
Fim de carreira: O duro momento em que se pendura o apito
Apesar de todas as dificuldades, ou talvez devido a elas, poucas atividades são tão amadas por seus praticantes como a arbitragem. Independentemente de sua condição física ou técnica, todos são obrigados a encerrar a carreira aos 45 anos. Com a aposentadoria obrigatória surge a melancolia e, na maioria dos casos, crises de profunda depressão, pois, como artistas e atletas famosos, os árbitros sentem suas ausências nos grandes espetáculos, do público, e de seus nomes nas manchetes, mesmo nas desfavoráveis.
Para se adaptar à nova vida, alguns conseguem uma "boquinha" como comentaristas de rádio ou televisão. A maioria entretanto, tem que se contentar em reunir parentes e amigos diante das televisões em dias de grandes jogos e exibir tudo o que aprenderam durante a carreira. Em ambos os casos tornam-se severos críticos de seus sucessores no apito. Alguns são como ex-ministros da fazenda, ou seja: depois que deixam o cargo sabem exatamente como e quando tudo tem de ser feito.
Arnaldo Cezar Coelho, juiz da partida final da Copa do Mundo de 1982 entre Itália e Alemanha, parou de apitar sem trauma. Depois de 25 anos atuando no futebol de campo, a motivação já não era mais a mesma, apitar tinha virado um negócio obrigatório e rotineiro. Neste momento o destino interveio, Arnaldo recebera um convite para trabalhar na TV Globo onde é comentarista esportivo até hoje.
Após 23 anos como árbitro da Fifa ("eu mereço estar no Guiness Book") Romualdo Arppi Filho atingiu o grande momento de sua carreira às vésperas de se aposentar, ao apitar a final da Copa do Mundo de 1986 entre Argentina e Alemanha. É difícil definir se esse momento de glória ajuda a superar ou aguça ainda mais as saudades do veterano juiz. Ganhando a vida como corretor de imóveis em Santos, Romualdo combate à melancolia acompanhando sempre que possível o futebol, em especial a Portuguesa Santista, seu time do coração.
"Não está havendo uma cobrança rigorosa e competente, por isso não há evolução na arbitragem. Antes, além de sermos mais exigidos fora do campo, lá dentro a coisa era mais difícil. Atualmente, por exemplo, os árbitros assinalam pênaltis com a maior facilidade e nem os jogadores reclamam." (Romualdo acredita que 60% do desempenho de um árbitro depende de seu condicionamento físico. Por isso concorda com a proposta de se utilizar dois árbitros durante os jogos).
Parada brusca
Nem todas as carreiras têm final feliz. Algumas terminam precocemente e de forma traumática. Afonso Celso Patriani é um exemplo. Em 1986, durante a gestão de José Maria Marin na Federação Paulista de Futebol, Patriani e mais alguns árbitros decidiram entrar com uma ação na Justiça reivindicando que a Federação os registrassem em carteira como árbitros de futebol, fato até então inédito. O processo arrastou-se, até que em 1988 Eduardo José Farah assumiu a entidade. Com o novo presidente veio também o ultimato: "ou desistem da ação, ou da carreira."
"Não desisti da ação, mas perdi a carreira. Minha vida sempre foi a arbitragem. Por ela, perdi tudo, até a mulher. Mas me orgulho de ter sido o primeiro árbitro brasileiro a ter a profissão reconhecida, em carteira" desabafa Patriani. "É indescritível o prazer que se sente ao comandar, em ser dono do espetáculo, mesmo quando se tem todos contra".
Também a carreira de José Aparecido de Oliveira não teve o final que ele esperava. Faltando cerca de três anos para a aposentadoria compulsória, ele dava uma entrevista para uma rádio quando citou ter sido procurado por uma pessoa que, dizendo-se intermediário de um grande clube, pretendia fazer-lhe uma proposta. Como era de se esperar, José Aparecido imediatamente passou a ser pressionado não só pelos jornalistas, que queriam saber nomes e detalhes, como pela comissão de arbitragem, que o afastou temporariamente, até que o caso fosse esclarecido.
"Na hora foi todo aquele barulho. Depois, fiz um boletim de ocorrência denunciando a pessoa citada, que foi obrigada a prestar declaração e confirmou tudo. O caso morreu por aí. Ninguém se preocupou em levar as investigações adiante. Nem a imprensa me procurou para novas entrevistas."
José Aparecido voltou a apitar, mas nunca mais conseguiu a evidência de antes, e tem uma explicação:
"Essas denúncias podem fazer o seu
conceito crescer ou diminuir, depende dos interesses. No Rio, o Cláudio Cerdeira
se envolveu em um caso parecido com o meu, mas como encontrou gente interessada
e levar o caso adiante, acabou se saindo bem, enquanto eu...
Nota do Editor: O artigo conta casos interessantes mostrando como foi a aposentadoria para alguns ex-árbitros de futebol que fizeram história. Adaptado do texto original de Geraldo José Miranda.
Capturado: www.cartaovermelho
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