ANAF : Associação Nacional dos Árbitros de Futebol

Sálvio Spínola Fagundes Filho

Publicada em 9/3/2008

  As reclamações sobre arbitragem estão virando rotina no futebol brasileiro neste começo de temporada. O choro do Botafogo, após a final da Taça Guanabara, foi o estopim de uma crise, que ainda teve o desabafo de Luxemburgo e um polêmico clássico entre São Paulo e Corinthians, entre outros casos que envolveram o apito.

No olho do furacão está Sálvio Spínola Fagundes Filho, pré-selecionado, junto com Carlos Eugênio Simon, para apitar a Copa do Mundo de 2010, e que ficou marcado por anular um gol de Adriano no último Majestoso.

Apesar de não se dizer vaidoso, o árbitro fez questão de abrir a discussão sobre o lance na Fifa.

– Não foram unânimes, mas a maioria achou que foi carga do Adriano sobre o Willian – disse.

Sálvio: 'Até meu irmão me xinga no estádio'

Em entrevista ao LANCE!, ele também falou a respeito de seu começo na arbitragem, sua preparação para os jogos e a ética dentro da complicada função.

Leia abaixo na íntegra do bate-papo do árbitro com os repórteres do LANCENET!

Alessandro Abate: Você freqüentava estádios quando era pequeno? Você via as pessoas xingando os árbitros, o que te fez pensar em ser árbitro?
Quando eu era garoto morava nas imediações da Avenida Angélica e tinha uma carteirinha para freqüentar o Pacaembu de graça. Eu e meu irmão assistíamos a todos os jogos. Na Taça São Paulo de Juniores, por exemplo, lá independentemente das equipes que jogavam estávamos lá. Sempre gostei de organizar campeonatos de participar de futebol, fazer parte do diretório acadêmico da faculdade, gostava um pouco né de me envolver com liderança, com esse tipo de organização. Um dia, após concluir meu curso universitário, estava passando pela FPF e estava aberto o curso para árbitro de futebol, foi quando procurei a escola de árbitros Flávio Iazzetti para fazer o curso e iniciei minha carreira.

Luiz Mendroni: Quando começou você imaginava um dia chegar a uma Copa do Mundo?
Não imaginava, é lógico que a gente sempre tem que ter metas, não imaginava ser árbitro Fifa. Ser árbitro internacional foi um passo atingido e para mim apitar clássicos também. Quando ingressei no curso, não tinha projeto de chegar nesse nível, admirava muito os árbitros que atuavam na Primeira Divisão. Naquele momento eram José Aparecido de Oliveira, Oscar Roberto de Godoi e João Paulo Araújo e tinham muitos árbitros estrangeiros que atuavam no Campeonato Paulista e árbitros de outros Estados também. Mas a gente sempre projeta e vai pensando em uma fase, um momento na carreira, isso foi acontecendo e agora estou pré-selecionado pela Fifa a concorrer a uma das vagas entre os árbitros que irão para Copa da África do Sul.

Marília Ruiz: Você ouve os torcedores te xingarem?
Lógico, independentemente do formalismo, ser árbitro de futebol é estar em contato com o público, sociedade e com o povo, lógico que o árbitro escuta que sabe, depende do estádio. Durante o jogo não ouço, se meu nível de concentração estiver alto, mas quando a bola pára ai sim. Quando a bola está em movimento, se o árbitro estiver concentrado ele nem consegue entender o que a torcida está falando.

M.R.: Como é ouvir 30 mil torcedores te xingando, nunca elogiando?
Importante é ressaltar que quando o público chega a trinta mil pessoas, é por que já foi xingado por uma antes. Quando começou a carreira e tinha só um torcedor, então isso é progressivo. Há um índice muito grande de desistência, árbitros que procuram a carreira e que param no meio do caminho por vários fatores, entre eles esse. Então o árbitro que quer ser árbitro de futebol e não vai passar por essa situação de ser xingado vai parar sua carreira.

M.R.: Já aconteceu de você errar em algum lance e saber que errou?
Acontece, e o árbitro de futebol por muitas vezes durante o jogo sabe que errou. Sabe, porque ele perde o tempo de apito, ele perde o tempo de tomar a decisão. Nessa situação ele não vai voltar atrás da decisão porque a regra não permite, então é possível que o árbitro durante o jogo tenha aquela percepção de que realmente ouve o erro. Cada erro que o árbitro tem é ruim pra sua arbitragem, todo árbitro quer progredir na carreira, ele quer acertar, ele quer ter a melhor arbitragem possível, quer legitimar o resultado. Nenhum árbitro de futebol sai de casa querendo prejudicar uma ou outra equipe ou querendo errar.

M.R.: E existe compensação nestes casos?
Não existe, somos muito cobrados sobre isso e bem treinados, porque se existir essa compensação, o árbitro está cometendo um segundo erro. Eu prefiro terminar a partida com um erro, do que com dois, do que com três ou quatro, porque vou ter um segundo erro? Aí, vou interferir direto no resultado da partida.

A.A.: Vocês são bem trabalhados e orientados, para agüentar essa pressão da torcida, mas como fica com os amigos e os familiares?
Não! Nenhum árbitro gosta de ser xingado, ninguém gosta de ser xingado é importante ressaltar que o campo de jogo é uma arena, o público que vai ao campo de jogo às vezes tá xingando o árbitro mas tá colocando para fora vários problemas e não exclusivamente o árbitro de futebol que errou ou que prejudicou sua equipe. Ali é momento de desabafo é psicologicamente comprovado que a conduta do torcedor é diferente. O meu irmão vai ao estádio de futebol assistir a um jogo que eu tô apitando e ele me xinga! Porque ali é uma arena livre, onde se pode expressar as opiniões. Agora, esse é um ponto, o outro é a sociedade. O que não pode é o árbitro deixar de conviver na sociedade só porque teve uma má atuação ou porque foi criticado. O árbitro vai ao clube como sócio, freqüenta supermercado, vai ao posto de gasolina, freqüenta a igreja. Cada árbitro tem o seu ambiente e o seu meio, tem o seu local de trabalho, a empresa onde trabalha, cada um tem o seu ambiente público. Agora o que não pode é aquele árbitro que quando é elogiado pela crítica sai na rua, vai a lugares que nem costumam freqüentar. Ele sai com o tanque cheio de gasolina e quer parar no posto só pro frentista falar: “Apitou bem no lance dou uma nota boa pra você”, aí quando ele tem uma nota ruim, o carro tá quase parando sem gasolina, ele vai falar hoje eu não posso parar aqui porque o LANCE! me deu uma nota ruim, árbitro tem que conviver normalmente. A família é importante, porque é a base para o árbitro, se não tiver uma estrutura familiar ele não vai conseguir suportar tudo isso, não vai conseguir conviver com críticas.

M.R.: Você não tem medo da falta de segurança, mulher, família, já imaginou sua filha? Ah! É a filha do juiz que não deu o gol do Adriano. Você teme por eles?
Não, em momento nenhum. Pelo contrário, apesar de todo o problema de segurança que temos, moro em São Paulo, minha filha estuda, minha esposa trabalha, apesar de nós estarmos vivendo em uma cidade que tem um problema de segurança muito grave, posso dizer que até hoje as referências que tive de torcedores na rua sempre foram a melhor possível. Torcedor gosta de se aproximar da gente, gosta de perguntar e de falar, nunca passei por nenhum momento de violência, de ameaça, ou de qualquer situação. É diferente daquele torcedor que está no estádio após o término da partida. Mas no day after (dia seguinte) o torcedor quer conversar com a gente ou vir tomar um café, perguntar como é o jogador, um torcedor realmente muito sociável. Recentemente eu peguei um táxi e o motorista me perguntou se eu não tinha medo de ser árbitro de futebol com esse perigo da sociedade. Aí eu perguntei pra ele, você tem algum exemplo de árbitro fora dos campos que foi agredido ou que foi assassinado em São Paulo? Não, eu não conheço nenhum. E motorista de táxi? Ai ele me falou que sim, que no ponto onde trabalha teve um taxista que foi assassinado e perguntei a ele, você tem medo de ser motorista de táxi? Ele respondeu: Ah! Eu preciso trabalhar.

L.M.: Falando da questão da ética... O caso do Anselmo da Costa que é arbitro de futebol e trabalha na empresa do Vanderlei Luxemburgo?
Na carreira do árbitro de futebol como todas as outras atividades existem muitas atitudes que são incompatíveis com a função que estão exercendo, independentemente de trabalhar pra uma outra equipe talvez não tenha sido mencionado neste caso qual seria essa relação, qual seria a relação direta. O árbitro tem que se policiar, o árbitro é uma pessoa pública, não só este como outros exemplos que poderia te dar. O árbitro não pode freqüentar Jóquei clube, casa de bingo, eu não posso, se eu gosto de ir pra boate, de sair à noite isso é incompatível. Não dá para sair pra uma boate e no domingo estar no estádio apitando um jogo. Tenho que me privar de muitas coisas na vida para ser árbitro. Isso é natural e aprendemos na escola de árbitros, nós não temos um código de ética do que pode ou não pode, mas o bom senso zela para que não tenhamos este tipo de atitude, este tipo de vínculo com clubes, com pessoas ligadas ao futebol, com entidades desportivas, nós temos quer ser pessoas públicas e neutras quando vamos pro campo de jogo, se não nós não vamos passar segurança para as equipes que vão estar lá.

L.M.: Já te ofereceram dinheiro para beneficiar alguma equipe?
Em todos esses anos de arbitragem, já estou completando 17 anos, nunca passei por uma situação dessas. O dia que eu passar por isso você vai ficar sabendo porque eu iria numa delegacia fazer uma ocorrência. Nem dinheiro nem qualquer outra vantagem ou prêmio. Existem várias formas de você inibir isso, por exemplo, não chegar ao estádio sozinho, não estar só, sempre em equipe, sempre em grupo, isto é uma orientação dada a todos os árbitros. Eu cumpro a risca essas orientações.

M.R.: Você disse que precisa manter a neutralidade, você torcia para algum time quando era pequeno?
Sentou no banco da escola de árbitros o olhar é diferente. O olho do árbitro de futebol em um jogo fica focado em como o árbitro segurou a bola, quando ele entrou em campo, que cor de camisa que ele está, meu olhar é pro árbitro de futebol, não mais para aquele sentimento de clube.  Você sabe qual time o árbitro torce quando você vai na casa da mãe e pega aqueles álbuns de família antigos, sempre vai ter um Natal em que o árbitro tá ganhando um presente e vai estar com a camisa do time de futebol. Um dia desses estava com meu irmão na casa da nossa mãe e procuramos em vários álbuns e não tinha nenhum foto minha com camisa de time. Não é que o juiz não possa falar, tem vários árbitros que declaram e falam para qual time torciam antes de serem árbitros. Nunca fui aquele fanático de gostar de uma equipe, sempre fui um cara que gostava de assistir futebol independentemente do time que fosse. E se eu tivesse um time antes de ser árbitro de futebol eu falaria aqui pra você o time que eu torcia.

A.A.: Você gosta de acompanhar a repercussão na imprensa no dia seguinte a uma partida?
Hoje existem tantos veículos que se o árbitro de futebol for querer pegar opinião de todos os profissionais de imprensa ele não vai conseguir conviver com sua família. É lógico que as 817 câmeras que existem no campo de futebol são uma ferramenta para melhorar minha performance, eu preciso dessa imagem pra assistir o jogo e verificar o meu posicionamento a minha interpretação das jogadas.

M.R.: Você acha injusto isso com você ter tantas câmeras?
Não dá pra comparar o eletrônico com o humano, A imagem pode mostrar e ficar repetindo. Eu prefiro ficar com o olho humano e comparar com as pessoas que viram no campo. Eu gosto do profissional de rádio, do repórter de campo por que eles têm a mesma ferramenta que eu. Eu gosto muito de ouvir rádio AM, porque você ouve o locutor narrando o jogo e muitas vezes ele toma decisão como se fosse o árbitro, por exemplo: entrou na área driblou e foi pênalti, e muitas vezes o árbitro não marcou, e você vai olhar na imagem e foi pênalti ou não foi pênalti, porque este, apesar de alguns locais que tem acesso monitor, mas ele está narrando com tanta velocidade que ele está olhando exclusivamente pro campo de jogo. O árbitro tem que tirar proveito desse recurso eletrônico agora, eu não gosto de ficar vendo os programas de mesa redonda, porque são torcedores, não têm uma opinião muito crítica, mas eu tenho que eleger aquele profissional que entendo que interpreta bem a regra, eu gosto de ver a visão do comentarista esportivo, mas não posso me prender a todos.

M.R.: O que você acha de toda essa choradeira, essa preocupação que se está tendo nesse começo de ano com a arbitragem e o que você achou da polêmica do Corinthians x São Paulo?
Arbitragem é um caso inesgotável, se for falar disso vai ocupar todas as páginas dos jornais, vai ocupar todo o espaço dos programas de televisão. Muitas vezes se for falar só do centroavante ou só do goleiro talvez não tenha assunto porque a bola não chega lá. Agora o árbitro toma 150,160 decisões num jogo e não tem como não ter assunto pra falar. Não é só em São Paulo, no Rio e em Minas, em Portugal hoje tem muita polêmica e a Espanha também. Esse ano o assunto está realmente acima da média. Só tem um jeito de nós continuarmos a trabalhar e legitimar o nosso trabalho, os envolvidos no futebol tem que saber que e a arbitragem está a fim de acertar. O que eu acho que falta é que as pessoas envolvidas no futebol pensem em qual é a sua parcela de contribuição para a arbitragem, todos esses críticos, todos esses reclamões, até hoje eu não existe nenhuma parcela de contribuição em prol de melhorar a arbitragem. Se eles começarem também a dar sua parcela de contribuição, todos nós vamos ter um futebol legitimado, um futebol como negócio e com resultados adequados. Porque somos nós quem mais detestamos quando um lance interfere no resultado. Quando o jogo tá 0x0, 1x1 e eu cometo um erro esse é o pior de todos os erros que podem acontecer.

M.R.: Estava 0 x 0 e o que aconteceu naquele lance entre o Willian e o Adriano?
A bola ia ser alçada e eu olho para o Adriano. Ele vai para trás e pula nas costas do Willian, cometendo uma carga e impedindo que o adversário pudesse alcançar a bola. Ai eu marco falta. Eu levei o lance para os árbitros do curso preparatório da Fifa analisarem, eles não foram unânimes, mas a maioria achou que foi carga. A imagem foi muito clara ele dá um passo para trás e sobe no jogador.

A.A.: Você tem birra de algum técnico que não venceu e depois quer culpar a arbitragem?
Não vencer e querer transmitir a responsabilidade não dá não é! É muito comum o treinador se dirigir ao árbitro e querer cumprimentar: ‘Parabéns pela arbitragem, você foi muito bem hoje' e depois ser colocado que o treinador foi lá para reclamar.
É lógico que já vi muitos treinadores se dirigirem com gestos e reclamações, tem as duas situações. Mas não tem como criar birra, não dá para levar para a partida seguinte e perseguir um treinador, um jogador ou um clube, isso é ignorância e somos cobrados para não fazer. No dia em que eu estiver com um instinto de vingança em campo eu tenho que ficar na minha casa.

L.M. Existe diferença entre o estilo de arbitragem na Europa, na Libertadores e no Brasil?
Eu vejo a imprensa falando muito sobre esse assunto, que a arbitragem da Europa, do Paulista e da Libertadores são diferentes. Eu gostaria que vocês pensassem de outra forma. O futebol Europeu, o futebol da Libertadores e o futebol do Campeonato Paulista são diferentes. Se você pegar o futebol gaúcho e o carioca, são comportamentos completamente diferentes, a forma de disputar bola é diferente. Eu escuto alguns profissionais falar que preferem os árbitros da Europa, não que isso seja ofensivo para mim, mas na Europa os árbitros realmente são treinados, são altamente capacitados, mas nós precisamos verificar qual é o comportamento, qual é a conduta do jogador. Lá o jogador visa exclusivamente a bola, ele tem uma outra ação na hora da disputa, existe um Fairplay maior, uma disputa melhor visando exclusivamente à bola, o jogador quando cai não fica no chão. Nós temos que nos adaptar a isso. Nós presenciamos os europeus vindo apitar jogos do campeonato paulista, e eles apitaram como os árbitros daqui. Porque o futebol é diferente e aquele exemplo comprovou para nós que essa integração é importante. Eu sempre vou pro campo de jogo do mesmo jeito, a única coisa que eu vejo é a conduta e o comportamento do jogador que, na hora de disputar a bola, é diferente.

M.R.: Qual o Jogador mais chato?
O Biguinha ele jogava no time do Iguape lá do meu amigo Ednilson Corona que tem um time, ele me chamou pra apitar lá, esse eu não agüentava apitar jogo dele.

M.R.: E o técnico mais chato?
Tem vários técnicos. Eu falo pra você que eles estão no papel deles, quando eles excederem o papel deles eu vou tomar uma atitude e excluí-los. Eles estão no papel de reclamar e querer que eu interprete a favor deles, eu vou interpretar de acordo com a regra de jogo.

A.A.: Em lances de escanteio sempre tem muito agarra-agarra, como não marcar os pênaltis?
O Cléber, que jogou do Palmeiras era assim, era o jogador que mais segurava com a bola parada, mas batia o escanteio ele soltava.

L.M.: Quem você considera o melhor árbitro hoje?
A arbitragem da Copa da Coréia/Japão foi péssima e o Colina estava lá. Então o que adianta ter um super-árbitro e a competição ir mal. Na Copa da Alemanha a Fifa preferiu nivelar a arbitragem. Mas hoje, na América do Sul o Larrionda é considerado o melhor. O Oscar Ruiz também está bem cotado. O brasileiro melhor colocado no ranking da Fifa é o Simon.

A.A.: A vaga para a Copa está entre você e o Simon?
Não existe uma concorrência entre a gente, pode ir um, os dois ou nenhum, vai depender das avaliações que estamos fazendo na Fifa.

L.M.: E como é apitar na altitude?
Na altitude você tem que brigar com o gandula, não deixar ele colocar a bola atrás do gol

Fonte: LANCENET! - Alessandro Abate  - Marília Ruiz São Paulo


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