É a mãe!

 Jorge Oliveira com sua mãe Lúcia: “É normal xingar, eu também xingo. O negócio é não esquentar, pois eles não me conhecem mesmo”, diz ela

Silvana Amaral

Mariana Braga

Maio é mês das mães, de demonstrar a essa mulher tão maravilhosa que ela é a pessoa mais importante e especial de nossas vidas. Presentes, mensagens e declarações de afeto, carinho e gratidão das mais diversas formas são dedicados e elas. Há quem diga que o dia dessas mulheres são todos os 365 dias do ano e não somente a data registrada pelo calendário. Mas existem mães que ao invés de elogios recebem vaias, xingamentos e, às vezes, até mesmo ofensas. Não que elas ouçam isso diretamente, mas suas orelhas esquentam mesmo é em casa. Árbitros, policiais, políticos, motoristas e jogadores, entre outros profissionais, vêem constantemente suas mães na boca do povo.

De árbitro, professor ...

Sendo árbitro de futebol, policial federal e professor, Jorge Paulo Oliveira sabe que sua mãe tem orelhas quentes 24 horas por dia. Jorge atua em campos de futebol desde 1979. Árbitro de renome internacional, já apitou copas do mundo (2002), campeonatos e clássicos no Brasil e no exterior. Segundo ele essa questão de xingar a mãe já virou folclore. Mas é claro que as mães continuam sofrendo com os adjetivos pejorativos. Em relação aos jogadores que partem para cima do árbitro e xingam tanto ele como sua mãe Jorge diz que na maioria das países já existem leis que punem esse tipo de atitude com penas severas. “Em outros países os jogadores são mais cordiais”, desabafa ele, que foi eleito o melhor árbitro do país.

Embora adore futebol e com um filho árbitro, Lúcia Oliveira relata que raramente vai aos jogos que Jorge apita. Um dos motivos é a distância, pois muitos dos jogos acontecem em outros estados ou países. Mas ela não perde nenhum lance pela TV e depois do jogo ainda liga para o filho para comentar sobre a partida, a atuação do filhote e os comentários feitos pelos comentaristas esportivos e pelo narrador. “Assisto a todos os jogos pela TV, não perco um. Quanto ao xingar é uma reação normal do torcedor. Você está ali vendo seu time jogar, torcendo não tem jeito, você reclama, grita, xinga a mãe e todo mundo. Até eu xingo. O negocio é não esquentar, pois eles não me conhecem mesmo”, explica.

De motoboy

O motoboy Flávio Leite conta que as empresas que contratam serviços de motoboy exigem agilidade. Isso significa passar nos corredores que se formam entre os carros e fazer manobras que até Deus duvida. E isso tira a paciência de quem está ao volante. “Sempre quando passo perto do retrovisor de um carro, principalmente, as pessoas me xingam e é sempre algo que ofende a mãe. É sempre filho de alguma coisa”, diz. Ele conta que já se ofendeu bastante quando ouvia palavrões que atingiam sua mãe. “De uma certa forma você tem de relevar algumas coisas, mas têm outras que eu não consigo deixar passar”, diz.

Já sua mãe, Maria Passos, diz que se preocupa mais com a vida do filho que se arrisca no trânsito do que com os xingamentos. “Rezo todos os dias e entrego meus filhos a Deus. Na profissão dele o risco de acidente é grande e os carros não respeitam as motocicletas. Já presenciei o Flávio sendo xingado, aliás, xingaram a mim, por um motorista muito mal-educado. O que fiz foi pedir um pouco de educação, pois eu acho falta de respeito ficar xingando a mãe das pessoas”, relata.

De juiz de futebol

O brasiliense Eduardo Nolasco, conhecido no meio esportivo como Dudu, sabe bem o que é ter a mãe destratada quase todos os dias. Árbitro de futsal desde 1996, Eduardo já foi jogador pela Associação Atlética do Banco do Brasil (AABB), treinador e dirigente esportivo. Por isso já se acostumou em ver sua mãe na boca do povo. Embora nunca tenha tido problemas sérios com isso, o árbitro lembra de situações engraçadas pelas quais já passou. “Recordo-me de um jogo em que uma senhora da platéia, mãe de um jogador, não parava de me xingar um segundo. Quando um adversário ameaçou tomar a bola de seu filho, ela deu um grito que mais uma vez pensei que fosse comigo. Perguntei então se ela estava me chamando e toda a platéia caiu na gargalhada. Até hoje sou amigo dela”, conta.

A mãe de Eduardo faleceu quando ele ainda era pequeno, mas ele diz ter na irmã Edna Nolasco, 53, sua segunda mãe. “Foi ela quem cuidou de mim, desde cedo, e agora é quem sofre com os xingamentos”, diz. Outro fato que marcou as arbitragens de Eduardo foi um jogo que apitou em 1998, no ginásio da Asbac. Ele conta que passou toda a partida escutando desaforos de uma torcedora. Ela o chamava de ladrão, filho disso, filho daquilo, mas quando acabou o jogo ela foi até o árbitro parabenizá-lo pelo bom trabalho. “Agradeci e a levei até a Edna, que estava na platéia, para que conhecesse a minha mãe, que tanto destratou. Ela ficou morta de vergonha, mas teve jogo de cintura e aproveitou para comentar que a família conseguia se controlar apesar dos xingamentos”, lembra Eduardo.

Edna explica que com o tempo toda mãe de
juiz de futebol acaba se acostumando em ser “lembrada”, quase todos os jogos apitados pelos filhos. Na família, além de Eduardo, o irmão mais velho também foi juiz de futebol por muitos anos, e quem acabava levando a pior sempre era a mãezona. “Ela nunca se importou com isso. Encarava sempre com bom humor e dizia que árbitros têm duas mães, a mãe verdadeira e a “mãe-judas”, aquela que vai para quadra de jogo para ser enxovalhada pelos torcedores.”, conta. Edna garante também não se importar com o tratamento dado pela torcida. “É a forma que o torcedor de relaxar em momentos tensos de um jogo. Até eu, de vez em quando xingo o juiz”, brinca.

De jogador

O jogador do Gama, Emerson dos Santos, teve que “aprender” a lidar com a situação de ver sua mãe literalmente na boca do povo. “A gente está ali, tentando realizar o nosso trabalho e algumas pessoas não reconhecem. Isso é muito ruim”, diz. Ele conta que no início se abalava muito quando ouvia xingarem sua mãe. “Mas sendo jogador, tenho de me acostumar por que tem vez que você agrada a torcida e outras não”, diz. Maria Socorro, mãe de Emerson, acompanha de perto todos os jogos do filho. “Pelo menos quando estou perto, quase não escuto ele sendo xingado. Mas quando ouço, não dou tanta importância. Só acho que não deveriam fazer isso”, diz.

De policial

Policial militar há mais de sete anos, Flávio Eliseu da Silva, 28 anos, também teve que aprender a conviver com os xingamentos envolvendo a sua mãe, Maria Rosa, 52. Ele conta que as pessoas não dão sossego, principalmente em se tratando de manifestações contra o governo. “Como representamos o órgão repressor do poder, as pessoas acabam descarregando a raiva que têm de algum governante nos policiais. Quem acaba levando a pior são nossas mães, que não têm nada a ver com a história”, ressalta. Flávio, que diz já ter virado os mais diversos tipos de filho na boca do povo, garante que o melhor a fazer nessas horas é fingir que os “títulos” são para outras pessoas. “Tento não prestar atenção, olhar para o lado, pois levar ao pé da letra só traria aborrecimento”, explica.

O PM acredita que, embora as mães sejam as maiores vítimas da história, elas se preocupam mais com o desacato aos filhos do que com elas mesmas. Maria Rosa concorda. Embora nunca tenha presenciado nenhum dos xingamentos, garante que os filhos são os que mais sofrem. “A gente não escuta, mas eles ficam magoados, pois sabem que não somos o que dizem”, explica. Ela diz que na hora da raiva, as pessoas não pensam no sacrifício por que passam as mães de policiais, constantemente preocupadas com os perigos advindos da profissão dos filhos. “Na hora da euforia, o povo não perdoa. Coitada das mães!”, lamenta.


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