27/12/03

 ANAF atenua críticas a sorteio

Presidente da entidade do apito, Márcio Rezende de Freitas redireciona seus últimos meses de mandato a contatos com o Governo Federal para ampliar a Comissão Nacional de Árbitros de Futebol, ligada à CBF e presidida por Armando Marques

Por Daniel Tozzi
Em São Paulo

A expectativa que se criava para os resultados da Loteria Esportiva em seus áureos tempos voltou ao futebol brasileiro. Mas, no lugar das colunas da esquerda, direita ou do meio, a atenção agora se volta aos trios de arbitragem, cuja possibilidade de trabalhar na rodada passou a depender de qual bolinha cairia do globo na sede da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), no Rio, ou de qualquer outra praça onde a bola fosse rolar.

Previsto no capítulo oitavo, parágrafos 31 e 32 do Estatuto do Torcedor, lei sancionada em 15 de maio pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o sorteio de árbitros foi uma das determinações da nova lei que recebeu mais críticas da classe diretamente envolvida.

À época da sanção, tanto a Anaf (Associação Nacional dos Árbitros de Futebol) como a Conaf (Comissão Nacional de Árbitros de Futebol) foram severas no ataque ao sorteio. O sistema foi previamente acusado de responsável pela suposta falta de renovação que poderá atingir a arbitragem do país em alguns anos. Hoje, no entanto, a situação já é diferente. A começar pelo próprio presidente da Anaf, Márcio Rezende de Freitas.

"Não tem modelo ideal. O sorteio é o menor dos males para a arbitragem", diz Freitas, que planeja dedicar seus últimos meses de mandato - será substituído em março pelo ex-árbitro José de Assis Aragão - a avanços para a profissionalização da arbitragem nacional e, é claro, para que a classe não tenha os mesmos problemas que parte considerável dos jogadores. "A arbitragem está abandonada. Muitos que trabalharam nas séries B e C (do Campeonato Brasileiro) ainda não foram pagos", afirmou Freitas.

O "cartola do apito", hoje filiado à Federação Catarinense, ainda mantém sua preocupação com a suposta falta de espaço para novos árbitros no sistema de sorteio, mas endossa o ex-secretário-executivo do Esporte e coordenador do grupo de trabalho que redigiu o Estatuto, José Luiz Portella, que o sistema de indicações também não podia continuar.

José Luiz Portella, o "mentor"
 

 

"Ficou claro que o objetivo era desconcentrar poder", afirmou Portella, numa referência ao suposto autoritarismo de Armando Marques, presidente da Conaf. "O sujeito fica com um arbítrio muito grande", afirmou Portella. E a eleição de Aragão é vista como facilitadora nesse processo. "Não tem cabimento o presidente da Anaf ser subordinado de quem faz a indicação", disse Portella.

Para Portella, a Conaf deveria se dedicar a programas de aperfeiçoamento dos árbitros a fim de atingir a homogeneização dos critérios. "Não é a escolha do juiz que deve importar, e sim a melhoria do padrão. Seria feito por um critério que é técnico. Idéia é dividir os árbitros em determinadas categorias, e os jogos em graus de dificuldade", explicou.

A Anaf também já formalizou junto ao Governo Federal seu pedido para que, no Estatuto do Desporto, projeto a ser votado em 2004 e que unificará a legislação esportiva do país, haja ampliação da Comissão da CBF. Atualmente, a mesma é formada por quatro integrantes nomeados pela entidade -Sebastião Rufino, José Luiz Barreto e Edson Rezende de Oliveira, além de Marques.

Centralizador, Marques poucas vezes reúne o grupo. Pelo formato atual, Marques faz uma pré-seleção de três trios de árbitros para cada partida. O sorteio é realizado na CBF dois dias antes do início da rodada. O UOL tentou contato com Armando Marques, mas não obteve retorno.

Mas a discussão sobre o sorteio acabará mesmo apenas no Estatuto do Desporto. Até lá, os protestos seguem. E mesmo de quem já "pendurou o apito". O ex-árbitro José Roberto Wright publicou em sua coluna num diário esportivo que a Fifa (Federação Internacional de Futebol Association), por meio da circular 763 publicada em 23 de julho de 2001, proíbe que os árbitros sejam escolhidos por meio de sorteio de qualquer espécie. A versão em português do documento está no site da Anaf.

O porta-voz da entidade máxima do futebol mundiais, Andreas Herren, apresenta ao UOL uma versão sutilmente diferente. Segundo ele, a Fifa apenas "não recomenda" o sorteio. Até porque, no caso brasileiro, o sorteio faz parte da legislação do país, esfera que transcende a redoma criada pela Fifa para proteger suas próprias regras.


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