ANAF : Associação Nacional dos Árbitros de Futebol

Entrevista

"As leis esportivas brasileiras não protegem os árbitros"

O ex-árbitro de futebol e atual comentarista de arbitragem da TV Globo, Arnaldo Cezar Coelho nasceu no Rio de Janeiro, em 15 de janeiro de 1943. Formado em Educação Física, Arnaldo iniciou a carreira de árbitro nos anos 60, apitando jogos de futebol de praia em Copacabana. Em 1965 começou a atuar em jogos profissionais, iniciando uma carreira que seria coroada de êxito. Participou de duas Olimpíadas (1976 em Montreal , no Canadá, e em 1988, em Seul, na Coréia do Sul). Apitou em três campeonatos da categoria de juniores (Tunísia, Chile e Austrália, onde arbitrou a partida final, em 1981). Esteve presente na Copa do Mundo de 1978 na Argentina e na de 1982 na Espanha, onde realizou a façanha mais reluzente da sua trajetória de sucesso no mundo futebol: foi o primeiro árbitro não-europeu a apitar uma decisão, a partida final entre as seleções da Itália e da Alemanha, cujo resultado

Arnaldo Cezar Coelho

foi 3 x 1 para a Itália. Profundo conhecedor das regras do futebol e com larga experiência nos assuntos envolvendo a arbitragem dentro e fora das quatro linhas, Arnaldo Cezar Coelho falou com exclusividade ao Marca da Cal. Leitura imperdível.

Marca da Cal – Como era a estrutura de trabalho da sua época de arbitragem em comparação com a de agora?

Arnaldo Cezar Coelho – Financeiramente, ganhava mais do que hoje. Os grandes estádios estavam em construção, muitos foram inaugurados ainda em obras. Os vestiários eram da pior qualidade, porque vestiário de juiz é a ultima coisa em que o arquiteto pensa quando vai projetar um estádio. Hoje já mudou um pouco. A estrutura de segurança e de controle era deficiente, hoje é bem maior. Mas em compensação ninguém olhava o árbitro como um adversário. Nessa época, quando uma professora entrava na sala os alunos levantavam, quando uma senhora grávida ou idosa entrava em um ônibus, os homens cediam o lugar. Hoje, se esse professor der nota baixa, em muitos lugares vão querer bater nele. Num ônibus lotado dificilmente alguém cede lugar para as pessoas mais velhas. Então esse problema da educação dificultou o trabalho da arbitragem. Ser árbitro hoje, exercer a autoridade no país, é muito difícil. Por isso é mais difícil apitar no Brasil do que na Inglaterra ou na Alemanha. Problema de educação.

Marca da Cal – Criaste algum desafeto ou inimizade em razão da arbitragem?

Arnaldo Cezar Coelho – Não, só fiz amigos no mundo todo. Hoje vou à Suíça e tem um cara lá que me conheceu através da arbitragem e é meu amigo. O futebol para mim é um grande manancial de amigos.

Marca da Cal – O que é mais difícil: apitar ou comentar futebol?

Arnaldo Cezar Coelho – Apitar é dificílimo, bandeirar mais ainda. Comentar tem um fator de dificuldade: você tem que encontrar um mínimo de palavras para o máximo de conteúdo, porque o tempo da televisão é muito curtinho. Tem que ter tranqüilidade e bom senso porque você está falando para milhões de pessoas. O que mais marcou a minha carreira, e criou até um mercado para isso, foi transformar o comentário sobre arbitragem em algo didático. Estou na TV Globo há 18 anos discutindo impedimento com muitos torcedores, hoje você discute a colocação do goleiro na cobrança do pênalti, hoje você discute que a saída do meio de campo vale gol direto, coisas que tempos atrás ninguém sabia.

Marca da Cal – Existe diferença entre a arbitragem da Libertadores e do Campeonato Brasileiro?

Arnaldo Cezar Coelho – São competições distintas onde a regra é a mesma, mas a maneira como o jogador se emprega é diferente. Numa Copa Libertadores você vê claramente que ele se emprega de uma forma mais dura do que no campeonato local. Não digo nem tanto o Campeonato Gaúcho, que se caracteriza por um jogo forte, mas o Campeonato Carioca, por exemplo. Isto é uma vantagem para os árbitros gaúchos, que são muito bem preparados porque apitam jogos que têm muito contato físico. No Rio de Janeiro o futebol é mais de exibição, mais cadenciado. A Copa Libertadores é totalmente diferente, e a Copa do Mundo é mais diferente ainda, porque lá os árbitros são amparados por diversas autoridades. Então tem essa diferença, de jogo.

Marca da Cal – O que tu achas do uso da tecnologia para auxiliar a arbitragem?

Arnaldo Cezar Coelho – Não aprovo. Na Espanha teve um jogo em que cinco árbitros ficaram na tribuna com um aparelho de televisão. Até não teve muitas jogadas polêmicas, mas o jogo parava a todo o momento para eles decidirem. A partida demorou cinco horas. Como diz o Renato Marsiglia, o jogo é jogado por humanos e tem que ser apitado por um ser humano.

Marca da Cal – Qual a tua opinião sobre a atuação dos assistentes?

Arnaldo Cezar Coelho – Sou contra dar ao bandeirinha a autoridade de auxiliar o árbitro na marcação de faltas, a não ser que seja muito acintosa - o cara marcar um gol com a mão e o juiz não ver. O assistente tem que ficar olhando pra frente, pra ver a linha do zagueiro e não assistir o jogo, pois toda a vez que assiste o jogo engole o impedimento. Duplicidade de comando gera confusão.

Marca da Cal – E a profissionalização da arbitragem?

Arnaldo Cezar Coelho – Acho que o árbitro não consegue viver só da arbitragem. Mas, na Inglaterra, recentemente, selecionaram alguns árbitros para receber salário. Pergunta se o camarada deixou de ser empresário ou dono de uma banca de jornal, como tem lá. Ele continuou. O futebol virou mais uma profissão. Já a regulamentação é outra coisa - ser reconhecido como árbitro, ter direitos como prestador de serviço para a Federação. A profissão deve ser regulamentada para que quando se aposente o árbitro tenha um amparo legal. O árbitro não tem seguro, não tem plano de saúde. Porque os sindicatos e as federações não fazem um seguro, um plano de saúde?

Marca da Cal – Se a regra é clara, porque existe tanta controvérsia em relação a algumas decisões dos árbitros?

Arnaldo Cezar Coelho – Porque regra de futebol não é bula de remédio, que você abre e está escrito: tomar dois compridos depois do almoço, um depois da janta. A regra é subjetiva, depende da interpretação do árbitro. Se o árbitro acha que você está olhando com uma cara desrespeitosa, te dá um cartão. Sem você já tem essa cara não é desrespeito. Depende de cada um interpretar. A regra diz que você não pode tocar o bola com o pé para o seu goleiro, no entanto tem muitas bolas que saem do pé do zagueiro e vão para as mãos do goleiro sem que seja marcado o tiro indireto. Então é interpretativo. A regra é clara, mas dá poderes ao árbitro para interpretar.

Marca da Cal – Quais as qualidades para ser um bom árbitro?

Arnaldo Cezar Coelho – O árbitro ganha o jogo fora de campo, com a sua postura com a sua maneira de agir e comportar-se. A prova disso é que o camarada que jogava bingo se deu mal dentro de campo. Dentro de campo o árbitro deve ter talento e vocação. A vocação de berço. O talento vai-se adquirindo com o aprimoramento técnico. Tem que ter humildade para aprender.

Marca da Cal – E a mulher, tem vez no apito?

Arnaldo Cezar Coelho – Fui quem mais deu força para esta iniciativa quando presidente do Sindicato dos Árbitros do Rio de Janeiro no início da década de 80. Acho uma excelente iniciativa. Não pode haver discriminação, mas devem ser observados os limites físicos da mulher, que são diferentes do homem.

"O jogador brasileiro joga conforme a música. Se a arbitragem é sem personalidade, ele vai tentar aplicar partidos pra levar vantagem. Se ele sente que o árbitro é esperto, sério e está de olho nele para não aplicar partidos, ele não faz. Agora cabe a ele fazer, porque o futebol é um jogo e no jogo você tem que saber a regra e aplicar alguns partidos para tentar ganhar. Você está ganhando e pega a bola nos minutos finais da partida. Vai fazer o quê, vai driblar dentro da tua área ou driblar no canto do córner? Vai driblar no córner. Isso não é esperteza nem malandragem, é jogar futebol. Faz parte do jogo. Dois dias antes de começar a Copa do Mundo da Coréia fui dar uma palestra para a Seleção Brasileira, a convite do Felipão. O Simon estava agendado e não pode ir. Disse ao Felipão que iria, mas não para falar da regra, mas sim de coisas das quais ele e os jogadores poderiam tirar proveito. Por exemplo: todos sabemos que não existe impedimento de lateral. Outra: faltando um minuto, córner a teu favor na ponta esquerda. Quem vai bater? Nunca é o ponta esquerda, mas sim o ponta direita, para ganhar tempo. Eu diria também que aqui no

"Juiz de futebol não é cavalo de corrida. No Brasil tem um grupo de juízes que se equivalem. O Simon, o Gaciba, o Paulo César, o Seneme, o Roman e o Héber fazem parte".
Brasil os árbitros têm muita dificuldade de apitar porque não existe retaguarda. A imprensa é muita dura com os árbitros e em muitos momentos exige dos árbitros uma perfeição que ela não tem. Por outro lado, as leis esportivas brasileiras não protegem os árbitros, a impunidade impera. Não sei se aconteceu no Campeonato Gaúcho, mas no Campeonato Carioca e no Campeonato Paulista jogadores e treinadores que foram punidos em campo tiveram o julgamento adiado, postergado. Isso enfraquece a arbitragem. O país está passando por uma fase de muita violência e impunidade, inclusive na área política. Ser autoridade no Brasil é muito difícil. Na Europa um jogador que cometeu um ato de indisciplina é penalizado. No Japão, depois de um jogo, o Zico falou mal da arbitragem. Tomou 140 mil reais de multa (70 mil dólares hoje) ".

Fonte: MARCA DA CAL junho de 2007 - Jornal do Sindicatos dos árbitros do Rio Grande do Sul


Fechar

Copyright ©  ANAF.COM.BR ® Todos os direitos reservados.