
Edson Rezende, fala sobre o seu trabalho antes de deixar a CA-CBF
Rio de Janeiro - 08/2007

Abaixo transcrevemos uma entrevista com o Dr. Edson Rezende de Oliveira, sobre o seu trabalho antes de deixar a CA-CBF.
1 - Um ano depois da nossa entrevista, o que mudou na arbitragem brasileira?
R - Um anos após nossa entrevista, no início de 2006, tenho certeza que a arbitragem mudou muito e para melhor, ela está sempre mudando e aperfeiçoando, não pelo fato de termos assumido, mas é uma arbitragem que sempre teve seu valor mas pouco reconhecida. Critica-se muito, e alguns julgo que criticam para tentar sempre desmoralizar os componentes de nossa arbitragem, colocá-la sempre na defensiva e, infelizmente, ela ainda é muito pouco defendida.
2 - O que precisa melhorar no Brasil: A formação dos árbitros ou a reciclagem?
R - No Brasil, precisa melhorar tanto a formação quanto a reciclagem ou aperfeiçoamento da arbitragem. Ela é boa, mas deve-se muito aos seus componentes, que se condicionam, geralmente, por conta própria. Ainda estamos longe do ideal na formação dos árbitros, embora tenhamos melhorado e algumas Federações já possuem Escolas de Arbitragem que têm funcionado muito bem e com programas e currículos ideais, a exemplo da Federação Paulista de Futebol. Esperamos ter um currículo padrão a nível de Brasil com carga horária mínima nos cursos de formação para árbitros, pois víamos alguns funcionando em um final de semana apenas, emitindo, irresponsavelmente, diplomas de formação para árbitros. Quanto a reciclagem, as Federações Estaduais têm um papel importante neste particular e têm mais facilidades para estarem sempre promovendo treinamentos em todos os níveis com seus árbitros, pois está convivendo com eles bem próximo, presencialmente, podendo a cada semana ou mês desenvolver treinamentos específicos, testes, seminários, sem necessidade de grandes deslocamentos e despesas.
3 - Quais ao avanços no setor implementados em sua gestão?
R - Procuramos incentivar as próprias Federações e Entidades representativas de classe a se engajarem, principalmente no desenvolvimento de aperfeiçoamento sobre todos os aspectos, para os componentes da arbitragem brasileira, seja a nível de CBF ou de cada Federação. Temos procurado aperfeiçoar, primeiramente, um bom grupo de instrutores, pois através deles pode-se ter bons ensinamentos, melhores treinamentos e resultados esperados. Esperamos poder realizar um curso para formação de instrutores de arbitragem ministrado pela FIFA ainda neste ano de 200, para ampliar nossa relação de instrutores, precisamos mais e em todas as cinco regiões do país, para estarem mais presentes nas Federações com seus árbitros, com mais freqüência, para poderem atender desde os cursos de formação até os treinamentos que devem ser promovidos nos Estados mais vezes.
4 - As reuniões regionais surtiram efeito?
R - Os Encontros Regionais realizados nas cinco regiões do país, as palestras dos instrutores FIFAS promovidas em todos os 27 Estados, os cursos de aperfeiçoamento realizados na Granja do Comary para especialização de árbitros e assistentes abrangendo, também, profissionais de todas as Federações além das costumeiras palestras via EMBRATEL, a Certificação dos árbitros através da FGV, surtem os efeitos esperados, pois o árbitro quer ser lembrado, quer ver alguém promovendo atividades direcionadas ao mesmo, é psicológico e surte efeitos muito positivos, dando a cada profissional a sensação de valorização e, ao mesmo tempo, obrigação de retribuir o que se está fazendo em seu benefício e de sua classe. Não tem como dar errado, é colheita certa de bons resultados, mesmo que sejam a médio e longo prazos.
5 - Os árbitros têm literatura para estudar? Se não, o que a CBF está fazendo para suprir esta deficiência?
R - Somos muito carentes de material de leitura, consulta, estudo, pesquisa etc. Sempre foi assim, pouco ou quase nada, se escreve a respeito do árbitro ou da arbitragem, só cobram e criticam. Estamos tentando, mesmo com publicações simples, dar algo mais aos árbitros para suprir um pouco esta lacuna, a exemplo do livro atualizado “Sinais de Trânsito do Árbitro de Futebol”, “Manual de preenchimento de súmulas e relatórios”, “Manual de Orientação aos Observadores”,“Código de Ética do Árbitro de Futebol” que já estarão nas mãos de todos os árbitros e Observadores neste primeiro semestre, e “Mil e uma perguntas e respostas sobre regras de futebol” para o segundo semestre, esperando que possam ler, tirar proveito dos mesmos e dar sugestões para que as próximas publicações, que ocorrerão a cada ano, possam sempre ser aperfeiçoadas, é necessário que participem para melhorar sempre mais este material, temos certeza que muitos têm boas idéias que podem auxiliar a todos nas suas atividades, é só compartilhar o seu potencial com a classe.
6 - Entra e sai ano, os treinadores reclamam dos árbitros. É um exagero, eles tem razão ou faz parte da cultura do futebol?
R - Há um exagero muito grande de certos treinadores nas reclamações com a arbitragem. Alguns, cinicamente, procuram sempre transferir para a arbitragem a responsabilidade de insucessos de suas equipes e de seu trabalho, procurando desviar suas deficiências, para atuações da arbitragem, se pegando, às vezes, em pequenos detalhes ou equívocos dos árbitros para justificarem derrotas, más campanhas, pressão de torcedores, críticas de dirigentes e imprensa. Às vezes os árbitros são responsáveis pelo sucesso deste tipo de treinador, pois toleram todo tipo de agressão e desrespeito dos mesmos às beiras dos campos, com atitudes omissas e passivas, ao invés de tomar as providências que se fazem necessárias, levá-los sempre aos tribunais até se corrigirem ou abandonar a profissão. Às vezes nós somos culpados pela sobrevivência destas pessoas no meio do futebol, que não acrescentam nada e imaginam estar vivendo no século XVIII, não evoluem, não acompanham a realidade atual se expondo ao ridículo e comprometendo o trabalho da arbitragem.
7 - Pode-se afirmar que o “Escândalo do Apito” não voltará a assustar o esporte mais popular do Brasil?
R - O escândalo do apito marcou sensivelmente a arbitragem brasileira, mas já estamos nos desvencilhando de suas seqüelas, e é só com muito trabalho, muita seriedade, muita cobrança no bom sentido é que poderemos sepultar de vez o triste episódio que nos perseguiu nos últimos três meses de 2005 e por boa parte do ano de 2006, e ainda, às vezes, aparece de alguma forma, por interesses alheios aos nossos e de quem quer seriedade no nosso futebol. Estamos tomando providências para tornar mais difícil acontecimentos como aquele, procurando prevenir de todas as maneiras possíveis para dificultar, ou impedir, que tais episódios venham se fazer presente no meio de nossa arbitragem. Cada árbitro é responsável para colaborar neste sentido e os Observadores de Arbitragem têm papel preponderante nesta cruzada e não permitir que o joio possa crescer junto ao trigo.
8 - Qual a principal deficiência da arbitragem? (árbitro ou assistente)
R - Julgo que a principal deficiência que um profissional da arbitragem pode ter é o desleixo com suas atividades, desprezo para o preparo de qualquer natureza, físico, teórico, prático, é a acomodação, quem não progride só tende a regredir. Outra crucial deficiência é a política que às vezes o árbitro se envolve, perde sua qualidade e identidade para querer agradar pessoas, clubes, entidades desportivas e às vezes ele não nota que querendo agradar um está desagradando a todos e até a si mesmo. O árbitro deve ter em mente que sua importância e reconhecimento se dá em razão de seu bom preparo, conhecimento das regras, inteligência e coragem para aplicá-las.
9 - Como é feita a avaliação dos árbitros? O documento de avaliação pode ser divulgado?
R - É um trabalho que tem seu início nas Comissões de Arbitragem dos Estados, com uma atividade que deve ser séria de seus componentes, no apoio com indicações de seus árbitros que merecem ser “trabalhados” a nível nacional, da atuação isenta e séria dos Observadores de Arbitragem que estão em atividade em todo o Brasil, os quais emitem seus relatórios sobre as atuações dos árbitros em todos os jogos de competições coordenadas pela CBF, estes relatórios são reservados e de acesso aos interessados que são os próprios árbitros e Comissão de Arbitragem da CBF, além de observações constantes pelos componentes da mesma Comissão.
É a mesma pergunta que cada um faz ao treinador da seleção brasileira. Qual o critério para um jogador ser convocado? É qualidade em todos os sentidos, bom desempenho de suas atividades, seriedade e respeito à sua própria profissão , aos seus companheiros e dirigentes, busca de uma melhora constante no desempenho de suas tarefas. Existem milhares de jogadores brasileiros, só alguns são escolhidos para pertencer à seleção brasileira, com algumas mudanças de vez em quando, dependendo, também da fase que o jogador está passando. Com o árbitro não é muito diferente, existem milhares, só algumas centenas fazem parte do quadro da CBF e uma dezena da FIFA por seu país, são os que, pelo menos na opinião dos que têm a difícil missão de dirigir os destinos da arbitragem, seja a nível estadual, nacional ou internacional, estão em melhor fase e preenchem os requisitos desejados por todos que vivem e acompanham o futebol na sua plenitude. Só podemos afirmar que não tem uma fórmula mágica, não é teoria pura para estas decisões e escolhas.
10 - Qual seria a seleção (de 1 a 11) atual do apito?
R - Eu não gostaria de escalar uma seleção de um a onze entre os árbitros, pois temos muito mais em ótimos níveis que podem fazer parte de uma seleção de 11. Já basta termos a ingrata missão de estar sempre selecionando para sorteios de jogos.
11 - Como é vossa relação com o Presidente da CBF?
R - É a melhor que se possa imaginar. Temos todo apoio possível para realizarmos nosso trabalho. Já trabalhei em vários órgãos públicos e empresas privadas, e posso afirmar que a CBF é um dos melhores ambientes que já encontrei, seja a nível de dirigentes quanto de funcionários, é mais uma família que empregados e patrões. A nível de arbitragem temos total autonomia para trabalhar, não há a menor interferência, principalmente nas designações de árbitros para os mais diversos sorteios, dos mais de mil jogos que são realizados pelas competições coordenadas pela entidade a cada ano, a Comissão de Árbitros trabalha muito à vontade. É claro que é uma liberdade com responsabilidade.
12 - O Jornal do Apito é um informativo do SAFESP e, claro, os árbitros paulistas têm reclamado de, em 2006, ter ocorrido uma redução no número de escalas em relação aos anos anteriores. Tem algo a ver com o Escândalo que envolveu dois árbitros paulistas?
R - Temos que trabalhar com uma visão macro. Alguns analisam a arbitragem brasileira priorizando o seu Estado, estão certos, mas nós não podemos agir assim, temos que ter em mente, sempre, que nosso trabalho é voltado para 27 Federações. É óbvio que não podemos analisar todas as Federações da mesma maneira, pois algumas primam pela formação e especialização de seus árbitros, com excelentes escolas e instrutores, com investimentos constantes em benefício da arbitragem de seu Estado e o retorno é visto a olhos nus, com aparecimento de jovens e bons árbitros. Entretanto não podemos ignorar as demais que estão filiadas à CBF, pois em todas têm bons profissionais, em maior ou menor número, mas necessitam, também, de incentivos e reconhecimentos na sua profissão, mesmo que seja em freqüências diferenciadas, que é o lógico. Pode fazer uma estatística que sempre demonstra que onde está um melhor futebol, melhor estrutura de Federação, mais investimento na arbitragem pelo Estado aí está o maior número de árbitros atuando e correspondendo nas competições coordenadas pela CBF.
12 - Como está constituída a comissão nacional? Fale um pouco dos seus membros e como eles foram escolhidos?
R - A atual Comissão de Árbitros da CBF está constituída, além da Presidência, por mais quatro componentes, com os quais temos muito orgulho em trabalhar e dividir a responsabilidade de dirigir os destinos da arbitragem brasileira. Um que reside na Bahia, MANOEL SERAPIÃO FILHO, outro no Rio Grande do Sul, LUIS CUNHA MARTINS, um em São Paulo SERGIO CORRÊA DA SILVA e outro no Rio de Janeiro PAULO JORGE ALVES, todos ex-profissionais de arbitragem, com conhecimentos práticos do dia-a-dia de exigências e cobranças de todos que abraçam esta atividade. Foram escolhidos, assim como existem vários outros que poderiam estar neste grupo, face a seriedade e dedicação com que sempre demonstraram durante toda sua vida profissional, tanto na atividade de arbitragem quanto na vida privada em família, na sociedade, nos locais por onde trabalharam. Dedicam seu trabalho pela arbitragem brasileira por amor à mesma, sem qualquer compensação financeira, por isso acho que merecem sempre muito respeito, apoio e consideração por todos que convivem, não só com a arbitragem, mas com o futebol brasileiro. Aqui gostaria de mencionar, também, o apoio dos Instrutores brasileiros da FIFA, ANTONIO PEREIRA DA SILVA e JORGE PAULO OLIVEIRA GOMES, que estão constantemente atendendo nosso chamado para os mais diversos eventos de ensino/aprendizagem que a CBF tem desenvolvido ininterruptamente, voltados para a arbitragem brasileira, trazendo para nossos árbitros os mais recentes ensinamentos repassados pela FIFA.
Fonte: Entrevista* dada ao jornal do apito do Sindicato dos Árbitros de Futebol do Estado de São Paulo
* A edição do Jornal do Apito com a entrevista do Sr. Edson Rezende, ainda não foi publicado.
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