
Patriotismo e carreira dividem árbitros brasileiros na Copa
|
|
|
||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
|
São Paulo - 07/06/2006 O espírito de torcedor pintado de verde-amarelo e a certeza de que a seleção sempre pode chegar à decisão são capazes de tumultuar, e muito, a cabeça de um árbitro brasileiro. O patriotismo que se espalha pelo país na época da Copa do Mundo tem o poder até de excluir os planos mais ambiciosos que um árbitro pode ter em sua carreira: apitar uma final de Copa. O 11º árbitro brasileiro que irá trabalhar
em uma Copa do Mundo, o gaúcho Carlos Eugênio Simon está na Alemanha para
sua segunda experiência, em uma trajetória que começou em 1930, com
Almeida Rego. Desde então, o país não teve um representante na arbitragem
apenas nas edições de 1934, 1938 e 1958, ano em que a arbitragem local foi
punida em razão da criticada atuação de Mário Vianna na edição anterior e,
principalmente, da primeira conquista da seleção, que se consagraria mais
tarde pentacampeã e candidata ao hexa. |
|||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
|
NERVOSO? BEBA CHIMARRÃO |
Carlos Eugênio Simon estava todo sorridente durante a apresentação dos 23 árbitros que trabalharão na Copa. Dias antes, porém, o gaúcho que apareceu na última segunda-feira saboreando chimarrão transbordava irritação. Em dois contatos telefônicos com o UOL Esporte, Simon pediu rispidamente nas duas vezes que o repórter ligasse mais tarde. Em ambas ocasiões, o telefone ficou desligado. E é a ansiedade sobre o que irá fazer em sua segunda participação na Copa que fazem outros brasileiros que já estiveram no Mundial acreditarem que Simon pode ter problemas em 2006. "Pelo que vi dos últimos jogos dele, não está bem. Parece que já está com a cabeça na Copa. Quando você não está focado na coisa, não dá certo", avalia Romualdo Arppi Filho, que não compartilha de visão tão apocalíptica da adotada por José Roberto Wright. "Ele está num momento ruim, e a Fifa já avisou: se algum árbitro começar a Copa mal, será devolvido". |
||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
![]() |
|||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| Arnaldo
César Coelho, por exemplo, jura que o marcante ato de levantar a bola com
os dois braços estendidos ao término da final entre Itália e Alemanha, em
1982, que acabou o consagrando e transformando em dono da opinião mais
poderosa dos comentários sobre arbitragem na TV brasileira, nunca fez
parte dos seus planos justamente por aquela Copa ter assistido uma equipe
com Falcão, Cerezo, Sócrates e Zico. Certo de que o Brasil dirigido por Telê Santana conquistaria o título do Mundial da Espanha mesmo antes de embarcar, Coelho virou turista após ter apitado o empate sem gols entre Alemanha e Inglaterra nas oitavas-de-final. "Pensei: cumpri minha parte, agora sou turista. Comprei bandeira, dois ingressos, para mim e minha mulher, e parei de treinar. Ficava na piscina do hotel e ia jogar tênis", relembra Arnaldo César Coelho, que se sentiu seguro para curtir a boa vida em Madri depois de ouvir de vários outros árbitros que a seleção brasileira era a barbada. "Todo mundo falava que o Brasil ia para a final". Paolo Rossi, porém, deu uma mãozinha para Arnaldo César Coelho entrar na história das Copas. "Aí o Brasil perdeu para a Itália e fui comunicado pela Fifa que apitaria mais um jogo". O árbitro voltou a treinar e, após ser excluído da escala das semifinais, veio a surpresa. "Quando viajei meu objetivo era apenas apitar bem um jogo. Não tinha mesmo a aspiração de apitar a final". O fracasso coletivo em benefício de uma realização pessoal, porém, não parou por aí. Quatro anos depois, no México, Romualdo Arppi Filho "não pensava em ir longe". "Quando fui, torcia para o Brasil". Mas não era apenas o fato da seleção, novamente dirigida por Telê, continuar com o status de uma das favoritas ao título que fazia Romualdo duvidar que sua história iria além do França e União Soviética que apitou e dos jogos entre Uruguai e Dinamarca e Argentina e Coréia do Sul, em que atuou como auxiliar. "O Arnaldo já tinha apitado a decisão de 1982, e mesmo com a eliminação do Brasil eu não pensava que seria indicado para a final". Romualdo Arppi Filho, no entanto, foi surpreendido. "Esperava que seria designado como auxiliar". Mas, a lembrança da decisão em que a Argentina bateu a Alemanha e que transformou Maradona em um dos maiores jogadores da história, ficou para trás, com certo ar de amargura. "Já passou vinte anos. Futebol já encheu a paciência. Estou aposentado aqui em Santos, sossegado. Isso ficou para o passado". A realização pessoal, entretanto, às vezes fala mais alto do que oba-oba em cima da seleção brasileira. "Realmente é um dilema muito grande. Por um lado você quer que seu país siga, mas também você não quer ficar de fora", admite José Roberto Wright, representante brasileiro na Copa da Itália, em 1990. Também atual comentarista de arbitragem na TV, Wright não faz nenhuma questão de esconder que sentiu uma certa satisfação quando o Brasil foi eliminado pela Argentina nas oitavas-de-final, que o possibilitou trabalhar nas semifinal entre Inglaterra e Alemanha, cuja atuação, segundo ele próprio, rendeu a maior nota que um árbitro já recebeu em uma partida de Copa -9,8. "O Juan Loustau, argentino, ficou muito chateado de ter de ir embora para casa. Para mim, no íntimo, gostei. Acabei conseguindo uma realização pessoal", revela José Roberto Wright. E a ambição de ser o figurante mais invejado do mundo futebol, às vezes, pode não ser manifestada apenas pelo árbitro. Renato Marsiglia, em 1994, assegura que foi para os Estados Unidos com a mesma vontade de ver o Brasil campeão que já envolvera Arnaldo César Coelho e Romualdo Arppi filho. Sua mulher, no entanto, queria mais era ver o marido no centro do gramado do Rose Bowl, em Los Angeles. "Dizem que é hipocrisia, mas não me passou pela cabeça apitar a final. Pela da minha mulher sim", afirma Marsiglia. "Ela dizia que aquela seria a única Copa que eu teria para apitar, enquanto o Brasil chegaria a uma final por outras vezes", diz o árbitro gaúcho, outro que também exerce atualmente a função de comentarista, do mesmo modo que o tantas vezes contestado Márcio Rezende de Freitas, representante do país em 1998 nas partidas entre França e África do Sul e Bélgica e Coréia do Sul. |
|||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
|
|||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| Fonte: Bruno Freitas e Danilo Valentini - www.esporte.uol.com.br | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
|
Copyright © ANAF.COM.BR ® Todos os direitos reservados. |