29/06/02

 Política domina o comando da arbitragem

OESP - Política domina comando da arbitragem

Presidente e vice da Comissão que escala e avalia juízes da Fifa jamais trabalharam com o apito.

Rivaldo simula uma bola no rosto. Luizão é atingido por um adversário fora da área mas cai dentro dela e o juiz marca pênalti. O turco Alpay toma um cartão vermelho assim como seu companheiro de equipe Unsal.

Eles esbravejam, os brasileiros saem com um sorriso amarelo com a "ajudazinha" do juiz sul-coreano Young Joo Kim e tudo transforma-se em uma grande polêmica na Copa do Mundo. Para definir quem está certo ou errado no Mundial lá está a Comissão de Arbitragem da Fifa.

A princípio, a tendência é imaginar tal comissão como um grupo de sábios notáveis avaliando, a partir da vasta experiência que adquiriram apitando nos gramados de diversos estádios do planeta, o que foi feito de correto ou não pelos "homens de preto". Quem conhece os bastidores do futebol, no entanto, sabe que esta imagem está bem longe da realidade e a política tem mais força do que o livro de regras.

Segundo o presidente da Associação Nacional dos Árbitros de Futebol, Márcio Rezende de Freitas, árbitro que representou o Brasil na Copa de 1998, na França, a ligação direta entre as entidades que comandam o esporte e comissões de arbitragem não é capricho exclusivo dos cartolas do País. "É a própria Fifa quem determina que os integrantes das comissões de arbitragem sejam indicados pelos presidentes das federações e confederações nacionais", diz. "Portanto, o comando é um cargo de confiança."

Os reflexos da regra estão no próprio Comitê de Arbitragem da Fifa. O presidente, o turco Senes Erzik, nunca apitou um jogo. Seu contato com o futebol limitou-se a um período de trabalho como jogador na Segunda Divisão da Turquia. O segundo do escalão é o presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Ricardo Teixeira, que, notoriamente, jamais exerceu qualquer atuação dentro das quatro linhas. A situação só melhora, bem pouco, quando são conhecidos os outros oito membros da Comissão: três deles, todos indicados pela Fifa, foram juízes de carreira.

Na Confederação Sul-Americana, a estrutura se repete, assim como no Brasil, onde a Comissão Nacional de Arbitragem é comandada por um ex-árbitro, Armando Marques (que recentemente chegou a ser afastado após ter sido acusado de pressionar um árbitro a alterar a súmula do jogo final do Campeonato Brasileiro da Série B) e por Edson Resende de Oliveira, indicados por Ricardo Teixeira. Em São Paulo, a Comissão da Federação Paulista é comandada por Amílcar Casado, ex-presidente da Portuguesa.

Dependência - Com este panorama, a probabilidade de que os interesses políticos prevaleçam sobre o cumprimento rigoroso das regras em todos os níveis é bem grande. Os árbitros sabem que suas carreiras dependem da vontade de quem está no comando das Comissões de Arbitragem, seja para apitar um clássico estadual, nacional ou indicar um juiz para o quadro de árbitros da CBF, Confederação Sul-Americana ou da Fifa.

Esta situação, aliada à recomendação da Fifa para que os árbitros evitem comentários sobre as partidas ou justifiquem punições, faz com que os juízes brasileiros evitem tanto quanto possível falar sobre o que lhes acontece, mesmo nas situações mais desagradáveis. "Eu sempre disse o que pensava e muitas vezes paguei o preço", diz Márcio Rezende.

VALÉRIA ZUKERAN


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