ANAF : Associação Nacional dos Árbitros de Futebol

Dossiê Collina

Geral - 02/07/2005

A carreira do árbitro mais popular da história recente do futebol

As mães dos árbitros raramente vão aos estádios, mas são "homenageadas" com freqüência. Não importa em que país ou em que campeonato, os torcedores estão sempre prontos a protestar de forma pouco educada contra a autoridade máxima em campo. Mas pelo menos uma mãe de juiz sempre dormiu sossegada: a professora de primário Luciana Collina

.O filho único de Luciana e do funcionário público Elia, Pierluigi Collina, alcançou um status nunca antes imaginado para quem trabalha com o apito na boca. De figura peculiar, careca e com os olhos esbugalhados, ele se tornou uma das figuras mais respeitadas no mundo do futebol. Os jogos com arbitragem de Collina são garantia de segurança para jogadores e torcedores.

A temporada 2004/05 poderia ter sido a última de Collina nos gramados italianos, por causa do limite de idade de 45 anos, atingido no último dia 13 de fevereiro. No entanto, a federação italiana votou e aprovou a abertura de uma exceção para que Collina, em ótima forma física, trabalhe por mais um ano.

Consultor financeiro do grupo Banca Fideuram, Collina vive em Viareggio, na região da Toscana. Modesto, afirma não ser brilhante na profissão: "Tenho vários clientes, mas com vários deles acabo falando mais de futebol do que de economia". É casado com Gianna e tem duas filhas, Francesca Romana e Carolina - "que por sorte não se parecem comigo fisicamente", costuma dizer.

Sempre que perguntado se teria um time do coração, Collina tem a resposta na ponta da língua: sim, mas não é um time de futebol. Ele é apaixonado pela Fortitudo Bologna, equipe de basquete de sua terra natal, que conquistou recentemente o título nacional da temporada 2004/05.

Collina é fã da bola ao cesto, mas praticou o futebol desde garoto. Nos anos de escola, defendia o time do Don Orione, mas passava a maior parte do tempo observando os colegas desde o banco de reservas. Com sorte, teve uma oportunidade nos juvenis de uma tradicional equipe amadora da região, a Pallavicini. Atuando como líbero, jogou dois campeontos.

Em um capricho do destino, daqueles comuns às grandes reviravoltas, Collina encontrou sua vocação. Impedido de treinar por causa de uma contusão, ele começou a apitar os coletivos do time. Impressionado, um companheiro de escola recomendou que ele participasse de um curso organizado pela associação local dos árbitros no início de 1977.

Fausto Capuano - este o nome do companheiro - não foi muito longe na carreira. Acabou vetado por problemas de vista. Collina, por sua vez, concluiu o curso e passou a trabalhar em partidas amadoras. Em três anos, já estava no nível máximo do futebol na região, o campeonato de Promozione, equivalente à sexta divisão italiana, onde passou três temporadas.

Collina concluiu o serviço militar e se formou em Economia e Comércio na Universidade de Bologna, em 1984, com a nota máxima de 110. Desde o ano anterior, ele já estava apitando em nível nacional, vagando por lugares obscuros, mas já começando a ser chamado para algumas ocasiões mais importantes.

Foi neste período que se manifestou a alopecia, uma doença que provoca a queda de todos os pêlos do corpo. Já careca, chegou à Série C do Campeonato Italiano na temporada 1988/89, marcando uma ascensão mais rápida que o normal para a época.

O salto definitivo para as duas principais divisões veio na temporada 1991/92. Collina teve seu primeiro contato com expoentes da arbitragem italiana, como Paolo Casarin, Tullio Lanese, Pierluigi Pairetto, Pietro D'Elia, Fabio Baldas e Concetto Lo Bello. Estreou na Série B em um confronto entre Avellino e Padova, e depois de cinco jogos foi chamado a apitar na Série A. Foram oito jogos na elite naquele campeonato.

Em 1995, com 43 partidas pela Série A no currículo, Collina foi promovido ao quadro da FIFA. A primeira grande ocasião foi a final dos Jogos Olímpicos de 1996 entre Nigéria e Argentina, vencida pelos africanos. Dois anos depois, na Copa do Mundo de 1998, foi selecionado para um dos jogos mais delicados do torneio, entre as vizinhas Bélgica e Holanda.

Collina apitou a dramática final da Liga dos Campeões entre Manchester United e Bayern de Munique, em 1999. No mesmo ano, dirigiu o duelo entre os velhos rivais Inglaterra e Escócia, pelas eliminatórias da Euro 2000. Na fase final da competição, apitou os jogos entre Alemanha e Inglaterra, França e Espanha - este último apontado pela UEFA como a melhor atuação de um árbitro no torneio.

Em 2002, Collina teve coroada sua condição de melhor árbitro do planeta ao apitar a final da Copa do Mundo, vencida pelo Brasil contra a Alemanha. Em um torneio marcado por polêmicas sobre erros de arbitragem e falta de um padrão internacional, ele teve uma participação firme na decisão e justificou toda a admiração que tem entre jogadores e colegas.

A expressão concentrada de Collina pode meter medo, mas ele nunca perde a oportunidade de dar um tapinha nas costas (no bom sentido) ou um sorriso, e até de ter uma conversa calma no meio de um jogo tenso. "Há momentos diferentes no jogo. Às vezes há tempo para sorrir, em outros momentos é preciso fazer uma cara firme. Depende do momento", explica.

Na final em Yokohama, quando o brasileiro Edmílson se enrolou na hora de trocar de camisa, Collina poderia ter apontado para o relógio e pedido que ele se apressasse. Mas as imagens da televisão mostraram o árbitro rindo daquela situação cômica diante de dezenas de milhões de espectadores.

Aquela Copa do Mundo reforçou para os italianos a noção da importância do trabalho correto de um árbitro, depois que a Azzurra foi eliminada pela Coréia do Sul, nas oitavas-de-final, tendo muito a reclamar do equatoriano Byron Moreno.

Ninguém pode dizer que Collina não erra. Humano como os companheiros de profissão, ele pode se equivocar em lances da mesma maneira. Mas o que faz dele diferente, além de errar em uma escala menor que a média, é a maneira em que se relaciona dentro de campo.

O próprio Collina justifica sua postura com técnicos e jogadores: "Não podemos nos considerar inimigos, porque estamos envolvidos com o mesmo esporte. Acho muito importante que todos envolvidos com o espetáculo, porque o futebol é um espetáculo, entendam o que está acontecendo, e até que decisão o árbitro tomou".

Em 1997, após anular um gol da Inter contra a Juventus em San Siro, Collina caminhou em direção ao banco da equipe da casa e explicou, detalhadamente, ao técnico Roy Hodgson as razões de sua decisão. E foi além: após a partida, concedeu uma entrevista coletiva para falar sobre o lance.

Equivoca-se, no entanto, quem confunde o bom relacionamento entre Collina e os protagonistas do espetáculo com uma condescendência disciplinar. Não passou despercebido, por exemplo, o fato de o argentino José Chamot, na época jogador da Lazio, ter apertado sua mão com força excessiva após um jogo em 1998. Collina relatou o fato na súmula, e o jogador pegou uma partida de suspensão.

Collina foi o primeiro árbitro a suspender uma partida até que se retirasse uma faixa ofensiva das arquibancadas. Aconteceu no jogo entre Sampdoria e Torino, em fevereiro de 1996, quando os torcedores exibiram uma faixa com os dizeres "Casarin palhaço", em referência ao chefe do departamento de arbitragem na época.

Ele saiu da Copa do Mundo como uma celebridade. Foi eleito o árbitro mais sexy (é dos carecas que elas gostam mais?), e chegou a desfilar para a estilista Laura Biagiotti. Continua sendo convidado para campanhas publicitárias em nível nacional e internacional, anunciando desde relógios até material esportivo, passando por TVs por assinatura e redes de fast food.

Sabendo que sua imagem também poderia servir para causas nobres, Collina se tornou em 2003 embaixador da Cruz Vermelha para o apoio às crianças vítimas de guerras. No mesmo ano, publicou o livro "Minhas regras do jogo. O que o futebol me ensinou na vida" e foi eleito pela sexta vez consecutiva o melhor árbitro do ano pela IFFHS (Federação Internacional de História e Estatísticas do Futebol).

Em julho de 2004, comemorando 27 anos de carreira, recebeu da universidade inglesa de Hull o título de doutor honorário em ciência do esporte. Ele ainda é lembrado na Inglaterra como o árbitro da goleada de 5 a 1 da seleção sobre a Alemanha, em Munique, pelas eliminatórias para o Mundial de 2002.

Durante a Euro 2004, o técnico português José Mourinho, então recém-transferido para o Chelsea, afirmou que Collina mereceria ser homenageado com a Bola de Ouro, prêmio dedicado ao melhor jogador do ano na Europa.

Mourinho justificou: "O árbitro é parte integrante do espetáculo. Collina trata os jogadores pelo nome, pede desculpas aos treinadores quando erra, desconhece a estúpida lei da compensação em que um erro sucede a outro, não aceita pressões ou, melhor dizendo, mostra imediatamente que não vale a pena perder tempo a fazê-las".

Primeiro árbitro a ter um site oficial - www.pierluigicollina.it - Collina é a referência ideal para todos os candidatos a árbitro. Os garotos que sonham em jogar futebol querem ser Shevchenko, Totti, Del Piero, Adriano.

 Os que decidem seguir carreira com o apito querem ser Collina, por mais que ele próprio não recomende.

"Não acho que alguém deva querer ser como outra pessoa. O importante é saber o que tem de ser feito para chegar a um alto padrão, e espero que tudo o que fiz seja admirado pelos outros árbitros. Só se chega a este padrão trabalhando duro", avisa. Vindo de Collina, é mais do que um conselho: é ordem.

 


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