O que levou você a escolher ser árbitro de futebol?
Eu sempre gostei de futebol, desde criança sempre estive
envolvido com o esporte no campo de Nova Descoberta, bairro onde moro até
hoje. Antes eu jogava, mas como era um goleiro ruim, aos poucos fui me
arriscando a apitar algumas partidas, a coisa foi dando certo e me
direcionei mesmo para área, quando fui convidado para entrar no quadro de
árbitros da Liga Esportiva do bairro.
O passo a seguir foi buscar o curso de
formação?
Não. Antes eu passei pelo Exército, servi no 16º Batalhão de Infantaria
como sargento temporário. Lá costumava arbitrar as partidas dos jogos
internos. Só resolvi fazer o curso de preparação de árbitro em 1990,
quando dei baixa das Forças Armadas. Isso foi em 1990.
Quem comandava a arbitragem
estadual na época?
Era o falecido Jader Barbalho. Lembro que os meus instrutores de curso
foram Wilson da Conceição e Antônio de Pádua Siqueira.
Você possui algumas profissão para
ir tocando a vida junto com a arbitragem?
Não. Faz algum tempo que consigo viver apenas com que arrecado no futebol.
Mas se a pessoas não for um profissional liberal fica difícil a pessoa
aliar as duas coisas, ainda mais se for árbitro da Fifa.
Porque é difícil, não existe uma
recomendação para o árbitro possuir um emprego fixo?
É melhor que tenha, mas não é obrigatório. Mas fica ruim aliar as
duas coisas porque numa partida que você vai fazer fora do seu estado de
origem, dependendo da distância, a pessoa é obrigada a se ausentar do
emprego por pelo menos três dias. Assim não há patrão que ature perder um
funcionário por tanto tempo. A não ser que seja uma pessoa muito
compreensiva mesmo.
Hoje você atua como auxiliar de
arbitragem, mas já chegou a ter alguma experiência como árbitro central?
Já sim, participei de muitas partidas como árbitro central.
Lembro que a minha estréia como juiz principal ocorreu em 1992, no dia 4
de outubro e foi logo apitando um ABC e América.
Logo na estréia colocaram um osso
desse?
Foi, tenho para mim que este serviu também como meu grande teste de fogo.
Ali Jader Corrêa deve ter me escalado para saber se eu dava ou não para o
ofício.
Então este possivelmente seria o
jogo mais complicado da sua carreira?
Foi sim. Todos sabem que é complicado dirigir um clássico entre ABC e
América. O jogo acabou 2 a 2, eu ainda expulsei um jogador de cada time:
os zagueiros Vagner (ABC) e Carlos Mota (América) que andaram trocando
tapas. Mas no fim a critica acabou sendo boa, os cronistas não apontaram
falhas na arbitragem.
E como se deu essa transição, a
partir de que ponto na carreira você optou em trabalhar apenas como
auxiliar?
Em 1992, a Fifa decidiu criar um quadro de assistentes especializado. Em
93 a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) decidiu criar seu quadro de
assistentes e pediu para que as federações estaduais indicassem cada uma
um membro para realizar o curso de especialização na Granja Comary. Dessa
turma ficaram apenas sete. Eu fui o indicado do Rio Grande do Norte para
realizar o curso e em 95 fui convocado para compor o grupo de dez membros
que a CBF colocou a disposição da Fifa.
Isso provocou uma mudança muito
grande na sua carreira?
Mudou um bocado. Antes mesmo de concluir o curso que estava realizando no
Rio de Janeiro comecei a ser escalado para trabalhar em partidas da
primeira divisão. Lembro que nós saíamos da Granja Comary para participar
dos jogos.
E qual foi o primeiro jogo que
participou ocupando a nova função de auxiliar Fifa, ou seja, depois de
formado?
O primeiro jogo que participei como assistente Fifa foi também em 1995, um
amistoso que a Seleção Brasileira realizou contra a Eslováquia, em
Fortaleza. Já faz um tempinho, mas se não me engano o Brasil venceu por 1
a 0 com um gol de Túlio. Tomara que a memória não me falhe! Mas se estiver
errado alguém vai me corrigir.
Teve uma partida da Seleção
Brasileira que você teve uma participação muito comentada, pelo fato de
ter anulado um gol brasileiro, não foi?
Foi numa partida do Brasil contra a Holanda, o lance ocorreu do
lado oposto ao meu, mas percebi quando Amoroso ajeitou a bola com o braço
antes de fazer o gol. O juiz e o auxiliar que estavam encobertos não
viram, mas eu alertei para irregularidade do lance e foi atendido. Na
ocasião tive de entrar em campo para alertar o árbitro central.
Foi muito xingado por causa disso?
Por incrível que pareça não, só o Luxemburgo que era o treinador
na época deu declarações lamentando o fato de um bandeirinha sair do
Nordeste para anular um gol do Brasil em Goiânia. Mas a televisão mostrou
que eu estava correto. Os jogadores brasileiros também não reclamaram,
pois sabiam que o lance havia sido ilegal.
Tomando como base essas declarações
de Luxemburgo, você sofreu muita discriminação dentro do futebol?
Absolutamente. No meio da arbitragem não nada do que reclamar,
sempre me dei muito bem com os meus companheiros e eles sempre elogiaram o
meu trabalho. O presidente da Comissão Nacional de Arbitragem, Sérgio
Corrêa, tem me valorizado bastante e a prova disso é que fui o assistente
que mais trabalhou na Copa do Brasil. Participei de sete jogos, inclusive,
das duas finais.
Esse ano você completa 45 anos e
será obrigado a se desligar do quadro nacional e da Fifa, o prestígio pelo
visto continua em alta, não?
Realmente não tenho do que reclamar, anos passado participei de
26 jogos incluindo as séries A, B, C e a Copa do Brasil, e por ter sido um
dos três árbitros mais atuantes do país fui homenageado em maio último
pela Associação Nacional de Árbitros de Futebol com o Apito de Ouro. O
prêmio foi instituído esse ano e me senti muito honrado em fazer parte da
turma dos primeiros homenageados.
Anteriormente tratamos sobre o tema
da discriminação, mas aquele episódio envolvendo Edmundo e o árbitro
cearense Dacildo Mourão, em Natal, quando o jogador falou aquela bobageira
sobre “paraíba”, não foi uma discriminação?
Aquele foi, mas é um caso isolado. Os jogadores não são muito de
discriminar ninguém, comigo sempre houve muito respeito. Graças a Deus nos
meus 17 anos e trabalho no futebol nunca tive problemas com ninguém, só um
ou outra reclamação sobre um lance, mas isso é normal.
O Caso Edilson na sua opinião
maculou a imagem da arbitragem nacional?
Não. Este foi outro caso isolado, atingiu apenas a moral do
envolvido no escândalo. O Paulo Danelon que chegou a ser citado no
inquérito não teve nada provado contra ele. Ou seja o Edilson só fez mal a
ele próprio. Depois acabou sobrando para o Armando Marques, que perdeu o
cargo de presidente da Comissão de Arbitragem. Mas acho que isso serviu
para dar uma resposta a sociedade, que cobrava a moralização do setor.
Já tentaram te comprar alguma vez?
Graças a Deus isso nunca ocorreu comigo, jamais tocaram nesse
assunto perto de mim e nunca cheguei a escutar qualquer menção de proposta
indecente.
E seus amigos de apito já chegaram
a reclamar disso alguma vez?
Profissionalmente ninguém nunca comentou nada comigo. Sequer ouvi falar
sobre alguma tentativa de suborno.
Como analisaria o nível de
arbitragem local, estou falando do RN?
Posso dizer que a arbitragem do Rio Grande do Norte é uma das
melhores do país. Se regionalizar me arrisco a dizer que somos a melhor.
Nos testes de regra aplicados pela CBF ficamos em sexto lugar, nunca
tivemos um representante reprovado nos testes físicos e na parte prática
não se ouve por ai qualquer tipo de contestação sobre a arbitragem de um
potiguar. Ninguém sequer foi suspenso pela Comissão de Arbitragem.
Você é o árbitro potiguar com maior
participação em jogos nacionais e internacionais. Existe algum pessoal
arquivo para comprovar isso?
Infelizmente não, eu possuía todas essas anotações mas acabei perdendo.
Minha sobrinha brincando com isqueiro lá em casa, acabou ateando fogo em
meu guarda-roupas, tudo que eu tinha: uniformes, anotações, roupas, tênis
e sapatos; foi perdido. Para fazer isso agora serei obrigado a recorrer
aos arquivos dos jornais, além de um trabalhão deve custar muito caro. É
uma pena!
Como auxiliar da Fifa já participou
de muitos jogos fora do Brasil?
Já sim, acho que na América do Sul, no caso no eixo do futebol,
trabalhei em todos os países. Inclusive quando ocorreu o problema do
incêndio no meu guarda-roupas foi justamente na véspera de uma viagem para
Argentina. Dá para imaginar o sufoco que passei tentando arranjar os
uniformes de trabalho, não dá?
E como foi apitar na Argentina, já
chegou a participar de algum jogo na temida La Bombonera?
Já trabalhei em cinco partidas lá, dois jogos da seleção
argentina e três válidos pela Libertadores. Dentre os quais um foi uma
partida do Boca no La Bombonera. A arbitragem brasileira foi muito bem
tratada no estádio, tanto na chegada quanto na saída. Não tivemos qualquer
tipo de problema nas vezes que estivemos por lá. Achei tão legal que
espero ter a oportunidade de ir mais vezes. Até dezembro quando vou
deixar o quadro nacional e o da Fifa ainda terão partidas pelas
Eliminatórias da Copa e também pela Copa Sul-americana.
Dizem que os árbitros brasileiros
são diferentes dos demais. Existe mesmo isso?
Os comentaristas dizem que nós marcamos muitas faltas, mas quando
não marcamos eles reclamam que estamos deixando o jogo correr demais e nos
acusam de não coibir a violência. Mas a diferença que eles dizem existir
ocorre pelo fato do jogador brasileiro ser muito habilidoso e predisposto
ao drible. Em qualquer outro lugar do mundo, frente a marcação de um
adversário o atleta procura tocar a bola para tentar escapar do assédio. O
brasileiro não, ele parte para cima do marcador para tentar o drible e
acaba provocando um jogo de muito contato físico. Vem daí a explicação
para o imenso número de faltas.
Então podemos concluir que é mais
difícil se apitar no Brasil?
Certamente que sim, um árbitro que apita um Campeonato Brasileiro
tem muita dificuldade, é difícil. Na Europa a característica da partida é
de troca de passes, aqui os jogadores preferem encarar a marcação, além
disso ainda existe a malandragem dos atletas. Por isso considero o árbitro
brasileiro o melhor do mundo. Anos atrás tentaram trazer árbitros de fora
para apitar jogos do Campeonato Paulista e a experiência não foi das
melhores. Veja se a Federação Paulista não desistiu logo da idéia.
Então o que estaria havendo para
haver esse reconhecimento, como existe em relação ao futebol?
Na minha opinião falta a profissionalização da categoria. Um
árbitro brasileiro, diferente de um europeu, entra em campo hoje
preocupado com um série de problemas. Quer dizer da forma como as coisas
estão é difícil mantê-lo concentrado apenas no jogo, muitas vezes até por
problema no emprego. Quando profissionalizarem a categoria acredito que o
nível de arbitragem vai subir e melhorar bastante.
Fonte: Vicente
Estevam - Tribuna do Norte
|