormente, vamos enviar à CPI do Futebol, no Senado:
“Em defesa do futebol brasileiro e pela aprovação do relatório da CPI do Futebol.
O futebol brasileiro, patrimônio cultural do nosso povo, vem sofrendo derrotas dentro e fora dos limites dos gramados, que constituem a imagem dos desmandos e do desrespeito perpetrados por pessoas inescrupulosas que tomaram de assalto, ao longo dos anos, os postos de comando e de influência dentro da estrutura do sistema desportivo nacional.
Na Câmara dos Deputados, após oito meses de trabalho e de investigação, a CPI da CBF/Nike demonstrou o envolvimento de 21 federações no cometimento de crimes contra a ordem tributária, apropriação indébita, estelionato e outros, deixando configurada a necessidade urgente de se rever a legislação desportiva do País, a fim de impedir a perpetuação de pessoas e desmandos na condução do futebol brasileiro.
A chamada ‘Bancada da Bola’ na Câmara, numa atitude de total desrespeito às regras da ética e da democracia, fez com que o relatório final dessa CPI fosse abortado, vez que o mesmo levaria ao indiciamento de grandes cartolas, dentre os quais o Sr. Ricardo Teixeira, Presidente da Confederação Brasileira de Futebol.
Interessados que somos em ver apuradas as denúncias levantadas pela CPI da CBF/Nike, colocamos agora as nossas expectativas na conclusão da CPI do Futebol, do Senado Federal, pois sabemos que a sociedade brasileira e, especialmente, a imprensa esportiva comprometida apostam que a maioria dos Senadores irão aprovar um relatório final contrário aos interesses da quadrilha infiltrada entre os dirigentes que se apropriaram do esporte maior da nossa gente.
Nós, profissionais do futebol, entidades ligadas ao desporto brasileiro, sociedade civil e partidos políticos reunidos neste ato de defesa do futebol, queremos ver o futebol readquirir o brilho de suas vitórias, o que certamente só será possível sob uma administração competente, transparente, honesta e digna.”
Esse é o manifesto que queremos enviar ao Senado Federal. (Palmas.)
Finalizo, agradecendo a todos a presença, por se deslocarem de seus Estados, algumas vezes com sacrifício, tendo que alterar suas agendas.
Buscamos aquilo que foi dito por todas as pessoas que fizeram uso da palavra neste ato: defender esse patrimônio cultural do nosso povo, essa paixão brasileira que é o futebol. Não podemos mais continuar convivendo com tanta vergonha no futebol brasileiro.
Não descansaremos de forma alguma até que vejamos o nosso futebol resgatado, bem como a paixão do torcedor. Para isso, precisamos promover uma verdadeira limpeza em muitas entidades que o comandam.
Tenham todos uma boa tarde. Muito obrigado pela participação.
Nada mais havendo a tratar, vou encerrar os trabalhos.
Está encerrada a reunião.(Palmas.)
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