ANAF : Associação Nacional dos Árbitros de Futebol

Wagner Tardelli

Árbitro profissional há 21 anos e há oito no quadro da Fifa, Wagner Tardelli encerrará sua carreira no ano que vem, quando completará a idade máxima para a profissão (45 anos). Em entrevista ao site Justicadesportiva, o árbitro, que é dono de uma loja de materiais esportivos, falou sobre as críticas que ele e seus colegas de profissão sofrem, a melhora no nível da arbitragem e seu futuro quando abandonar o apito. Confira!

  Justicadesportiva - Como o senhor decidiu ser árbitro?

Wagner Tardelli - "Eu fazia Educação Física, vi no jornal dizendo que estava aberto o curso e fiz. Queria só dar validade ao meu diploma na Federação, aí protocolei e a minha carreira teve início sem que na verdade eu buscasse isso."

Justicadesportiva - As várias câmeras que estão espalhadas pelo campo e apontam qualquer erro são "inimigas" do árbitro?

Wagner Tardelli - A tecnologia avançou no mundo e não podia deixar de ser no futebol. Mas, quando você está bem no jogo, a televisão ajuda. Quando acontece um lance polêmico e você acerta, a televisão mostra e só valoriza o seu trabalho. É a ordem natural de evolução de tudo, a tecnologia

Tardelli (com a camisa do Brasil) e Seneme durante testes físico

está evoluindo em todos os meios e não poderia ser diferente no futebol."

Justicadesportiva - O senhor acredita em "árbitro caseiro", ou isso é mito?

Wagner Tardelli - "Na verdade isso foi matéria de estudo. Não sei se foi tese de doutorado de uma brasileira. Ela diz que a maioria dos árbitros, 90% deles, são caseiros. Embora ela declare isso em seu estudo, isso não é verdadeiro. Normalmente, quando um time joga fora de casa, teoricamente para ele o empate é um resultado satisfatório. O empate tem sabor de vitória. Em conseqüência disso, esse time vem mais para defender do que para atacar. Sendo assim, o time da casa tem maior posse de bola e o visitante tem de tentar tirar, roubar essa bola. Então, a tendência de cometer faltas e receber cartões desse time é maior. Na verdade, o que torna o resultado caseiro e até favorece o time da casa, é o próprio adversário, que não sai para o jogo, vai para defender. Logicamente se você só defende a possibilidade de conseguir o gol é menor do que aquele que ataca. Dá para fazer a análise de qualquer jogo. Não é porque o árbitro é caseiro, o jogo se faz caseiro em função da procura maior daquele time que visita de querer levar um empate para casa como vitória."

Justicadesportiva - Muitos especialistas dizem que o nível da arbitragem no Brasil é ruim. O que o senhor acha disso?

Wagner Tardelli - "Acho que pelo nível do futebol disputado hoje é muito melhor do que antigamente. Vários árbitros que apitavam anos atrás e hoje em dia até comentam, eram obesos. Atualmente, o árbitro faz treinamento de atleta. Se você acompanhar o nosso teste físico da CBF e da Fifa, você vai ver que foi planejado para atleta e não para árbitro. Hoje nós temos um jogo muito mais disputado, muito mais corrido, a diferença que se dá de antigamente. O próprio Gerson diz que caminhava e a gente vê jogos da Seleção em que ele caminhava, tocava a bola três, quatro vezes pensando no que ia fazer. Hoje, o jogador de meio-de-campo não tem tempo para isso. Antes de dominar a bola já tem um adversário em cima dele. Tudo ficou mais dinâmico. Então essa comparação dizendo que hoje o nível da arbitragem é ruim está errada. Pelo contrário, acho que a arbitragem hoje pelo nível que tem o futebol é muito boa."

Justicadesportiva - O que o senhor acha que tem de ser feito para melhorar?

Wagner Tardelli - "A CBF trabalha para isso e a Fifa também. Agora, por exemplo, no dia 24 de junho, nós vamos nos reunir na Granja (Comary) e ficaremos por quatro dias. Para debater, padronizar atitude, rever lances. Tudo para que o árbitro erre menos ou para que acerte mais do que erra é dado pelas entidades. Porém, tem jogos em que não encaixa para o árbitro. A mesma coisa acontece com o jogador, com o treinador. Isso não quer dizer que o árbitro seja fraco, todos trabalham para acertar."

Justicadesportiva - Quem é o melhor do árbitro do Brasil?

Wagner Tardelli - "Acho que pelos árbitros-Fifa, que com certeza são referência, todos os dez que têm aí podem representar o Brasil em qualquer mundial. O que muda é a idade. Se aquele árbitro vai estar apto a fazer um Mundial ou uma Olimpíada com a idade que tem. Ou se ele já passou por um mundial de categoria de base, sub-17, sub-20, sub-15 para poder ficar qualificado para a Fifa. Tirando isso, todos os internacionais estão no mesmo nível."

Justicadesportiva - E no mundo? Tem ou teve um melhor?

Wagner Tardelli - "O italiano Pierluigi Colina, que já parou, foi uma referência, embora errasse também. Com certeza foi um dos melhores e ficará marcado por tudo que fez pela arbitragem, pelos Mundiais que participou. No momento, todos estão do mesmo nível. Hoje já temos árbitros de outros países que não tinham muita expressão apitando também. A nível sul-americano, principalmente, é bem nivelado."

Justicadesportiva - Alguma vez após um jogo o senhor foi para casa e viu pela televisão que errou? Como é isso?

Wagner Tardelli - "Sim, claro. Você tem que buscar o porquê do erro. Se foi posicionamento, se teve algum jogador atrapalhando. Mas tem muitas vezes que você sabe que fez uma arbitragem ruim e nas resenhas esportivas você é super elogiado. Tem jogos que o árbitro sai consciente que foi muito bem e conseguem ver 40 pênaltis. Com a imprensa, com raríssimas exceções, a gente não leva muito em consideração. Porque, na maioria das vezes, eles não conhecem a arbitragem, não convivem lá. É a mesma coisa que eu fazer a análise de um repórter de um determinado programa esportivo, eu não me preparei para isso. Se eu tivesse me preparado, aí sim eu poderia debater. Alguns querem comentar a arbitragem, mas na maioria das vezes não conhecem. Seria necessário que fizessem um curso, ou um estágio com a Comissão de Arbitragem para saber como é o dia-a-dia do árbitro, o pré-jogo. Mas não fazem, então comentar assim é muito fácil."

Justicadesportiva - Qual foi o jogo mais importante que o senhor apitou?

Wagner Tardelli - "Foram vários importantes. Eu fiz quando fui lançado na Sul-Americana, quando fui lançado aqui no rio. Teve um clássico em 1994 entre Vasco e Botafogo, semifinal de Taça Guanabara. Em 1999 a final da Taça Guanabara. Apitei o último amistoso da Seleção Brasileira e depois nenhum árbitro mais do país seguiu podendo fazer, só de outros países. Em uma carreira com 22 anos, não daria para citar só um. Têm os jogos de maior importância, tem aquele jogo difícil, onde você tem uma grande dificuldade, jogos que já vêm com problemas, são vários. Tenho uma carreira com 22 anos e já passei por bons e maus momentos."

Justicadesportiva - O senhor fará 44 anos neste ano e a idade máxima para apitar é 45. Já pensou no que vai fazer depois?

Wagner Tardelli - Ainda tenho essa temporada, o Estadual do ano que vem e o Brasileiro, aí vou encerrar a carreira. Já tenho a minha loja de materiais esportivos, que é uma realidade. Isso é para mim, para os meus filhos e minha família. Mas pode ser que eu venha a comentar também. Tenho um projeto e talvez entre como comentarista. A diferença é que eu tenho dois cursos de jornalismo esportivo. Há três anos atrás eu me preparei para poder ter embasamento para comentar, dominar um pouco a palavra, para me fazer entender. Quando você passa informação é importante. Diferentemente de outros que saíram do campo e foram para a televisão ou para o rádio, eu fiz o contrário. Me preparei para quando tiver essa oportunidade, e vou ter. Inclusive, já andei conversando com alguns profissionais dessa área. É questão de ter tempo de parar, sentar, conversar e partir para uma nova carreira."

Justicadesportiva - Como é a sensação de já entrar em campo sendo vaiado pela torcida?

Wagner Tardelli - "Faz parte do folclore. O árbitro não liga para isso, dentro do campo ele está olhando para o jogo. Um árbitro com 20, 25, 15 anos de profissão, sem faltar com respeito, mas ele não tá nem ligado com a torcida, nem olha. É natural, não olha mesmo, você fica ligado com o jogo ali, até porque indo bem nesse jogo vai te dar a possibilidade de trabalhar na próxima, apesar de ser sorteio."

Justicadesportiva - O senhor acha que o sorteio é uma boa?

Wagner Tardelli - "Na verdade é uma lei, está no estatuto do torcedor. Eu acho interessante porque, mesmo sendo sorteio, se a Comissão entender e quiser trabalhar com um determinado grupo de árbitros, ela coloca no jogo A, Coluna um, por exemplo, uma série de árbitros e na Coluna 2 em outro jogo a série de árbitros. Se eu vou para o jogo A na Coluna um, posso ir para o sorteio do jogo B na Coluna 2 e, de qualquer forma, vou sair, pois o sorteio é por coluna."

Justicadesportiva - O senhor achou correta a punição aplicada ao Wilson Seneme após o jogo dos Aflitos?

Wagner Tardelli - "Eu fui ao julgamento. O Tribunal julga por fatos que têm, pela denúncia e cabe ao árbitro e a seu advogado fazerem a defesa. Eu estive, inclusive, sendo julgado nesses dois artigos do Seneme há um mês atrás. Fui feliz na minha defesa, o advogado foi feliz e os fatos levaram para que o Tribunal me absolvesse. Acompanhei o julgamento todo, desde 18h30 até quase 23h30. Não houve qualquer intenção de punir jogador, clube e árbitro como exemplo ou bodes expiatórios. Todos tiveram o direito de se defender. Acho que o Tribunal o puniu porque não se convenceu com a sua defesa. Como cabe recurso, com certeza ele deve recorrer. Isso acontece até com os jogadores e treinadores. Ele é um bom árbitro."

Justicadesportiva - Todo mundo que gosta de futebol tem um time. Como o senhor faz quando tem que apitar os jogos do seu? Tem como deixar de lado?

Wagner Tardelli - "Eu sou América (risos). É brincadeira, o América é o time que todo mundo gosta. É melhor que as pessoas não saibam o time que o árbitro torce para não criar polêmica. O torcedor não imagina que ele tenha acertado ou errado porque torce por aquele time. Assim, é melhor que todos os árbitros torçam para o América, pois todos gostam desse clube. Assim, não se cria polêmica e a torcida do América vai crescendo. Todo mundo que trabalha no meio de esporte tem uma adoração por algum clube, porque se não tivesse não iria buscar uma carreira dessas. O jogador, o jornalista, todos têm. A gente não pode confundir, misturar e não é feito isso. Se um profissional não conseguir deixar de lado a paixão pelo clube, está na profissão errada. Tem de parar e ser diretor de futebol do clube que ele ama, ou treinador e por aí vai."

Justicadesportiva - O que você acha do site Justicadesportiva?

Wagner Tardelli - "Eu acho interessante. Estive lá no Tribunal e tomei conhecimento do site. Se você tem informação para passar, correta e íntegra e dentro do meio da Justiça Desportiva é interessante. É mais um veículo de comunicação. Se não tinha, agora tem e que seja permitido que continue. Porque a informação sendo dada é benefício para todos. É mais um site de consulta, inclusive. Isso é interessante."

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Fonte: justicadesportiva.com.br


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