
Não podemos desanimar
30/05/2008
Na primeira rodada do campeonato brasileiro de 2008, tivemos a noticia, por meio dos jornais, de alguns árbitros punidos em decorrência de erros cometidos em jogos. A preocupação foi tanta que muitos entraram em contato conosco para que esta situação fosse esclarecida, afinal, quando não iremos errar? Haverá dosemetria nos erros, ou será todo e qualquer erro? E por que divulgar os nomes dos punidos? Enfim, tantas perguntas sem respostas.
O interessante é que os que se preocuparam e nos procuraram foram árbitros que ainda nem haviam atuado. Ou seja, a preocupação em errar já estava latente.
Onde está o equilíbrio emocional que a atividade nos exige?
Por ironia, na transmissão do jogo Cruzeiro x Santos, em determinado momento, o nosso amigo, ex-mundialista, Arnaldo Cezar Coelho, afirmou com todas as letras que todos são contra os árbitros.
Novidade? Não. Afinal falamos e ouvimos isto todos os dias. O que valoriza tal assertiva é que foi pronunciada em canal de influência, formador de opinião e, comprovadamente , o assunto foi explorado durante toda a transmissão.
Pra mim, o Arnaldo foi de uma felicidade plena. Deixou de lado o aspecto crítico do seu trabalho e vestiu a roupa do árbitro que tanto sofre pressão.
Durante aquela transmissão, além de prestar atenção no grande trabalho do trio que o conduzia, fiquei absorto nos meus pensamentos e tentando imaginar o que estaria passando na cabeça de cada árbitro ou assistente, no momento em que tomava decisões.
Quem passou lá dentro sabe do que estou falando.
Imagina entrar em campo de jogo com a preocupação de que, humanos que somos, não podemos errar nada de nada. Sob pena de ver o nosso nome na relação dos "suspensos" , "afastados", ou outro sinônimo qualquer para PUNIDO. Sinceramente, algumas coisas acontecem e até nos tiram o ânimo de lutar e tenho externado isto a alguns amigos. Parece que a gente conquista um passo e dá dois passos pra trás.
Mais ainda, com a condição inerente de humanos, se a cada erro formos punidos, no meio do campeonato não teremos mais árbitros. Estamos na quarta rodada e logo na primeira tivemos um ícone da nossa arbitragem punido. Arbitro não tem passado. O que ele fez na sua trajetória não interessa. O que interessa é a resposta imediata à sociedade, à comunidade esportiva, política, sabe-se lá mais qual, para preservar a imagem sabe-se lá de quem.
O ícone de quem vos falo, chama-se Ednilson Corona. Exemplo de pessoa, de profissional, de tudo que imaginarmos em nosso meio. Pessoa pela qual nutro o maior respeito e admiração. Foi esquecido que ele, junto ao Simon e Aristeu (outros inegáveis exemplos de profissionais e companheiros), fizeram o maior Mundial da arbitragem de todos os tempos. Não erraram nem a respiração. Pois é, a história de cada um é jogada no lixo. Talvez tenha sido o mártir da rodada para ficar claro que qualquer um será punido, afinal ficou claro: até um mundialista competente foi punido! Não costumo citar nomes nas minhas explanações, mas a necessidade me obriga para que tenhamos as coisas transparentes e saibamos de que assunto tratamos. Não conversei com qualquer um que teve o seu nome declinado como punido. Esta divulgação, pra mim (é bom esclarecer), foi outro erro de quem administra emoções, interesses, além de outras coisas mais perniciosas que vão de encontro aos árbitros.
Não sei de onde o Arnaldo se convenceu de que todos são contra os árbitros.Ou sei! Sabemos, todos nós.
Estamos só no inicio do Campeonato. Voltaremos a discorrer sobre este assunto mais a frente. O que me estimula a emitir opinião, para tentar mudar uma situação é verificar que sempre fomos e continuamos abandonados. Vamos nos sentir o tempo todo inseguros com essas ações e será uma porta aberta para os erros. Não precisa conhecer muito de arbitragem para chegar a essa conclusão primária.
Parece que a cada rodada os árbitros estão se encaminhando para o pelotão de fuzilamento e os que derem sorte, vão para a cadeira elétrica. Se faltar luz, eles se salvam.
Hoje, sexta-feira, véspera de mais uma rodada, vamos rezar, orar, pedir aos céus, cada um na sua crença, que a máxima do Arnaldo não se cumpra nesta rodada. Que todos aqueles que são contra os árbitros e vão continuar a ser, tirem um final-de-semana de descanso.
Agradeçamos ao Arnaldo pela defesa da Arbitragem Brasileira, que ele tão brilhantemente representou numa final de Mundial, bem como em toda a sua trajetória de vida.
Jorge Paulo
Presidente da Anaf
Próximo assunto: Ranking na arbitragem.
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