ANAF : Associação Nacional dos Árbitros de Futebol

 
 
Bandeirinha de batom
 

Ana Paula Oliveira tem 26 anos e foi escalada para apitar em Atenas

LUCIANA CARNEVALE
luciana@gazetadepiracicaba.com.br

Unhas cuidadosamente esmaltadas de branco, brincos, maquiagem, cabelos crespos, soltos, e uma voz pausada que nem de longe lembra o ambiente tenso, movimentado e predominantemente masculino dos campos de futebol. Filha de árbitro, a funcionária pública da cidade de Hortolândia (SP), Ana Paula Oliveira, 26 anos, é juíza auxiliar ou bandeirinha, como a função que fiscaliza as laterais do campo é mais conhecida pelos boleiros. Durante os jogos, o uniforme dos árbitros, na cor preta, destoa totalmente do figurino mais alegre e colorido que ela adota no dia-a-dia.

Membro da Fifa, a Federação Internacional de Futebol, Ana Paula conquistou os gramados, mas nem por isso anulou o lado feminino que a acompanha mesmo durante a marcação das jogadas polêmicas. Cara feia de jogador e cantadas de torcedores, inevitáveis, segundo ela, não a intimidam. A disciplina e a serenidade renderam bons frutos.

A bandeirinha, que esteve segunda-feira (26) em Piracicaba para apresentar palestra, no anfiteatro do Centro Cívico, aos alunos do curso para árbitros, cujo encerramento está marcado para o dia 30 de agosto, foi escalada para representar a arbitragem brasileira nas Olimpíadas de Atenas.

Embarca nos próximos dias para a Grécia, depois de participar das próximas rodadas do Campeonato Brasileiro da Série A. Ontem, Ana Paula estaria ‘bandeirando’ o jogo Grêmio e Vitória, no Estádio Beira-Rio, em Porto Alegre (RS).

Atuante, Ana Paula conta que começou sua carreira como anotadora de procedimentos, ao lado do pai, árbitro profissional. Quando se interessou pra valer pela arbitragem, ganhou um crítico ferrenho em casa. “Meu pai foi radicalmente contra, não queria de jeito nenhum que trabalhasse como juíza ou bandeirinha de futebol”, revela.

Depois de muito diálogo, Ana Paula convenceu o pai de que estava seguindo o melhor caminho. “Hoje em dia, ele é o maior fã”, frisa. Personagem que tem a mãe sempre lembrada pelos torcedores quando uma jogada não é marcada corretamente, o juiz não é poupado nem quando é mulher.

Em entrevista à Gazeta, Ana Paula ressalta que, em campo, tudo é ouvido. “Nos chamam desde gostosa até apelidos impublicáveis. O que você pensar é mínimo perto do que ouço”, explica, bem-humorada. Os ‘corneteiros’, que ficam próximo aos alambrados, pertinho dos bandeiras, e não se limitam a assistir às partidas, fazem questão de cumprimentar Ana Paula quando o jogo termina.

“É engraçado, curioso até, mas nunca tive de responder às gracinhas”, salienta. “Passar meu telefone, nem pensar”, brinca Ana Paula, solteira, depois de terminar um namoro que ela afirma não ter sido provocado pelo futebol.
Recentemente, a imagem da bandeirinha sendo literalmente derrubada pelo jogador Anderson, do São Caetano, foi exibida em vários programas esportivos da Rede Globo. “Depois do lance, ele pediu desculpas. Aceitei sem problemas, mas notei que Anderson poderia ter evitado o confronto”, diz.

Para manter a discrição e o profissionalismo, a bandeirinha Ana Paula conta que não torce abertamente por nenhum time. “Quando estou em campo, sou integrante fiel do grupo Arbitragem Futebol Clube e não me envolvo com as equipes. Qualquer paixão tem de ser deixada de lado na hora de apitar”, observa.

Juiz corre 13 km por jogo
Correr 90 minutos, às vezes até mais, quando a partida vai pra prorrogação e pênaltis, não é tarefa fácil para os jogadores. Imagine para os juízes, que além de se exercitar têm de estar atentos a todos os lances. Árbitro piracicabano, integrante da Confederação Brasileira de Futebol. (CBF), Paulo José Danelon coordena o curso para juízes ministrado na cidade. Ao todo, são 104 alunos interessados em conhecer as 17 regras do esporte mais popular do Brasil.

Por partida, o juiz ou bandeirinha correm 13 quilômetros e perdem de dois a três quilos de peso. Antigamente, segundo Danelon, para ser juiz de futebol, era necessário ter altura mínima de 1,70m. Hoje em dia, a exigência caiu por terra.

Para atuar com precisão nos jogos, um árbitro não está pronto antes de um ano. O curso dura quatro meses, mas, até apitar partidas profissionais, o aspirante a juiz passa pelas categorias de base. A idéia de que, no Brasil, há 170 milhões de técnicos e juízes, não é seguida à risca quando o assunto é arbitragem oficial.

“Os erros sempre existiram e sempre vão existir. A diferença é que, antes, não havia 18 câmeras de televisão no campo e nem os tira-teimas. Os comentaristas criticam porque têm, à mão, imagens gravadas. Na hora de apitar, o juiz tem apenas três segundos para decidir o que fazer”, ensina.

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