Homens do Apito


Hoje, todo mundo sabe, a Federação, através de seu departamento especializado, é quem indica os juizes que farão parte do sorteio do Clássico Gre-Nal. Antigamente, no entanto, a coisa era bem diferente. Os primeiros clássicos, por exemplo, foram conduzido por figuras do comércio de Porto Alegre.

O primeiro Gre-Nal, lá pelos idos de 1909, teve Waldemar Bromberg, nome que dispensa apresentação. Os seguintes foram apitados por gente de nome, como Theobaldo Foergens. Era um tempo tranqüilo, quando o Gre-Nal ainda não tinha a força e tradição de hoje, vivendo longe de uma rivalidade que não tem paralelo com a atualidade.

O tempo, é claro, foi mudando tudo. E de Waldemar Bromberg até Carlos Simon de hoje, muita gente tida como iluminada na difícil arte de apitar futebol esteve sendo endeusado e vaiado dentro das quatro linhas.

Gente como Henrique Maia Faillace, o rei do apito, título que conquistou depois de muitos anos de excelentes atuações. Gente como Ari Lund, Oto Pedro Bumbel, Osvaldo Rolla (Foguinho), Aparício Viana e Silva. Importantes árbitros nacionais como Mário Vianna, Romualdo Arpi Filho, José Roberto Wright e Arnaldo César Coelho também apitaram clássicos.

Gente importada, que veio trazer seu quinhão valioso, embalando novas frentes na arbitragem gaúcha e brasileira, como Mr. Barrick, que inovou, impondo seu flamante fardamento negro, com calções meia-canela, meias brancas e chuteiras. Até então (idos de 40), os juízes aqui atuavam de um branco impecável e sofriam as maiores gozações quando enfrentavam um gramado molhado e cheio de barro.

Em tudo isso, uma verdade: a difícil luta desses homens de preto, heróis e bandidos em 90 minutos, que de juízes passam com incrível rapidez a sopradores de apito, numa desvalorização que oscila ao sabor dos resultados.

Para eles, para todos que inscreveram seus nomes entre os 'ilustres' condutores do maior clássico brasileiro, o consolo de alguém que foi jogador dos bons e depois impôs sua grande personalidade como juiz, ganhando notoriedade no Brasil todo: Julio Peterson (1 clássico)

E dele a frase mais explosiva de todos os tempos, dita publicamente: "Todo goleiro (e ele foi goleiro...) é frangueiro, todo juiz é ladrão."


Carlos Martins, 24 clássicos


Zeno Barbosa

 

 Árbitros do Gre-Nal

         
Árbitro J VI E VG
Carlos Martins 24 3 12 9
Agomar Martins 23 13 6 4
Carlos E. Simon 15 3 4 8
Alfredo Cesaro 13 9 2 2
Osvaldo Rolla 13 4 6 3
José Luis Barreto 13 2 9 2
Luís Cunha Martins 11 1 5 5
Henrique M. Faillace 10 7 1 2
Renato Marsiglia 10 1 4 5
Mr. Barrick 9 3 3 3
Luiz Torres 8 4 1 3
Ricardo A. da Silva 7 1 3 3
José Mocelin 7 3 3 1
Sílvio Oliveira 7 3 2 2
Álvaro Silveira 6 2 2 2
Roque José Gallas 6 3 2 1
Theobaldo Foernges 5 1 0 4
Fortunato Tonelli 5 3 1 1
Mário Severo 5 1 0 4
José Roberto Wright 5 2 1 2
Romualdo Arpi Filho 5 2 2 1
Leonardo Gaciba 5 2 2 1
Heitor Deste 4 2 1 1
Aparício Viana e Silva 4 4 0 0
Airton Bernardoni 4 1 3 0
Fabiano Gonçalves 4 2 1 1
José Carvalho 3 3 0 0
Artur Vilarinho 3 2 1 0
Mário Vianna 3 2 1 0
Miguel Comesaña 3 1 1 1
Sílvio Rodrigues 3 1 2 0
Paulo César Oliveira 3 2 0 1

* J - Jogos, VI - Vitórias do Internacional; E - Empates; VG - Vitórias do Grêmio.


Romualdo Arpi Filho, 5 clássicos


Agomar Martins, 23 clássicos
Armando Marques, 2 clássicos

 


Bernardoni, 4 clássicos


Hans Lutzkat, 2 clássicos


José Luís Barreto, 13 clássicos


Orion Sater de Mello, 1 clássico


Luiz Torres (8 clássicos) leva uma voadora de um torcedor em um Gre-Nal de 1977

Arnaldo César Coelho apitou apenas um clássico, porém o mais famoso, o Gre-Nal do Século

Fonte: classicogrenal.com.br


As Pioneiras

Pronunciamento: Sessão Solene pelo Dia Internacional da Mulher

Senhor Presidente, Senhores Vereadores, Telespectadores da TV São Paulo, Senhoras e Senhores.  

 É com muita alegria e satisfação que venho fazer  esta homenagem, em meu nome e do meu partido, o PPS, a uma mulher extremamente forte, corajosa, batalhadora e competente no desempenho da sua função: Silvia Regina de Oliveira, (foto). E quanta coragem teve esta mulher ao escolher a sua profissão! Num meio notadamente machista e preconceituoso, Silvia Regina é uma vencedora e exemplo para todas nós, mulheres.

Eu jamais imaginei que, um dia, teria a honra de homenagear uma mulher que, literalmente, tenha vencido o medo e o preconceito unindo o batom, o calção e o apito.

Pois Silvia Regina de Oliveira é arbitra de futebol, é a única mulher paulista a integrar o quadro de árbitros internacionais da FIFA, e vem se destacando, com graça, talento e competência, ao apitar os jogos do atual Campeonato Paulista.

Jogos como o deste domingo, entre Ituano e Botafogo, ou em outra partida recente, São Paulo e Portuguesa Santista, transmitido pela TV, ao vivo, para todo o Brasil.  Silvia é um sucesso!

Pioneira, ela estreou apitando uma partida de futebol há 21 anos, quando passou a formar com outras duas colegas o primeiro trio feminino de arbitragem no Brasil.

 Sem medo da cara feia de nenhum marmanjo, dentro do campo ou na torcida, nem desanimar diante de piadinhas grosseiras e gracejos machistas, Silvia mostrou que não fica atrás de nenhum homem em competência e qualidade técnica.

Ao contrário. Une à sua indiscutível capacidade, comprovada em mais de 600 jogos apitados, o sorriso encantador, o charme e a beleza que conquista os homens, deixando-os todos a seus pés, numa partida de futebol ou fora dela.

Silvia Regina superou todos os obstáculos e preconceitos com talento, coragem, integridade e obstinação, atuando sempre de modo imparcial e fazendo-se respeitar pela seriedade e preparo.

Hoje, unindo o batom e o apito, ela já faz parte da nossa História, como digna representante do sexo que até pouco tempo atrás era considerado “frágil” – e demorou muito até para pisarmos num campo de futebol.

Mas mulheres como Silvia Regina têm nos dado provas significativas de que esse rótulo de fragilidade já  está completamente ultrapassado, quebrando tabus e enfrentando preconceitos.

Sensíveis, vaidosas, belas e femininas, sim! Mas também guerreiras, idealistas, corajosas, revolucionárias, vencedoras!

Parabéns, mulher brasileira, a quem presto esta homenagem na presença da árbitra de futebol Silvia Regina de Oliveira, que nos ensinou que não existem limites para nós, mulheres. Nada que não possamos ultrapassar.

Conquistaremos sempre qualquer espaço, principalmente com as nossas marcas, que são: idealismo, determinação e muito amor!

Viva a Mulher Brasileira!  Hoje e nos 365 dias do ano!

Muito obrigada.

(pronunciamento da vereadora Myryam Athie, do PPS, em 11/03/2003, na Câmara Municipal de São Paulo)


Minas Gerais (foto). Quem conhece a primeira mulher a concluir um curso de arbitragem? Na foto a mineira... Em breve maiores informações...

Árbitra Pioneira e Foz do Iguaçu

A primeira árbitro feminino do futebol de Foz do Iguaçu, disse que sentiu vontade em atuar como “vossa senhoria” quando viu o sucesso da amiga Eliane Gomes de Souza, que já atuou pelo Gresfi de Foz e hoje reside em São Miguel do Iguaçu. Desde que começaram os campeonatos da Liga Iguaçuense, ela tem sido escalada para trabalhar e afirma que levará a sério a nova profissão. Solteira, não pensa em casamento pois gosta de liberdade. Mora com a amiga Marilde Terezinha Becker, que também é oficial de arbitragem do quadro da Liga Iguaçuense de Futebol de Salão.
Marilde é uma das incentivadoras.


Algumas mulheres destaque no Brasil e no mundo ,
 
* Alzira Soriano - Foi a primeira prefeita brasileira, eleita em 1928 em Lages, no Rio Grande do Norte, o primeiro Estado do país a garantir o direito de voto às mulheres.
 
* Asaléa de Campos - Foi a primeira mulher árbitro de futebol reconhecida no mundo. Ela cursou oito meses a escola de árbitros da Federação Mineira de Futebol, em 1967. Mas foi só em 1971 que o diploma dela foi reconhecido pela FIFA.
 
* Ellen Gracie Northfleet - Foi a primeira juíza do Supremo Tribunal Federal.
 
* Eunice Michiles - Foi a primeira senadora do Brasil, em 1979.
 
* Eva Evangelista de Souza - Ela nasceu no Acre e foi a primeira mulher a presidir um Tribunal de Justiça no Brasil
 
* Iolanda Fleming - Foi eleita no Acre, em 1986, e assumiu o título de primeira governadora brasileira.
 
* Maria Augusta Generoso Estrella - É a primeira médica brasileira. Ela estudou na New York Medical College and Hospital for Women, Estados Unidos, porque as universidades brasileiras não aceitavam mulheres. Maria Augusta também teve a primeira bolsa de estudos concedida a uma mulher pelo governo brasileiro.
 
* Maria Lenk - Foi a primeira atleta sul-americana a participar de uma Olimpíada, em Los Angeles/ 1932.
 
* Rachel de Queiroz - Entrou para a história como a primeira escritora a ocupar uma vaga na Academia Brasileira de Letras, em 1977.
 
* Rita Lobo - É a primeira médica formada em território nacional. Cinco anos depois que o governo permitiu a matrícula de mulheres nas universidades, em 1879, iniciou seus estudos na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro.
 
* Zilda Arns Neumann - Em setembro de 1983, criou a Pastoral da Criança, por indicação da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB. A meta a ser alcançada por essa entidade era multiplicar o conhecimento nas áreas de aleitamento materno, saúde da gestante, reidratação, soro oral e educação infantil.,
 
Fonte: www.guiadoscuriosos.com.br

Saudade de Léa Campos, a pioneira

Site: www.futebolinterior.com.br

Coluna: Apito Amigo - Davi Aveiro - 02 Jul 04

Atendendo a um pedido da minha amiga e árbitra Ana Maria Cecílio, vamos começar esta coluna falando da arbitragem feminina no Brasil. De fato, a primeira mulher a se tornar árbitra de futebol no mundo foi Asaléa de Campos Michelli, mais conhecida como Léa Campos, nascida como a Ana Maria, em Minas Gerais. A pioneira do apito Léa Campos ainda foi centroavante de um time feminino em Minas Gerais, além de miss Belo Horizonte, jornalista de emissoras de rádio mineiras e relações-públicas do Cruzeiro.

Léa começou a apitar em 1967, quando fez o curso do Departamento Amador da Federação Mineira de Futebol (FMF). Por causa de seu pioneirismo, seu diploma só foi reconhecido pela Fifa e pelo Governo Federal em 1971. Ela representou o Brasil no Mundial Feminino no México.

Léa apitou por vários estados brasileiros, exceto São Paulo, pois a Federação Paulista de Futebol (FPF) considerava ilegal o exercício da função de árbitro de futebol por mulheres. Ela também apitou partidas na Europa e nas Américas Central, do Norte e do Sul, sem nunca ter recebido reclamações por suas arbitragens, pois tinha um preparo físico invejável, muito forte – e bonita - e, nos dias de hoje, tenho certeza absoluta que seria a maior árbitra do mundo. Um problema nos joelhos causado por sua atuação como jogadora a afastou dos gramados definitivamente. Nós todos temos saudades de Léa Campos.

Ainda falando sobre árbitras brasileiras, queria ressaltar alguns destaques de outros estados, muito bem lembradas na mensagem que Ana Maria Cecílio me enviou dia desses. Antes de mais nada, Ana Maria: realmente, a árbitra de que Armando Marques lembrou-se há alguns meses era a própria Léa Campos e não você, já que você deve ser bem mais nova na função. Quem deve te conhecer bem, creio, é Márcio Resende de Freitas, que até elogiou suas atuações recentemente.

Algumas das árbitras que se destacaram e se destacam: Shirley Cândido, que teve excelente desempenho no Campeonato Goiano; Lucimar Lauxen, quem diria, apitou não menos que três rodadas da primeira divisão do Campeonato Catarinense, acompanhada de Cleidy Mary e Érica Kraus. No Sergipe, a Maria de Fátima Teles, é uma veterana em Campeonato da primeira divisão e este ano apitou quatro rodadas. Ticiana Falcão foi eleita a melhor árbitra-assistente de Alagoas.

Em Minas Gerais as mulheres também foram destaque, atuando como árbitras ou árbitras-assistentes: Marley, Maria Cláudia e Ângela (assistentes) deram show de beleza e competência no Campeonato Mineiro e Cássia Alves foi a primeira árbitra a estrear na primeira divisão (apitando). Deise Toscano é um dos destaques do Ceará e esteve presente em grandes partidas no seu estado, tanto que está atuando na segunda divisão do Brasileiro. Elisângela de Almeida, do Mato Grosso, também é uma excelente auxiliar e tem participado com destaque das últimas finais do campeonato estadual.

Ana Maria Cecílio, árbitra da Federação Mineira e da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), nós realmente temos que evidenciar alguns nomes femininos, renovar nosso quadro de árbitros e dar oportunidade a árbitras brasileiras que tenham condições para apitar e ser assistentes na Série A do Campeonato Nacional.

Queria dizer a você o seguinte: assisti à partida entre São Paulo e Ponte Preta no sábado e mais uma vez fiquei decepcionado com a atuação de Sílvia Regina de Oliveira, que mais uma vez foi muito confusa nas suas decisões e estava na geladeira. Sua participação realmente foi um desastre em todos os sentidos, envolvida pelos jogadores a todo instante, parece que esqueceu o pouco que sabia quando começou a apitar a divisão maior do Estado de São Paulo. Estou a vontade para critica-la pois a elogiei e a apoiei por diversas vezes, mas, no final da primeira fase do Campeonato Paulista, em Araras, marcou uma penalidade máxima inexistente contra o União São João em prol do São Caetano, que veio a se classificar à segunda fase do torneio e se tornar campeão paulista.

Árbitro de futebol atuava como jogador profissional nas horas vagas

Paixão pelo esporte fez mineiro atuar como árbitro e jogador

Carros importados, coberturas duplex, mulheres a vontade, fama. Para quem acha que na vida de jogador de futebol existem apenas glórias está enganado. Principalmente a vida dos jogadores que atuavam há três, quatro décadas. O que dizer então da vida de árbitro em meados de 1950, 1960 ou 1970?

Itacy Fernandes Vilela conhece muito bem os dois lados dessas profissões. A paixão pelo futebol era tanta que ele jogava futebol profissionalmente assim como fazia parte do quadro de árbitros da Federação Mineira de Futebol. “Quando não estava jogando, estava apitando”, diz orgulhoso.

Ex-jogador do Atlético Mineiro, com passagens pelo juvenil do América Mineiro e Sete de Setembro, Itacy começou sua vida de esportista em 1935 jogando até 1979. Como árbitro atuou de 1952 a 1978. Ele conta que não existia tanta polêmica em torno de um árbitro de futebol que também atuava como jogador: “Podíamos apitar e jogar, era legal. Mas minha preferência sempre foi pela arbitragem”.

Atuando ao lado de Cafunga, Mexicano e Murilo pelo Atlético o zagueiro machucou-se em uma partida contra o Flamengo. Depois disso, a arbitragem foi fundamental para continuar no esporte. “Fiz história. Apitei um dos primeiros jogos do Mineirão”, revela. Ele assume que os jogos de Santos e Flamengo eram os mais prazerosos de apitar. “Ver craques como Pelé, Coutinho, Dirceu Lopes e Tostão jogando facilitavam nosso trabalho”.

Descontente com o futebol moderno por considerar apenas um negócio, sem amor algum, Itacy Fernandes não acompanha mais nenhum jogo. “Hoje o cara beija a camisa de um clube e no outro dia já está em outro, fazendo juras de amor”. Aos 84 anos, Itacy confessa que árbitro de futebol sempre foi cercado de polêmicas. “O juiz é o principal dentro de campo. Se apitar mal prejudica todos. É preciso amor a profissão”.

A partida entre Cruzeiro e América no início da década de 70 foi a mais difícil e polêmica de sua vida. “Alegaram que não dei um pênalti para cada equipe”. Jogadores reclamões não faltavam. Piazza, diz Itacy, se destacava. “Por ser o capitão da equipe ele chegava para reclamar com os braços para trás, como quem não queria nada. Logo dizia: deixe os braços normais e vá jogar futebol!”.

A profissão de funcionário público do INSS ajudava-o a ganhar dinheiro. De acordo com Itacy, era preciso atuar em todas as áreas para sobreviver honestamente. O homem da mela preta nunca o procurou porque, justifica, não dava oportunidade e exigia respeito de todos.

Hoje, Itacy passa grande parte de seu tempo em sua casa recoberta com grandes árvores, jaboticabeiras, flores. Morando há mais de 50 anos no Carlos Prates ele diz que algumas pessoas ainda o reconhecem na rua. “Apesar disso, não quero saber mais de futebol”, confessa.

Autor: Daniel Penalva


Histórias do polêmico Mario Vianna

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       Em campo, fazia de tudo: peitava, gritava, agredia até. Era seu jeito de se fazer respeitado por todos. Mário Gonçalves Vianna tinha 1.74 de altura e pesava 90 quilos de uma vitalidade que impressionava a todos que o conheceram. Mário Vianna foi de tudo um pouco: baleiro, engraxate, jornaleiro, empacotador de velas, fiscal da guarda civil, policia especial, juiz de futebol, técnico do Palmeiras, Portuguesa e São Cristovão, e finalmente, comentarista de arbitragem na Rádio Globo.

Sua excelente condição física foi adquirida na Policia Especial. E foi apitando peladas, que José Pereira Peixoto, um policial amigo, o convenceu a fazer um curso de árbitro para Liga Metropolitana onde ingressou como primeiro colocado de sua turma. Sua estréia oficial foi na partida de juvenis entre Girão de Niterói e São Cristovão. Neste jogo ele definiu o estilo que trataria de aperfeiçoar ao longo de sua carreira até torná-la uma espécie de marca pessoal: expulsou Mato Grosso, zagueiro do seu querido São Cristovão.

Desde então, começou a construir sua fama de juiz rigorosíssimo, destes que não perdem as rédeas da partida, mesmo nas situações mais adversas. Como naquele Botafogo e Flamengo em General Severiano. Mário Vianna expulsou jogadores do Flamengo, os torcedores não gostaram e começaram a atirar garrafas e pedras contra ele. E Mário não teve dúvidas: devolveu tudo para as arquibancadas.

Mário Vianna nunca foi homem de meias medidas. Foi responsável pela única expulsão de Domingos da Guia em onze anos de carreira. Também teve uma passagem com Nilton Santos no clássico Botafogo e Vasco. Atendendo a uma denuncia do bandeirinha, expulsou Nilton Santos que era um gentleman, por ofender o auxiliar. Mário achou estranho o caso e, nos vestiários pressionou o bandeirinha que terminou confessando que tinha mentido. Ele ficou sem graça, foi ao vestiário do Botafogo e pediu desculpas a Nilton Santos.

Segundo Mário Vianna, dois jogadores lhe deram muito trabalho: Heleno de Freitas e Zizinho. Heleno era irreverente, malicioso. Um dia, no campo do Vasco, tentou comprometer a arbitragem perante o publico, entregando um disco de bolero que o próprio Mário Vianna tinha pedido para o atacante do Botafogo trazer do Chile. O disco foi entregue na pista do estádio e diante do publico. No jogo, Heleno quis comandar a arbitragem e terminou expulso de campo.

Houve um jogador que, talvez por ser estrangeiro e desconhecer a fama de valentão de Mário Vianna, teve a infeliz idéia de desafiá-lo. Foi durante o jogo Itália e Suíça na Copa do Mundo de 1954. Inconformado com uma marcação do brasileiro, Boniperti partiu para cima do juiz aos empurrões. Mário Vianna aplicou-lhe um direto no queixo. Mandou que o carregassem para os vestiários e, ironicamente, disse para o massagista – Se ele tiver condições, pode voltar para o segundo tempo. Boniperti voltou bem mansinho.

Durante a Copa do Mundo de 1954, no jogo Brasil x Hungria, chamou o juiz Mr. Ellis e os dirigentes da FIFA, de “camarilha de ladrões”. Foi expulso do quadro de árbitros da entidade. Quando já era comentarista de arbitragem na Rádio Globo, quase perdeu o emprego por duas vezes. Na primeira, disse que o juiz Abraham Klein, além de judeu era ladrão. Os patrocinadores do programa eram, como Klein, judeus. Outra vez, numa mesa redonda na TV, sentiu-se asfixiado pela fumaça dos cigarros que os companheiros fumavam. E Mário Vianna desabafou – “Parem de fumar, isso é um veneno, polui os pulmões”. O patrocinador do programa era a Souza Cruz, fabricante de cigarros.

Como todo personagem folclórico, Mário Vianna também tinha o seu lado místico. Era espírita da linha Alan Kardec, rezava ao se deitar e se levantar. Alguns casos são conhecidos. Na Copa de 1970, era companheiro de quarto de Luis Mendes. Certa manhã ao se levantar, virou-se para o companheiro e disse – “Mendes, liga para tua casa porque seu irmão desencarnou”. Apavorado, Luis Mendes pegou o telefone, ligou para casa e ficou sabendo que seu irmão havia falecido naquela madrugada. Waldir Amaral conta que certa vez estava embarcando com Mário para São Paulo. E Mário advertiu – “Waldir esse avião vai pifar. Vamos esperar outro vôo”. – Que nada, Mário, deixe de besteiras – retrucou Waldir Amaral. Os dois embarcaram e quando o avião ia decolar, o motor enguiçou e o piloto foi obrigado a dar um cavalo de pau para não cair na baía da Guanabara.

Mário Vianna foi um homem de muitas histórias. Histórias colhidas ao longo de 38 anos de Policia Especial, 25 de árbitro e 22 de comentarista. Mário faleceu no Rio de Janeiro no dia 16 de outubro de 1989.
 

Mario Vianna brigou com a torcida

Esporte Ilustrado

       A atitude do arbitro Mário Vianna, no campo de General Severiano, na tarde de 23 de novembro de 1947 quando jogavam Flamengo e Botafogo, pode ser alvo de um meticuloso estudo psíquico, em face dos acontecimentos que precederam os lances que culminaram com uma resolução drástica. Parecia impossível, um homem enfrentar uma multidão.

Tudo começou com um lance perdeu do alambrado onde estava a torcida do Flamengo, quando um torcedor jogou uma garrafa que caiu entre Sarno, Tião e bandeirinha. Mário Vianna apanhou a garrafa, voltou-se para a torcida e ameaçou atira-la de volta. Foi aquele corre corre. E ele gritou – Porque correram ? É porque a garrafa machuca ? Então porque jogaram ? O publico aplaudiu Mário Vianna e o jogo continuou. Quando o Botafogo já vencia por 4x2, aconteceu o lance fatal. Pirilo deu um ponta pé no goleiro Osvaldo do Botafogo e foi expulso. Tião reclamou e também saiu mais cedo. E quando Mário Vianna passou perto das gerais, onde estava a torcida do Flamengo, foi atingido por um pedaço de pau. Irritado, pegou o pedaço de pau e jogou contra a torcida. A reação popular foi imediata. Uma verdadeira chuva de pedras, paus e cadeiras caíram no gramado, sempre procurando atingir o juiz. Em principio, Mário Vianna tentou revidar, mas depois teve que recuar. Somente com a intervenção da policia é que a coisa parou. O jogo não terminou por falta de garantias.

Uma semana antes, meia dúzia de torcedores, no campo do Bonsucesso, agrediram o juiz Alberto da Gama Malcher que ficou com o rosto todo machucado. Durante a semana, se seguiram uma série de fatores que abalaram Mário Vianna, o juiz numero um do Brasil. No momento em que ele foi atingido por um pedaço de pau e o devolveu para a torcida, queria vingar o amigo Gama Malcher. Depois dos acontecimentos de General Severino o Tribunal de Justiça suspendeu Mário Vianna por 30 dias. Ele apelou para o Conselho Regional de Desportos que cancelou a pena.
 

Fonte: Museu dos Esportes


JUIZ

Profissão: sofrer, apanhar
 
Publicado na Folha de S.Paulo, segunda-feira, 28 de outubro de 1974

- "Bom juiz é aquele que só é notado quando o jogo acaba".
Eles começam timidamente, apitando jogos inexpressivos. Depois vão subindo na profissão e às vezes ganham manchetes. Mas isso só acontece quando erram. Quando apitam bem, passam despercebidos, ganham alguns elogios que são rapidamente esquecidos no momento de um erro. Aí o juiz de futebol volta a ter seu nome falado, quase sempre acompanhado dos xingamentos e da ira da torcida.
Para o argentino Roberto Goicochea, que apitou algum tempo no futebol paulista, para ser bom juiz de futebol o candidato precisa ter cinco qualidades. Goicochea foi embora, mas suas lições ficaram:

1 - Ser moralmente forte e de moral limpo;
2 - Ser completamente imparcial;
3 - Ter excelente preparo físico;
4 - Ser humilde;
5 - Não querer aparecer como dono do jogo.

A essas cinco qualidades, poderia ser acrescentada uma outra: coragem. Juiz que tem medo de apanhar, não vai além na profissão. Fica logo num jogo difícil de Segunda ou Primeira Divisão, onde a torcida nem sempre perdoa a imparcialidade e a boa intenção do árbitro. O que importa é que o time da casa vença. Ou melhor: que o time de maior torcida ganhe.
Às vezes aparecem os mais corajosos, como João Carlos Dipoldi, um árbitro da Federação Paulista que em novembro de 1973 expulsou os 22 jogadores e os dez reservas, que momentos antes haviam se engalfinhado numa tremenda briga. Aconteceu no jogo Mogi-Mirim vs. Cafelandense, pela 2a Divisão.
Na profissão maldita existe de tudo. Até juizes que criam novos métodos como "Careca", um árbitro pernambucano. Num Campeonato do Intermunicipal, ele chegou cedo para arbitrar Gigantes vs ABC, grande decisão do futebol amador de Recife. Olhou o campo encharcado, a chuva que não parava mais de cair e decidiu:

 

"Vai ter jogo"

Dito isso, autorizou a entrada das duas equipes em campo e colocou seu carro, um Volks, à beira do gramado e de lá, enquanto os jogadores se degladiavam no campo sem condições, comandou o espetáculo substituindo o apito pela buzina. Às vezes, em lances duvidosos, "Careca engatava a primeira e entrava com o carrinho no gramado, a fim de resolver a pendência. No fim, o Gigantes venceu por 6 a 2 e tudo terminou em paz. A arbitragem motorizada de Francisco Bezerra, o "Careca", tinha sido aprovada.
No início de sua carreira, Armando Marques também passou seus maus pedaços. Foi assim em Santos Dumont. Neste dia também chovia muito e Armandinho havia sido enviado para levar à frente uma decisão amadora na cidade. A torcida colocou-se perigosamente em cima de um barranco que ficava ao lado do campo. Fim da partida, placar de 2 a 2, a torcida de Santos Dumont insatisfeita com empate desceu ameaçadoramente do barranco-arquibancada em direção a Armando. Ele teve tempo apenas de agarrar na roupa e correr em direção à estação da cidade, onde embarcou num trem de carga. Só lá se lembrou dos sapatos. Mas era tarde. A solução foi lustrar as chuteiras e assim chegar ao Rio.
O juiz Dulcídio Vanderlei Boschilla já nocauteou torcedores que o ameaçavam e já usou revólveres para sair de uma cidade do Interior.
"Fui apitar Penapolense vs. São Bento de Marília e, em certo momento, os jogadores começaram a brigar. Vários deles se voltaram contra mim. Tive de fugir para o vestiário."
Lá a torcida o esperava. Os vidros estavam quebrados e a porta de ferro do vestiário estava ameaçadoramente sendo empurrada pela massa irada. Dulcídio, soldado da Polícia Militar, tirou o revólver da valise, deu três tiros para o ar e conseguiu escapar. Mas só pôde sair da cidade à meia-noite.
Apesar de todos os dramas, arbitro brasileiro ainda tem sorte. Em Córdoba, na Argentina, em fevereiro de 1972, jogavam Sportivo Rural vs. Belgrano. Lá pelo meio do segundo tempo, o juiz Oscar Fragot expulsou um jogador do Sportivo. Foi o suficiente para estourar uma briga terrivel. Fim de guerra: o bandeirinha Agustin Bazzo estava morto de tanto apanhar.
Em junho de 1971, na decisão do Campeonato Norte-Nordeste, foi a vez do carioca José Aldo Pereira passar seus maus momentos. Depois, ele contava:
"Jogavam Ceará e CSA. Marquei um penalti contra o Ceará, mas tudo terminou bem, apesar do chefe do policiamento dizer que ia me matar se tudo não saisse direitinho. Saiu."
Há algumas semanas, em Sergipe, aconteceu o inverso: Gilson, jogador do Olimpico, num jogo Sergipe vs. Olimpico, foi expulso pelo arbitro Marcelo Fernandes. Ao invés de aceitar a punição com calma, foi pedir satisfação ao juiz. Em resposta recebeu quatro murros no rosto, fato exaustivamente comentado pela imprensa local, que passou a perguntar: "o que será do futebol se os juizes passarem à agressão?
Em outubro de 1970, o juiz Carlos Batista Lopes foi a Leme, no Interior de São Paulo, arbitrar Lemense e Santa-ritense, pela 2ª Divisão. O Santa-ritense estava ganhando de 1 a 0, quando explodiu a confusão. No fim, protegido pelos diretores locais, satisfeitos com o placar final de 2 a 1, Carlos Lopes viu que suas roupas estavam no chão do vestiário, rasgadas e sujas de barro. O seu relatório para a Federação foi muito claro: a partida havia terminado aos 37 minutos do 2º tempo e o Santa-ritense havia vencido por 1 a 0. O resto do tempo de jôgo tinha sido amistoso, unica forma do arbitro sair vivo do campo.
Mario Vianna, considerado um exemplo de arbitragem, tem histórias famosas. Uma delas diz que antes das partidas ele passava o tempo no vestiário girando em torno de um círculo imaginario, batendo no peito e dizendo com força:
"Eu sou Mario Vianna, Vianna com dois enes, símbolo do juiz honesto... Eu sou Mario..."
Assim adquiria forças para não errar, como naquele jogo entre as seleções do Chile e da Colombia. Aos poucos a partida foi tornando-se ríspida. Mario percebeu a ameaça de briga e não deixou por menos: cerrou os punhos e avisou os jogadores.
"Eu acerto o primeiro que quiser brigar".
Ninguém brigou.
Mas o melhor exemplo de interpretação da regra do jogo foi dado em 1955, no Pacaembú, pelo próprio Mario. Jogavam Palmeiras e São Paulo e o ponta esquerda Rodrigues, do Palmeiras, cruzou uma bola alta para a área. Clelio tentou alcançar a bola com as mãos e não conseguiu. Mario apitou penalti e quando foram reclamar, com sua voz potente não deixou por menos:
"Não tocou na bola, mas teve a intenção. É penalti. Não admito discussões."
 

Roupa linda de morrer

Em 1995 a CBF divulgou uma circular, recomendando aos árbitros que se apresentassem aos delegados das partidas do Brasileiro, trajando terno e gravata.

Luciano de Almeida e os assistentes embarcaram para atuar em Barra do Garças, interior do Mato Grosso, na partida entre o time local e o Novorizontino. Chegando ao hotel, um dos assistentes, que por sinal estava estreando no quadro nacional, havia esquecido o paletó em casa. Ele começou a suar frio, apesar do forte calor que fazia na cidade. Meu Deus! Sua carreira iria para o vinagre.

E o pior, era domingo e não havia nenhuma loja aberta na cidade. Nisso, Luciano teve uma idéia brilhante. Pediu que o amigo se acalmasse e disse:

- Vem comigo. Vamos resolver isso. Os dois foram até uma funerária, onde haviam alguns ternos, normalmente usados para vestir os defuntos. Com muito custo, eles convenceram o dono da funerária a alugar um deles.

Mesmo sendo uns dois números menor, o assistente vestiu o paletó e lá foram eles. No estádio, o delegado da partida estava de camiseta e bermuda, sofrendo com o sol forte:

- Meus amigos, vocês vão a alguma festa? Pra quê isso tudo? Os dois se entreolharam e começaram a gargalhar. O representante da federação não entendeu nada. Em tempo: O time da casa venceu por 1 a 0 e o aluguel da "beca" custou 100 reais. Segundo o comerciante, seria um precinho de ocasião porque o paletó era, literalmente, lindo de morrer...

Fonte: Jornal dos Sports - Apito da Silva


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