ANAF : Associação Nacional dos Árbitros de Futebol

 

Carreira / Silvio Luiz

Olho no lance

Locutor lança livro em comemoração aos 50 anos de carreira e pela primeira vez desde 1974 está fora das transmissões da Copa do Mundo

Rodrigo Cardoso

 

Iogurte não narra uma partida de futebol desde o ano passado. No próximo mês, também estará fora da transmissão dos jogos da Copa do Mundo do Japão/Coréia, fato raro em sua carreira desde 1974, quando atuou como locutor em um mundial pela primeira vez. Iogurte apresenta dois programas de rádio e tem narrado jogos de basquete na Bandeirantes. Há dois anos, nessa mesma emissora, foi colocado em stand by, algo como reserva de um outro locutor, e ouviu de um diretor: “Como narrador, você acabou”.

Iorgurte, como o locutor de esporte Silvio Luiz é chamado pelos amigos, diz não carregar mágoas de ninguém. No início do mês, ao lado de amigos e admiradores, comemorou 50 anos de carreira lançando o livro Olho no Lance, escrito pelo jornalista Wagner William. Pensando justamente naqueles que um dia lhe faltaram com o respeito, fez questão de publicar uma foto na qual veste smoking e segura uma banana descascada. “Tenho poucos amigos e é muito difícil fazer amizade comigo. Sou pequeno, branco e azedo. Um iogurte”, ele diz.

Criador de bordões (leia no quadro ao lado) que o colocaram como um dos locutores mais carismáticos do País, Silvio garante não sentir falta das transmissões de futebol, desde que não fique parado. Pensa assim depois que um câncer numa corda vocal quase o fez perder a voz. Operado em 1999, ficou nove meses longe das transmissões, tratando-se com uma fonoaudióloga três vezes por semana, duas horas por dia. “Fiquei vinte dias sem falar nada, achando que nunca mais ouviria minha voz. Pensava: Que vou fazer se parar? Vender banana, virar chofer? Não saía a voz, caramba!”, conta.

Aos 68 anos, Silvio é o único filho homem de dona Elisabeth Darcy. A ela, o locutor faz a primeira dedicatória do livro, na qual pede desculpas pelo trabalho que deu. “Ficava na noite e não avisava. Chegava em casa 6h e não falava nada quando minha mãe acordava. Aí, casei e sosseguei.” Silvio casou-se aos 34 anos e tem três filhos. “Ele e a mulher sempre viajam em carros separados. Diz que se acontecer um acidente, os filhos não podem ficar sem pai e mãe”, conta o jornalista e amigo Flávio Prado. Antes do casamento, Silvio viveu no meio de músicos, em salões de bilhar, nas boates da noite. Aprendeu na vida e levou para a cabine de transmissão os trejeitos e as gírias da rua. “Se representei alguma coisa, não imagino o que possa ter sido. Vivi minha vida normal, porra!”, diz.

Silvio é tão imprevisível que já foi capaz de transmitir um jogo de cueca por não suportar o calor da cabine. Em outra ocasião foi escoltado pelo batalhão de choque da Polícia Militar para poder narrar um jogo do Palmeiras, no Palestra Itália. “Chamei o Edmundo (atacante) de cafajeste e a torcida queria me pegar”, lembra. Na entrada do estádio, Silvio ouviu do capitão da PM: “Como você quer entrar?”. E respondeu: “Com escândalo, distribuindo porrada!”.

Nesse dia Silvio saiu sem nenhum arranhão, rindo da situação. Mas nos dez anos em que atuou como juiz de futebol, não se livrou de pontapés no traseiro e tapas na orelha. Ao término de um jogo em Bauru (SP), a torcida local tentou acertá-lo com cadeiradas. No vestiário, ao mesmo tempo em que se ensaboava no chuveiro, desviava de rojões lançados pela janela. Silvio não pensa em parar. Quer ser diretor de eventos esportivos ou assistente de direção. “Não preciso mais dar a cara a tapa, até porque o cenário está caindo, companheiro”, diz ele. “Mas plástica não faço. Não sou vaidoso. Minha mulher enche o saco: ‘Pô, tá mal educado! Não fez a barba! Tá faltando botão na camisa!’. Não tô nem aí. Quem quiser, é assim.”

“É muito difícil fazer amizade comigo. Sou pequeno, branco e azedo. Um iogurte’’ Silvio Luiz

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