
ESTUDO DIZ QUE CÉREBRO LIMITA VISÃO E ENGANA BANDEIRINHAS
08/2007 -
Reinaldo José Lopes*
Muita gente adora despejar impropérios sobre os bandeirinhas num jogo de
futebol, especialmente quando um suposto gol legal do time do coração é anulado,
mas pesquisadores chineses e americanos acabam de descobrir que as mancadas dos
auxiliares podem ser o resultado de uma fraqueza que todo mundo tem. Segundo
eles, a visão humana apanha um bocado para captar o movimento de dois ou mais
objetos ao mesmo tempo - assim como mais de uma cor ou orientação espacial
simultaneamente. Em resumo, a impressão que temos de visualizar uma cena
complexa por inteiro é só coisa da nossa cabeça.
O trabalho intrigante está na edição desta semana da revista científica
"Science" e é assinado
por Liqiang Huang, da Universidade de Hong Kong, Anne Treisman, da Universidade
Princeton, e Harold Pashler, da Universidade da Califórnia, em San Diego. O trio
estuda a hipótese de que a percepção visual humana funciona com base num sistema
de nome complicado, o mapa rotulado booleano (batizado em homenagem ao
matemático britânico George Boole, que viveu no século 19).
A idéia básica por trás do nome enrolado é a de que a visão funciona percebendo
só uma característica por vez em cada ponto do espaço. Para cada local, só daria
para perceber conscientemente uma cor (verde, por exemplo) e movimento (para a
direita, digamos) por vez. Na hora de processar a informação de uma cena
complicada, o cérebro teria de fazer uma escolha: poderia captar, ao mesmo
tempo, dois objetos em movimento e suas posições, mas não conseguiria captar com
a mesma clareza as cores deles, ou a direção e velocidade de seu deslocamento.
Investigar as limitações da percepção humana não é exatamente novidade. Outros
trabalhos mostram há tempos que, mesmo em contextos bem mais simples que um jogo
de futebol, a capacidade de perceber uma imagem depende muito das porções da
imagem nas quais as pessoas estão depositando sua atenção consciente.
Num experimento famoso, por exemplo, um grupo de pessoas era colocado para
assistir um jogo de basquete. De repente, alguém fantasiado de gorila aparecia
no meio do jogo. Depois, os experimentadores perguntavam aos participantes se
eles tinham visto o macacão e boa parte deles simplesmente deixou esse "detalhe"
passar.
Cores e momentos O que o trio de pesquisadores fez foi usar testes muito
simples para saber como as pessoas lidavam com duas variáveis - localização
espacial e cor - ao longo do tempo ou simultaneamente. Numa das versões do
teste, por exemplo apareciam numa tela de computador dois quadradinhos de cores
diferentes, em locais diferentes, ao mesmo tempo. Numa outra, primeiro o
quadradinho de uma cor, numa posição, depois o da outra cor, em outra.
Os resultados foram intrigantes. Enquanto os voluntários tinham mais ou menos a
mesma taxa de sucesso no teste simultâneo ou no teste sucessivo quando a
variável estudada era a localização (cerca de 75% em cada caso), eles não tinham
visão tão boa da situação nos testes simultâneos de cor (60% de taxa de
sucesso).
Mal comparando, é como se o bandeirinha conseguisse ver com certa facilidade as
posições tanto do lançador quanto do atacante, mas sofresse mais para ver que a
camisa deles é a mesma, e não a do time que está na defesa. O mesmo parece valer
para o movimento: se os dois jogadores estão se mexendo, a visão fica borrada.
Os pesquisadores sugerem que, na verdade, a mente faria uma imagem composta da
cena, juntando dados de instantes diferentes num quadro artificial único.
Em breve disponibilizaremos este estudo na íntegra no nosso site.
*O jornalista Reinaldo José Lopes escreve para o portal de notícias G1.
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