ANAF : Associação Nacional dos Árbitros de Futebol

Carlos Eugênio Simon

 

16h06 16/01/2006

Para Simon, árbitro brasileiro perdeu a credibilidade

Gaúcho, provável representante brasileiro na Copa da Alemanha, faz pré-temporada na Granja Comary, em Teresópolis.

TERESÓPOLIS - A credibilidade da arbitragem brasileira no exterior foi dizimada após o esquema da manipulação de resultados, em 2005. A análise é de Carlos Eugênio Simon, principal árbitro brasileiro na atualidade e provável representante do país na Copa do Mundo da Alemanha.

Simon: preparação

Para garantir-se no segundo Mundial consecutivo, Simon realiza uma inédita pré-temporada na Granja Comary, quartel-general da CBF. A medida visa ao teste físico da Fifa para a Copa do Mundo, que será realizado no dia 20 de março em Frankfurt.

Na ocasião, árbitros e assistentes serão submetidos a 20 tiros de 150m e devem percorrê-los em, no máximo, 30 segundos para os juízes e 35 segundos para os auxiliares.

"Na simulação está tudo tranqüilo. Acredito que até a data do teste não terei qualquer dificuldade", declarou.

Porém, a ansiedade pela confirmação da participação na Copa não é capaz de apagar a frustração pelo escândalo envolvendo Edílson Pereira de Carvalho. Nas competições internacionais que participou pós-divulgação da fraude, Simon conta que sofreu com o questionamento dos estrangeiros.

"Como o Edílson era da Fifa a repercussão foi muito maior. Fraudes aconteceram em vários países, mas nunca com um árbitro do principal quadro do mundo. Todo mundo quer saber o que aconteceu. A credibilidade lá fora acabou", declarou.

Decepção à parte, o gaúcho de Braga, cidade a 500km de Porto Alegre, está movimentando a pré-temporada do Flamengo com sua disposição. Nem o calor do verão de Teresópolis, cidade na Região Serrana do Rio de Janeiro, impede Carlos Eugênio Simon de carregar a tiracolo a caneca de chimarrão com a bandeira do Rio Grande do Sul.

Logo em seguida, o papo envereda para o churrasco e o desafio para um jogo de futebol. Em ambos, Simon mostra qualidades. "Como árbitro você é um ótimo churrasqueiro", brinca um animado degustador da picanha preparada por Simon.

No futebol, a comemoração estilo "aviãozinho" demonstra uma personalidade menos sisuda do que aquela aparentada durante os jogos. Antes de a entrevista ao Pelé.Net terminar, o árbitro faz um pedido:

"Não esquece de colocar que eu sou casado com a Cátia e tenho quatro filhos: o Ramiro, a Carla, o Caetano e o Tiago. Eles vão gostar".

Pelé.Net - Como surgiu a idéia de realizar essa espécie de pré-temporada na Granja Comary?
Carlos Eugênio Simon: É um trabalho pioneiro no Brasil. Dei a idéia ao presidente [da CBF, Ricardo Teixeira] e ele foi bastante simpático. Liberou a Granja por 15 dias agora e mais 15 dias em março e colocou o preparador Paulo Camelo, da Seleção sub-20, para nos orientar.

Simon está acompanhado de três auxiliares (Ednilson Corona (SP), Aristeu Leonardo Tavares e Altemir Hausmann. Os quatro estão hospedados em um hotel no centro de Teresópolis e vão aos treinamentos no veículo da CBF.

Pelé.Net - Mas como conciliar esses 30 dias de preparação com a vida normal dos árbitros?
Simon: Pois é. Não dá para conciliar. A única solução é a profissionalização. A evolução da arbitragem passa pela dedicação exclusiva. É um absurdo todos os setores do futebol serem profissionalizados e os árbitros continuarem precisando de outras atividades para se sustentar.

Pelé.Net - E você se dedica exclusivamente ao futebol?
Simon: Sim. Sou formado em jornalismo e exerci a profissão até 1997, quando fui para o quadro da Fifa. Depois ainda mantive um programa em um canal do Rio Grande do Sul por uns tempos e escrevi um livro.

Pelé.Net - Qual é a sua rotina entre um jogo e outro?
Simon: Trabalho bastante a parte física. Faço 3h por dia e mais duas horas de estudo. Assisto aos vídeos de todos os jogos que apitei e vejo onde e por que errei.

Pelé.Net - De que maneira o escândalo envolvendo o Edílson Pereira de Carvalho e Paulo Danelon afetou a arbitragem brasileira?
Simon: Aquela manchete "Máfia do Apito" da revista Veja nos arrebentou. Não existe uma máfia e sim dois árbitros que mancharam toda a nossa arbitragem.

Pelé.Net - Mancharam em que sentido?
Simon: Não há mais credibilidade. Eu tenho uma responsabilidade enorme nos torneios internacionais que apito, pois preciso resgatar essa credibilidade. Fui ao Japão para participar do Mundial Interclubes e todo mundo queria saber o que aconteceu aqui. Toda essa situação faz com que eu me empenhe ainda mais para não cometer erros.

Pelé.Net - Você está muito próximo de participar da segunda Copa do Mundo. Arbitrar uma final é uma meta na sua carreira?
Simon: Não. Com aquele timaço do Brasil é impossível torcer contra. Fico arrepiado quando assisto aos jogos. Quero apenas estar entre os melhores e fazer um bom papel. Isso já me deixa orgulhoso, principalmente porque não sou do eixo Rio-São Paulo.

Aos 40 anos, Carlos Eugênio Simon tem a possibilidade de participar da Copa da Alemanha e também do Mundial de 2010, que acontecerá na África do Sul. Segundo o regulamento da Fifa, a carreira internacional de um juiz encerra-se aos 45 anos.

Pelé.Net - Como assim?
Simon: Sou gaúcho e não apenas no futebol, mas também na política e no meio cultural, tudo está muito ligado a Rio e São Paulo. Quando alguém que não é deste meio consegue um destaque, torna-se uma vitória muito grande.

Pelé.Net - As críticas, que são praticamente inevitáveis na carreira de um árbitro, o atrapalham?
Simon: O futebol, por si só, já é um fator polêmico e o lado mais fraco desta força é o árbitro. Aquela frase que conta existir um jogo de campo e outro que passa na televisão é a mais pura verdade.

Pelé.Net - Qual dos erros mais o marcou?
Simon: [pensativo] O pênalti que não dei na Vila no jogo entre Atlético-PR e Santos, pela Libertadores de 2005. Estava mal posicionado e não vi que o ala esquerdo foi derrubado.

No lance, Wendel foi derrubado dentro da área. No fim, o Santos perdeu o jogo por 2 a 0 e acabou eliminado da competição.

Pelé.Net - E a partida que recorda-se com mais nostalgia?
Simon: A minha primeira final de Brasileiro, em 1998, entre Corinthians e Cruzeiro. A final do Mundial Interclubes de 2002, entre Real Madrid e Olímpia também foi marcante.

Pelé.Net - A formação em jornalismo indica uma carreira como comentarista de arbitragem no futuro?
Simom: Ainda não pensei nisso. Desfruto da minha carreira atualmente e deixo o futuro para depois.

Fonte: Eduardo Peixoto, enviado do Pelé.Net

Veja tambem: Este é o perfil do conceituado árbitro da Fifa, que apitou a Copa da Coréia /Japão.


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