Em entrevista ao LANCE!, ele também falou a respeito de seu
começo na arbitragem, sua preparação para os jogos e a ética
dentro da complicada função.
Leia abaixo na íntegra do bate-papo do árbitro com os
repórteres do LANCENET!
Alessandro Abate: Você freqüentava estádios quando era
pequeno? Você via as pessoas xingando os árbitros, o que te fez
pensar em ser árbitro?
Quando eu era garoto morava nas imediações da Avenida Angélica e
tinha uma carteirinha para freqüentar o Pacaembu de graça. Eu e
meu irmão assistíamos a todos os jogos. Na Taça São Paulo de
Juniores, por exemplo, lá independentemente das equipes que
jogavam estávamos lá. Sempre gostei de organizar campeonatos de
participar de futebol, fazer parte do diretório acadêmico da
faculdade, gostava um pouco né de me envolver com liderança, com
esse tipo de organização. Um dia, após concluir meu curso
universitário, estava passando pela FPF e estava aberto o curso
para árbitro de futebol, foi quando procurei a escola de árbitros
Flávio Iazzetti para fazer o curso e iniciei minha carreira.
Luiz Mendroni: Quando começou você imaginava um dia
chegar a uma Copa do Mundo?
Não imaginava, é lógico que a gente sempre tem que ter metas, não
imaginava ser árbitro Fifa. Ser árbitro internacional foi um passo
atingido e para mim apitar clássicos também. Quando ingressei no
curso, não tinha projeto de chegar nesse nível, admirava muito os
árbitros que atuavam na Primeira Divisão. Naquele momento eram
José Aparecido de Oliveira, Oscar Roberto de Godoi e João Paulo
Araújo e tinham muitos árbitros estrangeiros que atuavam no
Campeonato Paulista e árbitros de outros Estados também. Mas a
gente sempre projeta e vai pensando em uma fase, um momento na
carreira, isso foi acontecendo e agora estou pré-selecionado pela
Fifa a concorrer a uma das vagas entre os árbitros que irão para
Copa da África do Sul.
Marília Ruiz: Você ouve os torcedores te xingarem?
Lógico, independentemente do formalismo, ser árbitro de
futebol é estar em contato com o público, sociedade e com o povo,
lógico que o árbitro escuta que sabe, depende do estádio. Durante
o jogo não ouço, se meu nível de concentração estiver alto, mas
quando a bola pára ai sim. Quando a bola está em movimento, se o
árbitro estiver concentrado ele nem consegue entender o que a
torcida está falando.
M.R.: Como é ouvir 30 mil torcedores te xingando, nunca
elogiando?
Importante é ressaltar que quando o público chega a trinta mil
pessoas, é por que já foi xingado por uma antes. Quando começou a
carreira e tinha só um torcedor, então isso é progressivo. Há um
índice muito grande de desistência, árbitros que procuram a
carreira e que param no meio do caminho por vários fatores, entre
eles esse. Então o árbitro que quer ser árbitro de futebol e não
vai passar por essa situação de ser xingado vai parar sua
carreira.
M.R.: Já aconteceu de você errar em algum lance e saber
que errou?
Acontece, e o árbitro de futebol por muitas vezes durante o jogo
sabe que errou. Sabe, porque ele perde o tempo de apito, ele perde
o tempo de tomar a decisão. Nessa situação ele não vai voltar
atrás da decisão porque a regra não permite, então é possível que
o árbitro durante o jogo tenha aquela percepção de que realmente
ouve o erro. Cada erro que o árbitro tem é ruim pra sua
arbitragem, todo árbitro quer progredir na carreira, ele quer
acertar, ele quer ter a melhor arbitragem possível, quer legitimar
o resultado. Nenhum árbitro de futebol sai de casa querendo
prejudicar uma ou outra equipe ou querendo errar.
M.R.: E existe compensação nestes casos?
Não existe, somos muito cobrados sobre isso e bem treinados,
porque se existir essa compensação, o árbitro está cometendo um
segundo erro. Eu prefiro terminar a partida com um erro, do que
com dois, do que com três ou quatro, porque vou ter um segundo
erro? Aí, vou interferir direto no resultado da partida.
A.A.: Vocês são bem trabalhados e orientados, para
agüentar essa pressão da torcida, mas como fica com os amigos e os
familiares?
Não! Nenhum árbitro gosta de ser xingado, ninguém gosta de ser
xingado é importante ressaltar que o campo de jogo é uma arena, o
público que vai ao campo de jogo às vezes tá xingando o árbitro
mas tá colocando para fora vários problemas e não exclusivamente o
árbitro de futebol que errou ou que prejudicou sua equipe. Ali é
momento de desabafo é psicologicamente comprovado que a conduta do
torcedor é diferente. O meu irmão vai ao estádio de futebol
assistir a um jogo que eu tô apitando e ele me xinga! Porque ali é
uma arena livre, onde se pode expressar as opiniões. Agora, esse é
um ponto, o outro é a sociedade. O que não pode é o árbitro deixar
de conviver na sociedade só porque teve uma má atuação ou porque
foi criticado. O árbitro vai ao clube como sócio, freqüenta
supermercado, vai ao posto de gasolina, freqüenta a igreja. Cada
árbitro tem o seu ambiente e o seu meio, tem o seu local de
trabalho, a empresa onde trabalha, cada um tem o seu ambiente
público. Agora o que não pode é aquele árbitro que quando é
elogiado pela crítica sai na rua, vai a lugares que nem costumam
freqüentar. Ele sai com o tanque cheio de gasolina e quer parar no
posto só pro frentista falar: “Apitou bem no lance dou uma nota
boa pra você”, aí quando ele tem uma nota ruim, o carro tá quase
parando sem gasolina, ele vai falar hoje eu não posso parar aqui
porque o LANCE! me deu uma nota ruim, árbitro tem que conviver
normalmente. A família é importante, porque é a base para o
árbitro, se não tiver uma estrutura familiar ele não vai conseguir
suportar tudo isso, não vai conseguir conviver com críticas.
M.R.: Você não tem medo da falta de segurança, mulher,
família, já imaginou sua filha? Ah! É a filha do juiz que não deu
o gol do Adriano. Você teme por eles?
Não, em momento nenhum. Pelo contrário, apesar de todo o problema
de segurança que temos, moro em São Paulo, minha filha estuda,
minha esposa trabalha, apesar de nós estarmos vivendo em uma
cidade que tem um problema de segurança muito grave, posso dizer
que até hoje as referências que tive de torcedores na rua sempre
foram a melhor possível. Torcedor gosta de se aproximar da gente,
gosta de perguntar e de falar, nunca passei por nenhum momento de
violência, de ameaça, ou de qualquer situação. É diferente daquele
torcedor que está no estádio após o término da partida. Mas no day
after (dia seguinte) o torcedor quer conversar com a gente ou vir
tomar um café, perguntar como é o jogador, um torcedor realmente
muito sociável. Recentemente eu peguei um táxi e o motorista me
perguntou se eu não tinha medo de ser árbitro de futebol com esse
perigo da sociedade. Aí eu perguntei pra ele, você tem algum
exemplo de árbitro fora dos campos que foi agredido ou que foi
assassinado em São Paulo? Não, eu não conheço nenhum. E motorista
de táxi? Ai ele me falou que sim, que no ponto onde trabalha teve
um taxista que foi assassinado e perguntei a ele, você tem medo de
ser motorista de táxi? Ele respondeu: Ah! Eu preciso trabalhar.
L.M.: Falando da questão da ética... O caso do Anselmo
da Costa que é arbitro de futebol e trabalha na empresa do
Vanderlei Luxemburgo?
Na carreira do árbitro de futebol como todas as outras atividades
existem muitas atitudes que são incompatíveis com a função que
estão exercendo, independentemente de trabalhar pra uma outra
equipe talvez não tenha sido mencionado neste caso qual seria essa
relação, qual seria a relação direta. O árbitro tem que se
policiar, o árbitro é uma pessoa pública, não só este como outros
exemplos que poderia te dar. O árbitro não pode freqüentar Jóquei
clube, casa de bingo, eu não posso, se eu gosto de ir pra boate,
de sair à noite isso é incompatível. Não dá para sair pra uma
boate e no domingo estar no estádio apitando um jogo. Tenho que me
privar de muitas coisas na vida para ser árbitro. Isso é natural e
aprendemos na escola de árbitros, nós não temos um código de ética
do que pode ou não pode, mas o bom senso zela para que não
tenhamos este tipo de atitude, este tipo de vínculo com clubes,
com pessoas ligadas ao futebol, com entidades desportivas, nós
temos quer ser pessoas públicas e neutras quando vamos pro campo
de jogo, se não nós não vamos passar segurança para as equipes que
vão estar lá.
L.M.: Já te ofereceram dinheiro para beneficiar alguma
equipe?
Em todos esses anos de arbitragem, já estou completando 17 anos,
nunca passei por uma situação dessas. O dia que eu passar por isso
você vai ficar sabendo porque eu iria numa delegacia fazer uma
ocorrência. Nem dinheiro nem qualquer outra vantagem ou prêmio.
Existem várias formas de você inibir isso, por exemplo, não chegar
ao estádio sozinho, não estar só, sempre em equipe, sempre em
grupo, isto é uma orientação dada a todos os árbitros. Eu cumpro a
risca essas orientações.
M.R.: Você disse que precisa manter a neutralidade,
você torcia para algum time quando era pequeno?
Sentou no banco da escola de árbitros o olhar é diferente. O olho
do árbitro de futebol em um jogo fica focado em como o árbitro
segurou a bola, quando ele entrou em campo, que cor de camisa que
ele está, meu olhar é pro árbitro de futebol, não mais para aquele
sentimento de clube. Você sabe qual time o árbitro torce
quando você vai na casa da mãe e pega aqueles álbuns de família
antigos, sempre vai ter um Natal em que o árbitro tá ganhando um
presente e vai estar com a camisa do time de futebol. Um dia
desses estava com meu irmão na casa da nossa mãe e procuramos em
vários álbuns e não tinha nenhum foto minha com camisa de time.
Não é que o juiz não possa falar, tem vários árbitros que declaram
e falam para qual time torciam antes de serem árbitros. Nunca fui
aquele fanático de gostar de uma equipe, sempre fui um cara que
gostava de assistir futebol independentemente do time que fosse. E
se eu tivesse um time antes de ser árbitro de futebol eu falaria
aqui pra você o time que eu torcia.
A.A.: Você gosta de acompanhar a repercussão na
imprensa no dia seguinte a uma partida?
Hoje existem tantos veículos que se o árbitro de futebol
for querer pegar opinião de todos os profissionais de imprensa ele
não vai conseguir conviver com sua família. É lógico que as 817
câmeras que existem no campo de futebol são uma ferramenta para
melhorar minha performance, eu preciso dessa imagem pra assistir o
jogo e verificar o meu posicionamento a minha interpretação das
jogadas.
M.R.: Você acha injusto isso com você ter tantas
câmeras?
Não dá pra comparar o eletrônico com o humano, A imagem pode
mostrar e ficar repetindo. Eu prefiro ficar com o olho humano e
comparar com as pessoas que viram no campo. Eu gosto do
profissional de rádio, do repórter de campo por que eles têm a
mesma ferramenta que eu. Eu gosto muito de ouvir rádio AM, porque
você ouve o locutor narrando o jogo e muitas vezes ele toma
decisão como se fosse o árbitro, por exemplo: entrou na área
driblou e foi pênalti, e muitas vezes o árbitro não marcou, e você
vai olhar na imagem e foi pênalti ou não foi pênalti, porque este,
apesar de alguns locais que tem acesso monitor, mas ele está
narrando com tanta velocidade que ele está olhando exclusivamente
pro campo de jogo. O árbitro tem que tirar proveito desse recurso
eletrônico agora, eu não gosto de ficar vendo os programas de mesa
redonda, porque são torcedores, não têm uma opinião muito crítica,
mas eu tenho que eleger aquele profissional que entendo que
interpreta bem a regra, eu gosto de ver a visão do comentarista
esportivo, mas não posso me prender a todos.
M.R.: O que você acha de toda essa choradeira, essa
preocupação que se está tendo nesse começo de ano com a arbitragem
e o que você achou da polêmica do Corinthians x São Paulo?
Arbitragem é um caso inesgotável, se for falar disso vai ocupar
todas as páginas dos jornais, vai ocupar todo o espaço dos
programas de televisão. Muitas vezes se for falar só do
centroavante ou só do goleiro talvez não tenha assunto porque a
bola não chega lá. Agora o árbitro toma 150,160 decisões num jogo
e não tem como não ter assunto pra falar. Não é só em São Paulo,
no Rio e em Minas, em Portugal hoje tem muita polêmica e a Espanha
também. Esse ano o assunto está realmente acima da média. Só tem
um jeito de nós continuarmos a trabalhar e legitimar o nosso
trabalho, os envolvidos no futebol tem que saber que e a
arbitragem está a fim de acertar. O que eu acho que falta é que as
pessoas envolvidas no futebol pensem em qual é a sua parcela de
contribuição para a arbitragem, todos esses críticos, todos esses
reclamões, até hoje eu não existe nenhuma parcela de contribuição
em prol de melhorar a arbitragem. Se eles começarem também a dar
sua parcela de contribuição, todos nós vamos ter um futebol
legitimado, um futebol como negócio e com resultados adequados.
Porque somos nós quem mais detestamos quando um lance interfere no
resultado. Quando o jogo tá 0x0, 1x1 e eu cometo um erro esse é o
pior de todos os erros que podem acontecer.
M.R.: Estava 0 x 0 e o que aconteceu naquele lance
entre o Willian e o Adriano?
A bola ia ser alçada e eu olho para o Adriano. Ele vai para trás e
pula nas costas do Willian, cometendo uma carga e impedindo que o
adversário pudesse alcançar a bola. Ai eu marco falta. Eu levei o
lance para os árbitros do curso preparatório da Fifa analisarem,
eles não foram unânimes, mas a maioria achou que foi carga. A
imagem foi muito clara ele dá um passo para trás e sobe no
jogador.
A.A.: Você tem birra de algum técnico que não venceu e
depois quer culpar a arbitragem?
Não vencer e querer transmitir a responsabilidade não dá não é! É
muito comum o treinador se dirigir ao árbitro e querer
cumprimentar: ‘Parabéns pela arbitragem, você foi muito bem hoje'
e depois ser colocado que o treinador foi lá para reclamar.
É lógico que já vi muitos treinadores se dirigirem com gestos e
reclamações, tem as duas situações. Mas não tem como criar birra,
não dá para levar para a partida seguinte e perseguir um
treinador, um jogador ou um clube, isso é ignorância e somos
cobrados para não fazer. No dia em que eu estiver com um instinto
de vingança em campo eu tenho que ficar na minha casa.
L.M. Existe diferença entre o estilo de arbitragem na
Europa, na Libertadores e no Brasil?
Eu vejo a imprensa falando muito sobre esse assunto, que a
arbitragem da Europa, do Paulista e da Libertadores são
diferentes. Eu gostaria que vocês pensassem de outra forma. O
futebol Europeu, o futebol da Libertadores e o futebol do
Campeonato Paulista são diferentes. Se você pegar o futebol gaúcho
e o carioca, são comportamentos completamente diferentes, a forma
de disputar bola é diferente. Eu escuto alguns profissionais falar
que preferem os árbitros da Europa, não que isso seja ofensivo
para mim, mas na Europa os árbitros realmente são treinados, são
altamente capacitados, mas nós precisamos verificar qual é o
comportamento, qual é a conduta do jogador. Lá o jogador visa
exclusivamente a bola, ele tem uma outra ação na hora da disputa,
existe um Fairplay maior, uma disputa melhor visando
exclusivamente à bola, o jogador quando cai não fica no chão. Nós
temos que nos adaptar a isso. Nós presenciamos os europeus vindo
apitar jogos do campeonato paulista, e eles apitaram como os
árbitros daqui. Porque o futebol é diferente e aquele exemplo
comprovou para nós que essa integração é importante. Eu sempre vou
pro campo de jogo do mesmo jeito, a única coisa que eu vejo é a
conduta e o comportamento do jogador que, na hora de disputar a
bola, é diferente.
M.R.: Qual o Jogador mais chato?
O Biguinha ele jogava no time do Iguape lá do meu amigo Ednilson
Corona que tem um time, ele me chamou pra apitar lá, esse eu não
agüentava apitar jogo dele.
M.R.: E o técnico mais chato?
Tem vários técnicos. Eu falo pra você que eles estão no papel
deles, quando eles excederem o papel deles eu vou tomar uma
atitude e excluí-los. Eles estão no papel de reclamar e querer que
eu interprete a favor deles, eu vou interpretar de acordo com a
regra de jogo.
A.A.: Em lances de escanteio sempre tem muito
agarra-agarra, como não marcar os pênaltis?
O Cléber, que jogou do Palmeiras era assim, era o jogador que mais
segurava com a bola parada, mas batia o escanteio ele soltava.
L.M.: Quem você considera o melhor árbitro hoje?
A arbitragem da Copa da Coréia/Japão foi péssima e o Colina estava
lá. Então o que adianta ter um super-árbitro e a competição ir
mal. Na Copa da Alemanha a Fifa preferiu nivelar a arbitragem. Mas
hoje, na América do Sul o Larrionda é considerado o melhor. O
Oscar Ruiz também está bem cotado. O brasileiro melhor colocado no
ranking da Fifa é o Simon.
A.A.: A vaga para a Copa está entre você e o Simon?
Não existe uma concorrência entre a gente, pode ir um, os dois ou
nenhum, vai depender das avaliações que estamos fazendo na Fifa.
L.M.: E como é apitar na altitude?
Na altitude você tem que brigar com o gandula, não deixar ele
colocar a bola atrás do gol